quarta-feira, 25 de maio de 2016

Resenha Crítica II: "Hemenêutica em Retrospectiva", de Hans-Georg Gadamer


Resenha Crítica
Autor da Resenha:
Philipe Macedo Pereira
Referência do Texto:
GADAMER, Hans-Georg. Escrever e falar (1983). In: Hermenêutica em retrospectiva. Tradução  Marco Antônio Casanova. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009
Palavras-chave (2):
Escrita, Oralidade
Desenvolvimento do Texto:
        Em “Escrever e falar”, de 1983, Gadamer propõe discorrer sobre os atos da escrita e de oralidade, de modo a comparar os dois modos e estabelecer um paralelo com seus usos no lecionar.
        Para o autor, tanto a palavra escrita quanto a falada devem ser pensadas quanto aos seus usos. Cita Platão ao dizer: “A palavra escrita,[...], é duvidosa para o pensamento” (GADAMER, 1989, p. 370). Porém, para o filósofo também “[...] a oratória torna-se suspeita, logo que alcança uma certa maestria” (p.370).
        Gadamer também se refere à escrita como um diálogo efetuado pelo escritor através do seu escrever, um ato de certa forma solitário. E critica o academicismo que torna, os professores “mimados” e mantendo diálogos com grupos que conhecem seus temas de estudos, sem espaço para um pensar em si: “Nós permanecemos por semanas e meses a fio em diálogo com os mesmos parceiros que nos compreendem [...], mesmo que nós mesmos por vezes não consigamos nos compreender” (p.370).
          De forma coerente, o autor aponta as dificuldades da escrita, seja ao procurar pelas palavras adequadas, encontrá-las, exercitar “ [...] a escuta tensa ao outro [...]” (p.371). E declara preferir deixar o ato de escrever para o último momento, por vontade ou pressões externas. E, a partir de  comentário do poeta Paul Valéry, esboça um comparativo entre escrita literária e escrita acadêmica, definindo a primeira como ato fluido, onde as palavras são lançadas ao papel, “[...] um todo em forma de canção [...]” (p.371), enquanto a segunda forma de escrita é marcada pela temporalidade, pela espera ou adiamento do escrever.
          Hans-Georg Gadamer encerra discorrendo de forma acertada sobre o consolo da escrita para o escritor, que é o “eco” ou reprodução de suas palavras por outras pessoas, e pontualmente contribuindo para as discussões relacionadas ao escrever, na medida em que declara indiretamente que todo escritor deseja ser lido e escreve a alguém, ainda que seja um pequeno grupo ou uma única pessoa.    

Resenha Crítica I: "Hermenêutica em Retrospectiva" de Hans-Georg Gadamer


Resenha Crítica
Autor da Resenha:
Philipe Macedo Pereira
Referência do Texto:
GADAMER, Hans-Georg. Ciência histórica e linguagem (1987). In: Hermenêutica em retrospectiva. Tradução  Marco Antônio Casanova. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009
Palavras-chave (3):
Linguagem, hermenêutica, ciência histórica
Desenvolvimento do Texto:
       Em “Ciência histórica e linguagem”, Gadamer discorre sobre a importância da linguagem para a construção de uma história humana. O autor inicia seu texto citando o filósofo Koselleck a partir de ideias deste sobre a obra Ser e tempo, de Heidegger, para tratar da hermenêutica, a qual permeia o escrito do filósofo alemão.
       O autor aponta a questão, percebida principalmente pelos grupos mais jovens, com relação à falta de esperanças no futuro, e a necessidade de pensar a filosofia com vistas não somente de retrospectiva, mas também analisando o que pode estar à frente. E destaca a procura humana pelo sentido, o que representaria uma resistência às adversidades: “[...] em face de todos os desafios que a realidade nos apresenta por meio do disparate, da loucura e da ausência de sentido avassaladora, resistir e permanecer incansável na busca pelo compreensível e pelo sentido” (GADAMER, 1987, p.341).
        Hans-Georg Gadamer faz referência a Aristóteles que pontua a linguagem como a distinção maior entre humanos e animais, uma vez que esta, na visão do filósofo, permite não apenas estabelecer comunicação através de sinais, mas permite ao ser humano “[...] um campo de jogo de possibilidades, um campo de jogo de outro tipo, que é aberto para nós” (p.342). Para Gadamer, a linguagem abre novas possibilidades de representações das coisas e afeta o agir racional, através da habilidade de “deixar algo permanecer incerto” (p.343). Pontua-se também a possibilidade de (re)ordenação através da linguagem, de modo a apagar ou modificar erros anteriores de comunicação.
        No primeiro parágrafo da página 344, o autor faz referência ao historiador alemão Droysen e aos filósofos Schleiermacher e Dilthey para tratar da ciência histórica enquanto constituindo elementos da hermenêutica, procurando a compreensão dos fatos e estabelecendo pensares. Gadamer cita o caráter linguístico da hermenêutica como algo que além de dizer respeito aos textos,  também implica “à condição fundamental do ser de toda ação e de toda criação humanas [...]” (p.344). O filósofo também cita que a linguagem está presente ao narrar-se histórias de guerra, bem como “o suicídio e as formas de diferenciação entre público e secreto” (p.345). E aponta o texto histórico como algo que nunca está concluído, mas abre espaço para incógnitas.
         Gadamer relevantemente pontua que o fascínio das narrativas históricas está no caráter hermenêutico delas, ou seja, há o reconhecimento de si nos outros, e que o olhar compreensivo humano deveria ser dirigido “para o que é comum a todos nós, algo que conhecemos melhor no outro do que em nós mesmos” (p.346). Dessa forma, evidencia a necessidade de olhar para a história sob um viés hermenêutico, reconhecendo neste movimento a linguagem como ponto central de seu discurso.