sexta-feira, 22 de março de 2013

Resenha do Capítulo: O Mito In: Mitologias - Roland Barthes



Resenha Crítica
Autora da Resenha: 
MORAES RAUEN, Taiza Mara
Referência do Texto:
BARTHES, Roland.O mito, hoje. In: Mitologias .  Tradução Rita Buongermino e Pedro de Souza. 8 ed. Rio de Janeiro,Bertrand Brasil S. A.,  1989.p.131-178.

Palavras-chaves (3):
Mito; Literatura; Semiologia
Desenvolvimento do Texto:
 1-Introdução:
Roland  Barthes (França, 1915 - 1980) semiólogo e teórico da literatura, desenvolveu  em Mitologias  uma crítica ideológica e semiológica da linguagem da cultura de massa, operando reflexivamente sobre a naturalidade com que a imprensa, o senso comum e arte tratam a realidade mascarando-a ideologicamente. O mito é abordado como linguagem, pois ao enfocar o mito hoje, procura abordá-lo numa relação  triádica entre a natureza , a objetividade do cientista e a subjetividade do escritor

2 - Resumo:
O livro  Mitologias dividido em duas partes,  a primeira  “Mitologias”  é constituída por pequenos ensaios em que Barthes , se posiciona com mitólogo  buscando tratar da significação de mitos contemporâneos ao explorar cenas da vida cotidiana  francesa entre os anos de 1954 a 1956. Já, a segunda parte  “O mito , hoje” é subdividido em:  O mito é uma fala; O mito como sistema semiológico; A forma e o conceito; A significação; Leitura e decifração do mito; A burguesia como sociedade anônima; O mito é uma fala despolitizada; O mito na esquerda; O mito na direita; Necessidade e limites da mitologia – ensaios teóricos/reflexivos, nos quais são questionadas as relações entre natureza/história.

Aspectos abordados sobre o mito:
·         Conceituação de mito;
·         Relação mito/semiologia;
·         Mito no sistema semiológico;
·         Significação;
·         Relação mito/literatura.

O mito é uma fala – p131- 133

MITO = Sistema de comunicação historicamente determinado;
           = Uma fala que não se define pelo objeto de sua mensagem, mas pela maneira
               como  é  proferido;
           =  Tem  limites formais, mas não substanciais, portanto tudo pode mito porque  
               o universo é infinitamente sugestivo.

O mito como sistema semiológico  p. 133-139

p.133 “A semiologia é uma ciências das formas, visto que estuda as significações independentemente de seu conteúdo.”

p. 134-135 -Barthes, enfatiza que a fala mítica é formada por uma matéria já trabalhada, pois visa uma comunicação apropriada e  situa o mito numa relação de dependência a uma ciência geral extensiva à Linguística – SEMIOLOGIA = ciência das formas, estuda as significações independente de seu conteúdo.
A semiólogo explora o fato e defini-o como  um valor de equivalência, portanto a semiologia propõe uma relação  entre dois termos , significante e significado, objetos de ordem diferente e constitui uma equivalência. Na linguagem comum, o significante exprime o significado, já no sistema semiológico há três  termos diferentes, o que se apreende não é um termo após o outro, mas a correlação os une:  o significado, o significante e o signo, total associativo dos dois primeiros termos. O exemplo tomado é um ramo de rosas que é (re)significado em paixão, assim, nessa relação existe um significante, um significado, as rosas e a paixão, rosas “passionalizadas”, ou seja,  analiticamente as rosas carregadas de paixão podem ser decompostas em rosas  e em paixão e tinham uma existência independente antes de se transformarem em um signo da paixão. Assim, o significante é vazio e o signo é pleno, é um sentido.

p. 135-136 -  Diálogo – Barthes/Saussure/Freud/ Sartre:
Saussure – estudou um sistema semiológico específico, a língua,  e nesse sistema, significado = conceito; significante = imagem acústica e o signo= relação entre o conceito e a imagem.
Freud-  estudou  o psiquismo= espessura de equivalências, ou seja, um termo é constituído pelo sentido manifesto do comportamento, um outro pelo sentido latente ou próprio ( substrato de um sonho), terceiro termo é a correlação dos dois primeiros: “é o próprio sonho, na sua totalidade, o ato falho ou a neurose, concebidos como compromissos, economias realizadas graças à junção de uma forma ( primeiro termo) e de uma função intencional (segundo termo).”
Sonho ,não é o conteúdo manifesto nem o conteúdo latente, mas a ligação dos dois termos.
Sartre – propôs uma crítica, na qual,  o significado= crise original do sujeito ( separação da mãe para Baudelaire ); Literatura como discurso, forma o significante; e a crise com o discurso define a obra, gerando uma significação.
Daí: na semiologia o esquema tridimensional da forma é constante, mas não funciona sempre do mesmo modo; seu campo é a linguagem , portanto, sujeita a operação da leitura ou do deciframento.

p. 136-137  - MITO – esquema tridimensional – significante/significado e signo – sistema semiológico segundo
signo= totalidade associativa de um conceito e de uma imagem num primeiro sistema (língua), transforma-se em significante no segundo sistema.
p.136 “[...] as matérias primas da fala mítica (língua propriamente dita, fotografia, pintura, cartaz, rito, objeto, etc), por mais diferentes que sejam inicialmente, desde o momento em que são captadas pelo mito, reduzem-se a uma pura função significante: o mito vê nelas apenas uma mesma matéria- prima; a sua unidade provém do fato de serem todas reduzidas ao simples estatuto da linguagem. O termo final (totalidade dos signos) transforma-se em 1º termo ou termo parcial do sistema aumentado que ele constrói.” O mito incorpora dois sistemas semiológicos, um deslocado em relação ao outro. No sistema linguístico, a língua, linguagem-objeto, para Barthes, é a linguagem que o mito utiliza para construir seu sistema; o mito, meta-linguagem, porque é uma segunda língua que fala da primeira. Em decorrência, Barthes sinaliza que o semiólogo deve tratar da mesma maneira a escrita e a imagem: deve considerar que ambas são signos e chegam no limiar do mito por possuírem a mesma função significante = linguagem objeto.
EXEMPLO – p.138 -  capa  de um número da  revista Paris – Match : um negro  vestindo um uniforme do exército francês faz uma saudação militar, com olhos erguidos e fixos na bandeira tricolor – sentido da imagem. A imagem significa que a França é um forte Império e que seus filhos, sem distinção de cor, a respeitam  e adotam sua bandeira. A imagem é uma resposta aos críticos ao colonialismo. Exemplo de um sistema semiológico ampliado: há um significante formado por um sistema prévio = um soldado negro saúda a bandeira francesa; há um significado = misto de “francidade”/ “militaridade”   ; há uma  presença do significado através do significante.
TERMINOLOGIA -  significante no mito= termo final do sistema linguístico ou como termo final do sistema mítico.
No plano da língua – como termo final do 1º sistema – significante = sentido – um negro faz a saudação militar à bandeira tricolor francesa; no plano do mito= forma.
O significado é chamado – conceito – nos dois sistemas. O 3º termo = correlação dos dois primeiros: no sistema da língua= signo e no mito=significação, porque “o mito tem efetivamente uma dupla função: designa e notifica, faz compreender e impõe.”  

A  forma e o conceito p.139 -142

p. 139-140 - Significante no mito= apresenta simultaneamente sentido e forma, pleno de um lado e vazio de outro. A forma não suprime o sentido, empobrece-o, afasta-o, conservando à sua disposição. O sentido tem sua morte suspensa, conserva-se vivo no mito. A forma do mito não é símbolo ( retomando o exemplo – o negro da capa da Paris Match, não é cúmplice do conceito de imperialidade francesa e se constitui como uma presença emprestada, através do conceito, uma história nova é implantada no mito. Daí a característica fundamental do conceito mítico, que é o do ser apropriado. O conceito propicia que uma história nova seja incorporada no mito.

p.141 – O conceito  corresponde a uma função precisa e define-se como uma tendência, pois, um significado pode ter vários  significantes, como exemplo, é possível encontrar muitas imagens que signifiquem a imperialidade francesa. O conceito assim, é quantitativamente mais pobre do que o significante, se limita com frequência a re-apresentar-se.

p.142 – “O conceito é um elemento constituinte do mito: se pretendo decifrar mitos,
e necessário que possa nomear conceitos.” 
 
A significação p.142-148

p.143 A significação é própria do mito, pois o “mito não esconde nada” e tem a função de deformar. A deformação é possível porque a forma do mito já é constituída por um sentido linguístico. Num sistema simples como a língua, o significado não pode deformar nada, porque o significante é vazio, arbitrário, não lhe oferece nenhuma resistência. 

p.144 No mito o significante apresenta duas faces: uma plena, que é o sentido e uma vazia, que é a forma. Exemplo – (negro- soldado francês-saudando-a-bandeira-tricolor) – o conceito  deforma a face plena, o sentido – o negro é privado de sua história e transformado em gesto, ocorre uma deformação, o negro permanece, o conceito retira-lhe a memória, mas necessita dele.

p.144-145 O mito é um valor, não tem verdade com sanção: nada o impede  de ser um perpétuo álibi (termo espacial – há um lugar pleno e um lugar vazio, ligados por uma relação de identidade negativa: basta que o seu significante tenha duas faces para dispor sempre de um “outro lado”: o sentido existe sempre que apresentar a forma; a forma existe sempre para distanciar o sentido.
O caráter  do mito é imperativo e interpelatório, pois surge de um conceito histórico, vem diretamente da contingência, obriga o acolhimento de sua ambiguidade  expansiva, motivação (elemento da significação).

p.147  A significação mítica não é completamente arbitrária, é sempre em parte motivada, contém fatalmente  uma analogia : para que a imperialidade francesa se apodere do negro que faz a saudação militar do negro e a saudação militar do soldado francês. A motivação é necessária à própria duplicidade do mito; o mito joga com a analogia do sentido e da forma: não existe mito sem forma motivada.

p.148 O mito é um sistema ideográfico puro onde as formas  são ainda motivadas pelos conceitos que representam, sem no entanto cobrirem a totalidade representativa desse conceito.

Leitura e decifração do mito p.149-152

p.149 Barthes propõe três tipos diferentes de leitura semiológica do mito:
1- se focalizar o significante vazio – o conceito preenche a forma do mito sem ambiguidade, a significação volta a ser literal – o  negro que faz a saudação militar é um exemplo da imperialidade francesa, é o seu símbolo-  leitura cínica que destrói o mito .  
2- se focalizar o significante pleno, distinguindo plenamente o sentido da forma e, portanto, a deformação que um provoca no outro, é destruída a significação do mito – o negro que faz a saudação militar  transforma-se no álibi  da imperialidade francesa – focalização  do mitólogo que decifra o mito e compreende uma deformação- leitura desistificadora.
3-se focalizar o significante do mito, enquanto totalidade inextrincável de sentido e forma, a significação é ambígua  e ocorre uma leitura segundo a dinâmica própria do mito. O negro que faz a saudação militar passa a ser a própria presença da imperialidade francesa.  A focalização é dinâmica e o leitor vive o mito como uma história verdadeira e irreal.

p.151 O mito-  não é uma mentira nem uma confissão. É uma inflexão. É simultaneamente imperfectível e indiscutível: o tempo e o saber nada lhe podem acrescentar e subtrair.

p.152 O mito é lido inocentemente quando não é lido como um sistema semiológico, mas como um sistema indutivo, ou seja, quando há uma equivalência lê- se uma processo causal, no qual o significante e o significado mantêm relações naturais. Todo sistema semiológico é um sistema de valores.

Mito como linguagem roubada  p. 152-158

p.152  A função específica do mito é a de transformar um sentido em forma.
A língua oferece fraca resistência ao mito, pois ele pode desenvolver o seu esquema segundo, a partir de qualquer sentido, não importa qual, ou ainda a partir da própria privação de sentido.

p.153 – O mito nunca está no grau zero da língua.
  

 

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