sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Resenha Crítica "A memória, a história, o esquecimento" de Paul Ricoeur




Resenha Crítica
Autor da Resenha: 
Paulo Santos da Silva
Referência do Texto:
RICOEUR,  Paul. A memória, a história, o esquecimento. tradução de Alain François [ et al.]. Campinas: Editora da Unicamp, 2007. p. 155 – 192.
Palavras-chaves (2):
Memória; espaço habitado; tempo histórico; testemunho; arquivo; prova documental.
Desenvolvimento do Texto:

O espaço habitado pelo testemunho e o arquivo ao alcance do historiador


Paul Ricoeur (1913 – 2005), no livro A memória, a história, o esquecimento, tradução de Alain François [ et al.] (Campinas: Editora da Unicamp, 2007), divide o capítulo denominado de“Fase Documental: a memória arquivada” (p. 155 – 192) em  cinco partes:  o espaço habitado; o tempo histórico; o testemunho; o arquivo e a prova documental. Sobre o espaço habitado, ele revela que na passagem da memória à historiografia, mudam de signo o destino do espaço, no qual se deslocam os protagonistas de uma história narrada e o tempo no qual os acontecimentos narrados se desenrolam (p 156), construindo-se, assim, em conjunto que o aqui e o lá do espaço vivido da percepção e da ação e o antes do tempo vivido da memória se reencontram enquadrados em um sistema de lugares e datas do qual é eliminada a referência ao aqui e ao agora absoluto da experiência viva (p. 156). Deste modo, para Ricoeur, as lembranças de ter morado em tal casa de tal cidade ou de ter viajado a tal parte do mundo são particularmente eloquentes e preciosas. Elas tecem ao mesmo tempo uma memória íntima e uma memória compartilhada entre pessoas próximas nessas lembranças tipos, o espaço corporal é de imediato vinculado ao espaço do ambiente, fragmento da terra habitável, com suas trilhas mais ou menos praticáveis, seus obstáculos variadamente transponíveis (p.157). Ele considera ainda, nessa primeira parte, que a ação entre o tempo “narrado” e o espaço “construído”, as analogias e as interferências abundam, já que o ato de configuração intervém de uma e de outra parte no ponto de ruptura e de sutura dos níveis de apreensão (p. 159). Sendo assim, o espaço é o meio de inscrição das oscilações mais lentas que a história conhece (p. 162).
No que se refere ao Tempo Histórico, a contribuição do calendário consiste em uma modalidade propriamente temporal de inscrição, a saber, um sistema de datas extrínsecas aos acontecimentos (p. 164). Portanto, no que concerne particularmente ao tempo da memória, o “outrora” do passado rememorado inscreve-se doravante no interior do “antes que” do passado datado;simetricamente, o “mais tarde” da espera torna-se o “no momento em que”, marcando a coincidência de um acontecimento esperado com a grade das datas por vir (p. 164). O autor ainda mostra que a própria brevidade da vida humana recorta-se sobre a imensidão do tempo crônico indefinido (p. 164) e que os episódios registrados são definidos por sua posição em relação a outros: sucessão de acontecimentos únicos, bons ou ruins, de regozijo ou aflição. Esse tempo não é cíclico nem linear, mas amorfo; é ele que a crônica referenciada na posição do narrador relata, antes que a narrativa separe a história contada de seu autor (p. 165). Ademais, considera Ricoeur, por estar ligada aos fatos de continuidade/descontinuidade, ciclo/linearidade, distinção entre períodos e eras, a história não é principalmente confrontada com a fenomenologia do tempo vivido nem com os exercícios da narratividade popular ou erudita, mas com uma ordem do pensável que ignora o sentido dos limites. “Nesse aspecto, o tempo da história procede tanto pela limitação da imensa ordem do pensável quanto pela superação da ordem do vivido” (síntese da página 165).
Na terceira parte, O testemunho, na qual é explicitado que o testemunho nos leva, de um salto, das condições formais ao conteúdo das “coisas do passado” (praeterita), das condições de possibilidade ao processo efetivo da operação historiográfica; com o testemunho inaugura-se um processo epistemológico que parte da memória declarada, passa pelo arquivo e pelos documentos e termina na prova documental (p. 170). Diante disso, o testemunho não encerra sua trajetória com a constituição dos arquivos, ele ressurge no fim do percurso epistemológico no nível da representação do passado por narrativas, artifícios retóricos, colocação em imagens. [...] Ele resiste não somente à explicação e à representação, mas até à colocação em reserva nos arquivos, a ponto de manter-se deliberadamente à margem da historiografia e de despertar dúvidas sobre a intenção veritativa (p. 170). Tudo isso porque o testemunho é uma narrativa autobiográfica autenticada de um acontecimento passado, seja essa narrativa realizada em condições informais ou formais cuja especificidade do testemunho consiste no fato de que a asserção de realidade é inseparável de seu acoplamento com a autodesignação do sujeito que testemunha (p. 172). Para ele, o que se atesta é indivisamente a realidade da coisa passada e a presença do narrador nos locais de ocorrência (p. 172) e que esses tipos de asserções ligam o testemunho pontual a toda a história de uma vida. Ao mesmo tempo, a autodesignação faz aflorar a opacidade inextricável de uma história pessoal que foi ela própria “enredada em histórias”. A autenticidade do testemunho só será então completa após a resposta em eco daquele que recebe o testemunho e o aceita; assim sendo, o testemunho, a partir desse instante, está não apenas autenticado, ele está acreditado (p. 173) Enfim, mostra que o testemunho é um fator de segurança no conjunto das relações constitutivas do vínculo social (p. 174) e que, diante da estabilidade do testemunho, há a contribuição da confiabilidade de cada testemunho à segurança do vínculo social na medida em que este repousa na confiança na palavra de outrem. Gradativamente, esse vínculo fiduciário se estende a todas as trocas, contratos e pactos, e constitui o assentimento à palavra de outrem, princípio do vínculo social, a tal ponto que ele se torna um habitus das comunidades consideradas, e até uma regra de prudência: começar por confiar na palavra de outrem (p. 174). O crédito outorgado à palavra de outrem faz do mundo social um mundo intersubjetivamente compartilhado e o que a confiança na palavra de outrem reforça, não é somente a interdependência, mas a similitude em humanidade dos membros da comunidade. Cria-se, então, o intercâmbio das confianças e este especifica o vínculo entre seres semelhantes. Surge daí, a reciprocidade que corrige a insubstituibilidade dos atores. Segundo Ricoeur, a troca recíproca consolida o sentimento de existir em meio a outros homens (p. 175).
Ao comentar sobre o arquivo, esse historiador, diz que o momento do arquivo é o momento do ingresso na escrita da operação historiográfica. O testemunho é originalmente oral; ele é escutado, ouvido; já o arquivo é escrita, que é lida, consultada. Nos arquivos, o historiador profissional é um leitor (p. 176). E se o testemunho acrescenta traços específicos ligados à estrutura de troca entre aquele que o dá e aquele que o recebe, o arquivo é muito mais que um lugar físico, espacial, é também um lugar social (p. 177). Deste modo, é objeto da disciplina arquivística o “gesto de separar, de reunir, de coletar” (p. 178) e pelos quais “o arquivo promove a ruptura com o ouvir-dizer do testemunho oral” (p. 178).
Na última parte, A Prova Documental, faz-se um retorno ao historiador nos arquivos. Ele é seu destinatário na medida em que rastros foram conservados por uma instituição com o fim de serem consultados por quem esteja habilitado a isso (p. 188). Por isso, se um papel de prova pode ser atribuído aos documentos consultados, é porque o historiador vem aos arquivos com perguntas (p. 188). Paul Ricoeur, importante filósofo francês, considera também que se torna um documento tudo o que pode ser interrogado por um historiador com a ideia de nele encontrar uma informação sobre o passado (p. 189). Ele encerra esse capítulo da obra interrogando se a prova documental é mais remédio que veneno para as falhas constitutivas do testemunho e diz que caberá à explicação e à representação trazer algum alívio a essa confusão, por meio de um exercício medido da contestação e de um esforço da atestação.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Anais 20 anos do PROLER Joinville

Confira aqui os anais do 5º Seminário de Pesquisa em Linguagens, Leitura e Cultura
20 anos do PROLER Joinville: Contar histórias: uns passarão e outros passarinhos



quarta-feira, 17 de setembro de 2014

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Artigos publicado no 19° COLE

A Revista Linha Mestra (com os artigos do Cole publicados), já está disponível no site http://linhamestra24.wordpress.com/.

Revista Linha Mestra

Confira os artigos:

CRIANÇAS E ADOLESCENTES ACOLHIDOS: A MARGEM DO RIO – A MARGEM DA VIDA
Taiza Mara Rauen Moraes
Laura Meireles Gomes Moura

FRAGILIDADES NA ESCRITA, FLUIDEZ RELACIONAL
Taiza Mara Rauen Moraes
Rosilda da Silva

Clique Aqui

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Resenha Crítica "As Vozes dos bichos Fabulares: animais em contos e fábulas" de Lucile Desblache


Resenha Crítica
Autor da Resenha: 
Paulo Santos da Silva
Referência do Texto:
DESBLACHE, Lucile. As Vozes dos bichos Fabulares: animais em contos e fábulas. In: Pensar/escrever o animal: ensaios de zoopoética e biopolítica. Org. Maria Esther Maciel. Florianópolis: Editora da UFSC, 2011. p. 295 – 314.
Palavras-chaves (2):
Fábulas - Modos de pensar o animal
Desenvolvimento do Texto:

OS ANIMAIS E OS NOVOS CONCEITOS DELES NA VISÃO CONTEMPORÂNEA DE DESBLACHE
  
Organizado por Maria Esther Maciel, o livro Pensar/escrever o animal: ensaios de zoopoética e biopolítica traz uma série de ensaios que estão distribuídos em quatro partes. Trata-se de textos em que alguns teóricos da literatura e da cultura mundiais revelam pesquisas e reflexões sobre a análise do Outro. Entre estes, na última parte, está o ensaio de Lucile Desblache, com o título de As vozes dos bichos fabulares: animais em contos e fábulas (p. 295 a 314), no qual ela destaca que sua pretensão é mostrar como as fábulas, por privilegiarem um conteúdo figurativo, podem ampliar as percepções e construções da interação entre as espécies.
Nesse texto, os animais são os objetos da palavra. A autora analisa textos, de Coetzee, de Carter, entre outros, cuja ação e enredo se atêm a animais. Desblache parte da tradição da fábula e sua inversão de sentido e aplicação ideológica na literatura contemporânea de J.M. Coetzee, afirmando que ele parte da fábula tradicional, mas se afasta dela ao usar aves não antropomorfizadas como protagonista.  Eis para ela a contramão da tradição das fábulas, pois os pássaros são tratados como aves, não tendo voz ou outras características humanas tão comuns nas fábulas tradicionais.  Ao operar uma analogia ao texto de Coetzee, a autora retoma os personagens criados por Beatrix Potter, produzidos a partir de clichês em que os animais são reduzidos a miniaturas dos homens.
Em busca de cumprir sua análise, após confirmá-la com pensamentos defendidos por teóricos como Deleuze e Guatarri, e atenta a essa nova possibilidade de abordagem do animal que surge na literatura contemporânea, a ensaísta retoma a fábula O gato de botas, de Perrault, pertencente ao conto de fadas do século XVII, e a compara com versões mais recentes. Para isso, usa O gato de botas, texto da escritora Angela Carter, onde estão presentes muitos dos elementos do realismo fantástico e tons operísticos derivados de As bodas de Fígaro e Don Pasquale. Na versão de Carter, segundo Desblache, há reviravoltas inusitadas que questionam as fronteiras do humano e do não humano. Ela ainda explica que os animais desse conto de Carter são retratados como seres felinos e agentes de contraste que realçam deficiências humanas. É como dizer que neste conto os gatos miam, rosnam e até banham os seus ânus com a língua, coisa natural no universo dos bichanos.
Lucile Desblache finaliza lucidamente seu ensaio realçando o gato de botas de Carter e confirmando que poucos conseguem fazer uma ressignificação de uma fábula ou de um conto de fadas como fez Carter.
Professora titular de universidade francesa (1992-2005), Desblache produz um ensaio que desde o início faz com que o leitor adentre nos bosques de sua literatura e reencontre imagens da infância, como no caso dos patos chamarizes que atraem outras aves à morte e também no que se relaciona ao gato de botas. Para que as dúvidas sejam dirimidas de vez, ela usa a força dos teóricos atuais e bem vistos pelo meio acadêmico. Desta forma, ela conduz o leitor rever e refletir sobre os conceitos de deixar viver e deixar morrer – que remetem ao pensamento de Foucault – presentes no conto de Coetzee, e até mesmo os próprios conceitos sobre as fábulas e outros textos que trazem animais como personagens. 


sexta-feira, 14 de março de 2014


Resenha Crítica
Autores da Resenha: 
Laura Meireles Gomes Moura
Referência do Texto:
Capítulo 3 – Teoria social do discurso, p. 89 – 131 In: FAIRCLOUGH, Norman. Discurso e mudança social. Trad. Izabel Magalhães. Editora Universidade de Brasília, 2001.
Palavras-chaves (2):
ANÁLISE CRÍTICA DO DISCURSO - MUDANÇA SOCIAL
Desenvolvimento do Texto:
         O capítulo Teoria social do discurso, de Fairclough inicia apontando o caminho definido pelo autor para a análise do discurso, uma abordagem investigativa entre texto, prática discursiva e prática social e as nuances que determinam a mudança discursiva em relação à mudança social e cultural. Ao usar o termo “discurso” Fairclough se refere ao “uso da linguagem”, fala ou “desempenho”, estabelecendo um contraponto aos estudos de Ferdinand de Saussure e aos linguistas desta tradição que compartimentam o estudo da língua dentro do próprio sistema, destacado assim do seu “uso”. Essa posição é discutida pelos sociolinguistas que percebem o uso da linguagem moldado socialmente e não individualmente, argumentando sobre o tangenciamento entre o que denominam de sistemática com as variáveis sociais.
    A abordagem desses aspectos sociais representa uma ampliação aos pressupostos saussurianos, no entanto, deve-se verificar o fenômeno unilateral da língua nessas relações pressupondo uma pluralidade de sujeitos sociais, de relações e situações destacadas do uso da linguagem que contribuem para a mudança social. Outro aspecto sinalizado pelo teórico se relaciona às “variáveis sociais” e às variáveis linguísticas, porém de forma restrita não compreendendo o uso da linguagem de forma global capaz de (gerir) transformações.
        Fairclough utiliza o termo discurso considerando o uso da linguagem como forma de prática social e não como atividade puramente individual ou reflexo de variáveis situacionais. O teórico associa desta forma este pensamento às várias implicações dentre elas um modo de ação sobre o mundo e os indivíduos – uma forma de representação bem como uma duplicidade onde o discurso seria moldado e restringido pela estrutura social e esta agindo sobre a prática social, associando suas reflexões a Foucault quando aborda a formação discursiva para a constituição das estruturas sociais acerca das representações e significados do mundo.
     Fairclough distingue três aspectos dos efeitos construtivos do discurso: a construção de identidades sociais; de relações sociais entre as pessoas e dos sistemas de conhecimento e crenças as quais correspondem, segundo o autor, a três funções da linguagem e as dimensões de sentido coexistentes em todos os discursos, a saber: identitária – “modo pelos quais as identidades sociais são estabelecidas no discurso”; relacional – “como as relações sociais entre os participantes do discurso são representadas e negociadas”; e ideacional – “modos pelos quais os textos significam o mundo e seus processos, entidades e relações” (p. 92). Acrescenta, ainda, uma função textual que diz respeito ao tratamento da informação – “como as informações são trazidas ao primeiro plano ou relegadas a um plano secundário, tomadas como dados ou apresentadas como novas, selecionadas como ‘tópico’ ou ‘tema’ e como partes de um texto se ligam a partes precedentes e seguintes do texto, e a situação social ‘fora’ do texto” (p. 92).
     A prática discursiva contribui para reproduzir a sociedade (identidades sociais, relações sociais, sistemas de conhecimento e crenças) e também para transformá-la. Salientando que a relação entre discurso e estrutura social seja considerada como dialética para evitar os erros de ênfase indevida: de um lado, na determinação social do discurso e, de outro, na construção social no discurso, através das várias orientações coexistentes na prática social – “econômica, política, cultural, ideológica” os textos são produzidos, distribuídos e consumidos como ‘mercadorias’ (em indústrias culturais: Bourdieu, 1982). O discurso como modo de prática política “estabelece, mantém e transforma as relações de poder e as entidades coletivas” nas quais existam as relações de poder. Já, segundo o autor, o discurso como prática ideológica “constitui, naturaliza, mantém e transforma os significados do mundo de posições diversas nas relações de poder” (p. 94). Muito embora pareçam categorias independentes, recorrem-se na prática política a “convenções próprias e ideologias particulares” e na ideologia a dimensão geradora dos significados de poder ”como dimensão do exercício do poder e da luta pelo poder”. A concepção tridimensional do discurso como texto, prática discursiva e prática social é uma tentativa de reunir as dimensões de análise textual e linguística, a análise da prática social em relação às estruturas sociais e a prática social “como algo que as pessoas produzem ativamente e entendem como base em procedimentos, de senso comum, compartilhados”.
     A hipótese de trabalho levantada não foi estabelecida apenas com base na experiência de análise linguística, mas como uma atividade multidisciplinar oferecendo: – “um quadro analítico”; – identificação dos “aspectos analíticos selecionados que pareçam ser produzidos na análise de discurso; – abolição de termos técnicos e jargões proibitivos; – servir de referência às linhas particulares de análise”. Fairclough detalha ainda cada dimensão referindo-se a análise textual organizada em quatro itens: ‘vocabulário’; ‘gramática’; ‘coesão’ e ‘estrutura textual’. A análise da prática discursiva envolve a força dos enunciados, a coerência e intertextualidade, os processos de produção, distribuição e consumo textual, sujeitos aos processos de interpretação. Na análise da prática social, discute o conceito de discurso em relação à ideologia e ao poder – hegemonia, questionando a natureza ideológica de todo discurso na medida em que “incorporam significações que contribuem para manter ou reestruturar as relações de poder” (p. 121). As discussões na finalização do capítulo tratam da mudança nas ordens do discurso e os aspectos de abertura para essas mudanças.