segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Resenha Crítica - ANALÍTICAS CULTURAIS de Lev Manovich



Resenha Crítica
Autores da Resenha: 
Sandra Pereira
Referência do Texto:
ANALÍTICAS CULTURAIS
Palavras-chaves (3):
ANALÍTICA – CULTURA - DIGITAL
Desenvolvimento do Texto:
       Lev Manovich (Moscou, 1960), crítico de cinema e professor universitário estabelecido nos Estados Unidos. É pesquisador na área de novas mídias, mídias digitais, design e estudos do software (software studies). Mudou-se para Nova Iorque nos anos 1980, onde realizou seus estudos em cinema e computação.                   Atualmente, Manovich atua como professor e coordenador do Centro de Pós-graduação em Humanidades Digitais (Digital Humanities) na City University of New York (CUNY), local onde fundou o primeiro centro de pesquisa dedicado ao tema das humanidades digitais, com programas de mestrado e doutorado na área e coordena o Laboratório de Estudos do Software (Software Studies Initiative - www.softwarestudies.com.br) em parceria com o CALIT2, da Universidade da Califórnia em San Diego (UCSD), o Graduate Center da CUNY e a Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).     
      Desde 2006, Manovich passou a se dedicar a analisar a chamada "sociedade do software". O seu grupo de pesquisa em Software Studies dedica-se a pensar os efeitos do software na sociedade e de que forma o software vem transformando a maneira como vivemos, pensamos, tanto economicamente quanto culturalmente,seus textos tratam de "cultural analytics", ou "analítica cultural", uma forma de se pensar nos efeitos do software sobre as representações culturais. Em, “Como acompanhar culturas digitais globais ou Analíticas Culturais para iniciantes”, o autor vem nos alertar que em tempos globais, qualquer pessoa, em qualquer parte do planeta, ao criar um blog passa a ser considerada uma produtora de conteúdo cultural nascido em meio digital, ainda que amadoristicamente, e pode compartilhá-lho com o mundo todo. Portanto, a oferta de produtos culturais não se restringe mais aos pólos  geradores de cultura tradicionais como Paris. Pulverizou-se a produção de conteúdos tanto profissional quanto amador e –sublinha o autor – as cidades do terceiro mundo e as do leste europeu, regiões ainda em expansão econômica, tem sido as mais receptivas aos novos softwares que possibilitam produzir arte, haja vista os vários sites de arquitetura no qual profissionais de todas as partes disponibilizam seus portfólios. É a globalização da cultura em meio digital! É a redefinição do que é cultura.
          No entanto, o autor alerta para outra situação: antes, os teóricos culturais e historiadores poderiam gerar teorias e histórias baseadas em pequenos conjuntos de dados, por exemplo, conseguiam escrever sobre o  "cinema clássico de Hollywood" ou sobre o "Renascimento italiano" pois a produção desses artefatos estava concentrada em alguns pólos e era necessário ir até eles, participar das exposições para poder escrever sobre os mesmos. Porém, como conseguir apreciar e acompanhar a  cultura que agora se cria em meio digital, e que é globalmente, produzida e ofertada diariamente por centenas de milhões de contribuintes no mundo todo? Como conseguir compreender como se deu o desenvolvimento de determinado produto, entender como cada “artista” concebeu sua “obra”? Quais as aspirações que subjazem em cada trabalho?
     Manovich frisa que não é possível “catalogar” tais conteúdos com as ferramentas que eram utilizadas no século 20 e aponta com uma possiblidade: “E se utilizássemos os softwares e computadores (que hoje em dia são onipresentes) para tal função?”
        Um dos objetivos que se acredita seja possível atingir mediante a utilização da Analítica Cultural é analisar quantitativamente a estrutura desses objetos e visualizar os resultados revelando os padrões que se escondem sob a estrutura e que não são possíveis de serem trabalhados sem a ajuda das capacidades de percepção e cognição humana. Outra possibilidade é estabelecer uma taxonomia para os diferentes tipos de conteúdo. Essa taxonomia pode orientar a elaboração de estudos e pesquisas, bem como, ser usada ​​para agrupar esses estudos uma vez que começam a se multiplicar considerando o incremento da quantidade de conteúdo digital disponibilizada a partir de meados da década de 1990.
        O autor argumenta que a utilização sistemática de análise computacional em grande escala e a visualização interativa de padrões culturais vai se tornar uma grande tendência na crítica cultural e nas indústrias culturais nas próximas décadas. O que vai acontecer quando os humanistas começarem a usar visualizações interativas como uma ferramenta padrão em seu trabalho, da mesma forma como muitos cientistas  já o fazem? Se através de slides (apresentações) é possível ensinar e aprender sobre história da arte, e se através de um projetor e da gravação de um vídeo é possível, igualmente, ensinar sobre cinema, fica a curiosidade: que tipo de disciplinas culturais (cadeiras nas universidades) podem vir a surgir a partir do uso da visualização interativa e da análise  de grandes conjuntos de dados culturais? Que tipos de novas demandas teremos? Afinal, com uma boa base de dados, estatisticamente analisados, é possível inverter o fluxo da produção cultural: se antes um jovem arquiteto lançava um portfólio arriscando-se a não vender seu produto; mediante análise da preferência do público ele pode atender melhor suas demandas e as chances de vender seu produto serão maiores. E assim é com todo tipo de artefato cultural ofertado pela web.
         Aos livros, jornais, revistas, filmes, obras de arte e arquivos de som, que estão sendo digitalizado em escala maciça, é possível aplicar técnicas de análise de dados para grandes coleções de diversos recursos do patrimônio cultural do mesmo modo como  já se aplicam essas técnicas aos dados científicos. Como essas técnicas podem ajudar os estudiosos a utilizar tais análises para fazer novas perguntas sobre o que é o conhecimento e sobre como obter novos conhecimentos para o benefício da humanidade? Como construir novos conhecimentos?
        Se quisermos estudar quais os estereótipos culturais contemporâneos e quais convenções delineiam a produção cultural atual, basta analisar os portfólios disponibilizados por contribuintes ainda “não profissionais” pois no afã de querer se profissionalizar, os mesmos acabam, inadvertidamente, expondo  os códigos e os protótipos (ou modelos) utilizados nas indústrias de uma forma muito clara. Ou seja, é possível perceber e desenvolver estudos sobre tendências culturais a partir da percepção de padrões.
          Manovich  faz uma profecia  em 2009 e que se cumpre na atualidade: sempre que acessamos a internet somos de algum modo “acompanhados” e há vários ícones piscando, pedindo para serem clicados e que funcionam como “agentes” que rastreiam os sites que visitamos e registram  nossas preferências. Tais procedimentos geram estatísticas e estudos de tendências de consumo que são vendidos para todos os tipos de indústria de modo que possam produzir de acordo com o esperado pelos clientes. Nesse sentido, a indústria cultural também se utiliza das mesmas ferramentas de análise. Se considerarmos que muito do que se disponibiliza atualmente na internet pode ficar armazenado em nuvens e deslocando esse argumento para a discussão dos bens culturais sob a ótica da preservação dos mesmos enquanto patrimônios culturais imateriais disponibilizados digitalmente, é de se imaginar que muito em breve não haverá mais necessidade de registrar tais acervos e surge o questionamento: preservar para quê e para quem?
       Ainda no tocante aos patrimônios culturais materiais e imateriais a escolha quanto ao que deve efetivamente ser preservado sempre costuma ser fruto de ajuizamentos feitos segundo os interesses de quem quer preservar. Nem sempre a decisão de preservar um patrimônio nasce no bojo das discussões  interativa entre múltiplos atores sociais. Nesse sentido, Manovich nos faz pensar que sendo a internet um território no qual todos podem disponibilizar e ofertar seus bens culturais, a decisão de quais acervos manter digitalmente para fruição permanente do público implica numa descentralização de poder, a partir do momento em que se leva em conta estudos estatísticos e humanísticos para melhor atender o público que consome arte, a própria oferta de um cardápio variado de produtos culturais implica em processos de seleção mais democráticos pois se atenta à formação do gosto sempre que se considera os estudos e indicadores que refletem as aspirações de quem consome tais produtos.
       Texto interdisciplinar dirigido para designers, produtores culturais, escritores, pessoas envolvidas em processos de registro de patrimônios culturais imateriais, antropólogos, sociólogos, historiadores, profissionais de informática pois, o texto ao abordar a produção cultural e seus mapeamentos, abre para discussões e imbricamentos vários.  
Observações:
Artigo disponível em inglês e alemão, retirado do blog: http://lab.softwarestudies.com/p/publications.html

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