segunda-feira, 25 de março de 2013

Síntese Crítica Cap. II O que é Arqueologia. In: ARQUEOLOGIA de Pedro Paulo Funari




Karla Adriana Nascimento Cunico[1]

FUNARI, Pedro Paulo. ARQUEOLOGIA. São Paulo: Ática 1988.

2. O que é a Arqueologia

Delimitação de um campo de pesquisa

            Delimitar o campo de atuação da Arqueologia não é uma tarefa simples, entre os próprios profissionais da disciplina não há consenso, pois esta ciência encontra-se em plena construção. Para Funari (p. 09), “a Arqueologia estuda os sistemas socioculturais, sua estrutura, funcionamento e transformações com o decorrer do tempo, a partir da totalidade material transformada e consumida pela sociedade”. A partir deste conceito partem-se várias discussões, o autor (p. 09) levanta três questões que ao serem respondidas podem delimitar esta ciência:  

          O que estuda a Arqueologia?     
          O que visa a Arqueologia?       
          Qual sua relação com outras ciências sociais?

          O autor retrata a visão tradicional, amplamente difundia entre os próprios arqueólogos, de que o objeto de estudos da arqueologia se resume ao patrimônio material, que basicamente estes profissionais são responsáveis por “esburacamento do solo e a recuperação de objetos antigos” (p. 10). Funari não concorda com esta visão e afirma que “não há uma oposição entre os dois níveis que justifique o estudo apenas das coisas: a cultura refere-se, a um só tempo, ao mundo material e espiritual” (p. 10). Ele ressalta que ultimamente esta ciência tem “alargado seu campo de ação para a cultura material de qualquer época, passado ou presente” (p. 10).
Sobre o objeto de estudo da Arqueologia, Funari (p. 11) conclui que “a Arqueologia estuda, diretamente, a totalidade material apropriada pelas sociedades humanas, como parte de uma cultura total, material e imaterial, sem limitações de caráter cronológico”.
            Quanto à questão: o que visa a Arqueologia? O autor diz “a Arqueologia, partindo dos elementos materiais apropriados pelo homem, visa à compreensão do funcionamento e transformação das sociedades humanas” (p. 12).
            Já o tópico sobre as suas relações com as outras ciências humanas, é complexo e se consolidou como embate entre pesquisadores e profissionais da própria arqueologia com outros da história e da antropologia. De um lado, estão os que afirmam que a Arqueologia é uma disciplina auxiliar que encontra e cataloga objetos materiais oriundos de escavações, de outro se encontram arqueólogos com uma visão mais abrangente daquela ciência “enquanto estudo da porção da cultura material, possui uma práxis e uma reflexão metodológicas próprias, ambas em construções, e cujas características, ainda embrionárias, justificam sua qualificação como projeto de ciência da cultura material” (p. 16).

O cotidiano: o contexto cultural da atividade humana

Neste tópico o autor levanta um importante questionamento, a análise dos objetos materiais sem que seja levado em conta o contexto cultural da sociedade que o criou. Há uma “fetichização dos artefatos, que parecem adquirir independência de seus produtores e usuários” (p. 17). Em contrapartida, “ocorre uma humanização do universo material, ocorre uma reificação (coisificação) das relações sociais, uma alienação da vida social na esfera natural” (p. 17). Funari resume esta importante questão tratando-a como um “paradoxo: que as relações sociais sejam tomadas como fazendo parte da esfera natural e os artefatos, em oposição, adquiram uma trajetória autônoma” (p. 17).

Com o que se depara o arqueólogo: o contexto arqueológico

            Funari, diz que basicamente o arqueólogo trabalha com escavações e que os objetos normalmente encontram-se “mutilados e deslocados do seu local de utilização original” (p. 22). Para tratar do contexto arqueológico, o autor faz uma importante observação ao afirmar que “a Arqueologia nada mais é que uma leitura, um tipo particular de leitura, na medida em que seu texto não é composto de palavras mas de objetos concretos” (p. 22). Neste ponto a ênfase é para a dificuldade desta leitura, “a (in) traduzibilidade do texto arqueológico” (p. 22). Para auxiliar tal leitura há uma

preocupação crescente com a interdisciplinaridade, buscando-se um intercâmbio, quanto ao modo de leitura, com campos de atuação paralelos e complementares. Isto é particularmente válido no que diz respeito à Semiótica, preocupada com os princípios teóricos da comunicação – e, portanto, com a leitura em geral –, mas atinge já outros tipos de leitura, aparentemente distantes da Arqueologia, como a Psicanálise (p. 22).

Os artefatos, índices e mediadores

            Funari reafirma que os artefatos de determinada sociedade remetem as relações socioculturais desta, eles são “sempre índice das relações sociais nas quais foi produzido e apropriado” (p. 22). Tais artefatos (ou indícios) podem ser interpretados já que são “produto do trabalho humano, e, portanto, apresentarem necessariamente duas facetas: têm uma função primária (uma utilidade prática) e funções secundárias (empregos secundários)” (p. 23). Além disso, ele “exerce uma mediação nessas relações, atuando como direcionador de atividades humanas” (p.23).
            Cada sistema social tem seu próprio “universo material” (p. 24), os objetos são usados pelos humanos como auxiliares na divisão social, hierarquização e na consolidação da identidade cultural.

Os objetos arqueológicos na sociedade contemporânea

            Funari, faz uma reflexão sobre artefatos encontrados em escavações arqueológicas e que são (re)utilizados pela sociedade atual, como instrumentos ou como objetos de decoração. Ele cita ainda que “boa parte dos objetos, na medida que não possuem valor material ou cientifico, segundo os padrões sociais vigentes no memento da recuperação, é novamente desativada e transformada em lixo” (p. 24).
            Na mediada que acontece aquela reintegração de tais artefatos, esses “podem adquirir funções ideológicas, tanto no sentido de acobertamento de relações sociais passadas e na sua fetichização como, ao contrário, servindo de elemento de recuperação do passado para uma crítica do presente” (p. 24/25).

Considerações críticas

            Nesse capítulo da obra de Funari, dois tópicos se destacam, o primeiro é a afirmação que o autor faz sobre a “fetichização” dos artefatos, como se os objetos pertencentes a sociedades extintas tivessem vida própria e pudessem ser analisados fora do seu contexto cultural/social. O segundo,  aspecto a ser destacado é que o autor considera a Arqueologia uma linguagem, uma forma de ler o mundo, através da cultura material, assim realiza uma interseção entre a cultura material e sua relação de subjetividade com a sociedade a qual ela pertence.


[1] Mestranda em Patrimônio Cultural e Sociedade – Universidade da Região de Joinville


sexta-feira, 22 de março de 2013

Resenha do Capítulo: O Mito In: Mitologias - Roland Barthes



Resenha Crítica
Autora da Resenha: 
MORAES RAUEN, Taiza Mara
Referência do Texto:
BARTHES, Roland.O mito, hoje. In: Mitologias .  Tradução Rita Buongermino e Pedro de Souza. 8 ed. Rio de Janeiro,Bertrand Brasil S. A.,  1989.p.131-178.

Palavras-chaves (3):
Mito; Literatura; Semiologia
Desenvolvimento do Texto:
 1-Introdução:
Roland  Barthes (França, 1915 - 1980) semiólogo e teórico da literatura, desenvolveu  em Mitologias  uma crítica ideológica e semiológica da linguagem da cultura de massa, operando reflexivamente sobre a naturalidade com que a imprensa, o senso comum e arte tratam a realidade mascarando-a ideologicamente. O mito é abordado como linguagem, pois ao enfocar o mito hoje, procura abordá-lo numa relação  triádica entre a natureza , a objetividade do cientista e a subjetividade do escritor

2 - Resumo:
O livro  Mitologias dividido em duas partes,  a primeira  “Mitologias”  é constituída por pequenos ensaios em que Barthes , se posiciona com mitólogo  buscando tratar da significação de mitos contemporâneos ao explorar cenas da vida cotidiana  francesa entre os anos de 1954 a 1956. Já, a segunda parte  “O mito , hoje” é subdividido em:  O mito é uma fala; O mito como sistema semiológico; A forma e o conceito; A significação; Leitura e decifração do mito; A burguesia como sociedade anônima; O mito é uma fala despolitizada; O mito na esquerda; O mito na direita; Necessidade e limites da mitologia – ensaios teóricos/reflexivos, nos quais são questionadas as relações entre natureza/história.

Aspectos abordados sobre o mito:
·         Conceituação de mito;
·         Relação mito/semiologia;
·         Mito no sistema semiológico;
·         Significação;
·         Relação mito/literatura.

O mito é uma fala – p131- 133

MITO = Sistema de comunicação historicamente determinado;
           = Uma fala que não se define pelo objeto de sua mensagem, mas pela maneira
               como  é  proferido;
           =  Tem  limites formais, mas não substanciais, portanto tudo pode mito porque  
               o universo é infinitamente sugestivo.

O mito como sistema semiológico  p. 133-139

p.133 “A semiologia é uma ciências das formas, visto que estuda as significações independentemente de seu conteúdo.”

p. 134-135 -Barthes, enfatiza que a fala mítica é formada por uma matéria já trabalhada, pois visa uma comunicação apropriada e  situa o mito numa relação de dependência a uma ciência geral extensiva à Linguística – SEMIOLOGIA = ciência das formas, estuda as significações independente de seu conteúdo.
A semiólogo explora o fato e defini-o como  um valor de equivalência, portanto a semiologia propõe uma relação  entre dois termos , significante e significado, objetos de ordem diferente e constitui uma equivalência. Na linguagem comum, o significante exprime o significado, já no sistema semiológico há três  termos diferentes, o que se apreende não é um termo após o outro, mas a correlação os une:  o significado, o significante e o signo, total associativo dos dois primeiros termos. O exemplo tomado é um ramo de rosas que é (re)significado em paixão, assim, nessa relação existe um significante, um significado, as rosas e a paixão, rosas “passionalizadas”, ou seja,  analiticamente as rosas carregadas de paixão podem ser decompostas em rosas  e em paixão e tinham uma existência independente antes de se transformarem em um signo da paixão. Assim, o significante é vazio e o signo é pleno, é um sentido.

p. 135-136 -  Diálogo – Barthes/Saussure/Freud/ Sartre:
Saussure – estudou um sistema semiológico específico, a língua,  e nesse sistema, significado = conceito; significante = imagem acústica e o signo= relação entre o conceito e a imagem.
Freud-  estudou  o psiquismo= espessura de equivalências, ou seja, um termo é constituído pelo sentido manifesto do comportamento, um outro pelo sentido latente ou próprio ( substrato de um sonho), terceiro termo é a correlação dos dois primeiros: “é o próprio sonho, na sua totalidade, o ato falho ou a neurose, concebidos como compromissos, economias realizadas graças à junção de uma forma ( primeiro termo) e de uma função intencional (segundo termo).”
Sonho ,não é o conteúdo manifesto nem o conteúdo latente, mas a ligação dos dois termos.
Sartre – propôs uma crítica, na qual,  o significado= crise original do sujeito ( separação da mãe para Baudelaire ); Literatura como discurso, forma o significante; e a crise com o discurso define a obra, gerando uma significação.
Daí: na semiologia o esquema tridimensional da forma é constante, mas não funciona sempre do mesmo modo; seu campo é a linguagem , portanto, sujeita a operação da leitura ou do deciframento.

p. 136-137  - MITO – esquema tridimensional – significante/significado e signo – sistema semiológico segundo
signo= totalidade associativa de um conceito e de uma imagem num primeiro sistema (língua), transforma-se em significante no segundo sistema.
p.136 “[...] as matérias primas da fala mítica (língua propriamente dita, fotografia, pintura, cartaz, rito, objeto, etc), por mais diferentes que sejam inicialmente, desde o momento em que são captadas pelo mito, reduzem-se a uma pura função significante: o mito vê nelas apenas uma mesma matéria- prima; a sua unidade provém do fato de serem todas reduzidas ao simples estatuto da linguagem. O termo final (totalidade dos signos) transforma-se em 1º termo ou termo parcial do sistema aumentado que ele constrói.” O mito incorpora dois sistemas semiológicos, um deslocado em relação ao outro. No sistema linguístico, a língua, linguagem-objeto, para Barthes, é a linguagem que o mito utiliza para construir seu sistema; o mito, meta-linguagem, porque é uma segunda língua que fala da primeira. Em decorrência, Barthes sinaliza que o semiólogo deve tratar da mesma maneira a escrita e a imagem: deve considerar que ambas são signos e chegam no limiar do mito por possuírem a mesma função significante = linguagem objeto.
EXEMPLO – p.138 -  capa  de um número da  revista Paris – Match : um negro  vestindo um uniforme do exército francês faz uma saudação militar, com olhos erguidos e fixos na bandeira tricolor – sentido da imagem. A imagem significa que a França é um forte Império e que seus filhos, sem distinção de cor, a respeitam  e adotam sua bandeira. A imagem é uma resposta aos críticos ao colonialismo. Exemplo de um sistema semiológico ampliado: há um significante formado por um sistema prévio = um soldado negro saúda a bandeira francesa; há um significado = misto de “francidade”/ “militaridade”   ; há uma  presença do significado através do significante.
TERMINOLOGIA -  significante no mito= termo final do sistema linguístico ou como termo final do sistema mítico.
No plano da língua – como termo final do 1º sistema – significante = sentido – um negro faz a saudação militar à bandeira tricolor francesa; no plano do mito= forma.
O significado é chamado – conceito – nos dois sistemas. O 3º termo = correlação dos dois primeiros: no sistema da língua= signo e no mito=significação, porque “o mito tem efetivamente uma dupla função: designa e notifica, faz compreender e impõe.”  

A  forma e o conceito p.139 -142

p. 139-140 - Significante no mito= apresenta simultaneamente sentido e forma, pleno de um lado e vazio de outro. A forma não suprime o sentido, empobrece-o, afasta-o, conservando à sua disposição. O sentido tem sua morte suspensa, conserva-se vivo no mito. A forma do mito não é símbolo ( retomando o exemplo – o negro da capa da Paris Match, não é cúmplice do conceito de imperialidade francesa e se constitui como uma presença emprestada, através do conceito, uma história nova é implantada no mito. Daí a característica fundamental do conceito mítico, que é o do ser apropriado. O conceito propicia que uma história nova seja incorporada no mito.

p.141 – O conceito  corresponde a uma função precisa e define-se como uma tendência, pois, um significado pode ter vários  significantes, como exemplo, é possível encontrar muitas imagens que signifiquem a imperialidade francesa. O conceito assim, é quantitativamente mais pobre do que o significante, se limita com frequência a re-apresentar-se.

p.142 – “O conceito é um elemento constituinte do mito: se pretendo decifrar mitos,
e necessário que possa nomear conceitos.” 
 
A significação p.142-148

p.143 A significação é própria do mito, pois o “mito não esconde nada” e tem a função de deformar. A deformação é possível porque a forma do mito já é constituída por um sentido linguístico. Num sistema simples como a língua, o significado não pode deformar nada, porque o significante é vazio, arbitrário, não lhe oferece nenhuma resistência. 

p.144 No mito o significante apresenta duas faces: uma plena, que é o sentido e uma vazia, que é a forma. Exemplo – (negro- soldado francês-saudando-a-bandeira-tricolor) – o conceito  deforma a face plena, o sentido – o negro é privado de sua história e transformado em gesto, ocorre uma deformação, o negro permanece, o conceito retira-lhe a memória, mas necessita dele.

p.144-145 O mito é um valor, não tem verdade com sanção: nada o impede  de ser um perpétuo álibi (termo espacial – há um lugar pleno e um lugar vazio, ligados por uma relação de identidade negativa: basta que o seu significante tenha duas faces para dispor sempre de um “outro lado”: o sentido existe sempre que apresentar a forma; a forma existe sempre para distanciar o sentido.
O caráter  do mito é imperativo e interpelatório, pois surge de um conceito histórico, vem diretamente da contingência, obriga o acolhimento de sua ambiguidade  expansiva, motivação (elemento da significação).

p.147  A significação mítica não é completamente arbitrária, é sempre em parte motivada, contém fatalmente  uma analogia : para que a imperialidade francesa se apodere do negro que faz a saudação militar do negro e a saudação militar do soldado francês. A motivação é necessária à própria duplicidade do mito; o mito joga com a analogia do sentido e da forma: não existe mito sem forma motivada.

p.148 O mito é um sistema ideográfico puro onde as formas  são ainda motivadas pelos conceitos que representam, sem no entanto cobrirem a totalidade representativa desse conceito.

Leitura e decifração do mito p.149-152

p.149 Barthes propõe três tipos diferentes de leitura semiológica do mito:
1- se focalizar o significante vazio – o conceito preenche a forma do mito sem ambiguidade, a significação volta a ser literal – o  negro que faz a saudação militar é um exemplo da imperialidade francesa, é o seu símbolo-  leitura cínica que destrói o mito .  
2- se focalizar o significante pleno, distinguindo plenamente o sentido da forma e, portanto, a deformação que um provoca no outro, é destruída a significação do mito – o negro que faz a saudação militar  transforma-se no álibi  da imperialidade francesa – focalização  do mitólogo que decifra o mito e compreende uma deformação- leitura desistificadora.
3-se focalizar o significante do mito, enquanto totalidade inextrincável de sentido e forma, a significação é ambígua  e ocorre uma leitura segundo a dinâmica própria do mito. O negro que faz a saudação militar passa a ser a própria presença da imperialidade francesa.  A focalização é dinâmica e o leitor vive o mito como uma história verdadeira e irreal.

p.151 O mito-  não é uma mentira nem uma confissão. É uma inflexão. É simultaneamente imperfectível e indiscutível: o tempo e o saber nada lhe podem acrescentar e subtrair.

p.152 O mito é lido inocentemente quando não é lido como um sistema semiológico, mas como um sistema indutivo, ou seja, quando há uma equivalência lê- se uma processo causal, no qual o significante e o significado mantêm relações naturais. Todo sistema semiológico é um sistema de valores.

Mito como linguagem roubada  p. 152-158

p.152  A função específica do mito é a de transformar um sentido em forma.
A língua oferece fraca resistência ao mito, pois ele pode desenvolver o seu esquema segundo, a partir de qualquer sentido, não importa qual, ou ainda a partir da própria privação de sentido.

p.153 – O mito nunca está no grau zero da língua.
  

 

terça-feira, 12 de março de 2013

Síntese crítica - Sambaqui: arqueologia do litoral brasileiro

GARPAR, Madu. Sambaqui: arqueologia do litoral brasileiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.
Mestranda Karla Adriana Nascimento Cunico[1]


           Na introdução Gaspar faz um panorama sobre a área de atuação da arqueologia. Ao afirmar que “a arqueologia é a ciência que estuda as culturas a partir do seu aspecto material, construindo suas interpretações através da análise dos artefatos, seus arranjos espaciais e sua implantação na paisagem” (p. 07).
Em linhas gerais, Gaspar (p. 08) as possibilidades do campo de estudo da arqueologia diz que “o investimento maior dos pesquisadores brasileiros tem sido no estudo de culturas pré-históricas”. E quando se refere à ocupação do território brasileiro situa “a referência cronológica para o início da ocupação do território brasileiro seja de 12 mil anos”.
A pesquisadora também afirma que os estudos da arqueologia nacional “tem se dedicado também ao estudo sistemático da ocupação da costa por pescadores e coletores que se instalaram na faixa litorânea por volta de 6.500 anos AP[2]” (p. 08).
O principal objeto do livro são os Sambaquis. Quanto ao nome dado a este tipo de sítio, a autora diz que “Sambaqui é uma palavra de etimologia Tupi, língua falada pelos horticultores e ceramistas que ocupavam parte significativa da costa brasileira quando os europeus iniciaram a colonização. Tamba significa conchas e kiamontoado, que são as características mais marcantes desse tipo de sítio” (p. 09) e ao explicar as características físicas dos Sambaquis afirma que

são caracterizados basicamente por serem uma elevação de forma arredondada que, em algumas regiões do Brasil, chega a ter mais de 30m de altura. São construídos basicamente com restos faunísticos como conchas, ossos de peixe e mamíferos. Ocorrem também frutos e sementes, sendo que determinadas áreas dos sítios foram espaços dedicados ao ritual funerário e lá forma sepultados homens, mulheres e crianças de diferentes idades. Contam igualmente com inúmeros artefatos de pedra e osso, marcas de estacas e manchas de fogueiras, que compõem uma intricada estratigrafia. (p. 09)

O Sambaqui ainda “é considerado o resultado de ordenado trabalho social que tinha por objetivo, entre outras coisas, construir um imponente marco paisagístico” (p. 10).

Breve história das pesquisas em Sambaqui

As pesquisas arqueológicas sobre os Sambaquis pautaram-se segundo Gaspar em três vertentes conhecidas como “naturalista”, “artificialista” e “mista”. Para a autora a vertente “naturalista”, “considerava que os sambaquis eram resultados do recuo do mar e da ação do vento exercida sobre as conchas lançadas à praia” (p. 12). A vertente dos “artificialistas” “sustentavam que eram resultado da ação humana e propunham diversas explicações sobre o acúmulo de restos faunísticos” (p. 12). Com o avançar das pesquisas, os indícios de ação humana nos sambaquis se tornaram cada vez mais evidentes, nisso surgir a corrente “mista”, onde “percebe os sambaquis como uma combinação de elementos naturais e humanos” (p. 13).
A autora sinaliza que a evolução das pesquisas arqueológicas sobre Sambaquis iniciaram na década de 1950

as pesquisas de arqueologia consideradas modernas [...] a intelectualidade brasileira dá início a um intenso movimento visando proteger os sambaquis, que desde o século XVI vinham sendo destruídos sistematicamente, já que as conchas eram utilizadas para a fabricação de cal. (p. 17/18)

Dando prosseguimento nos aspectos históricos das pesquisas arqueológicas sobre esse tipo de sítio, afirma que na metade da década de 90 enfim

a arqueologia brasileira começou a abandonar o excessivo empirismo que sempre a caracterizou, voltando-se para a resolução de determinadas questões. Temas como domesticação de vegetais, sedentarismo, identidade social, territorialidade e organização social passaram a compor o cenário científico. (p. 26)

Os estudos demarcam que a vertente “mista”, é bem aceita no campo científico, compreende que “após o abandono do sítio pelo grupo que o construiu, o local tenha passado por inúmeros processos naturais e culturais que determinaram sua feição atual” (p. 28).
Com o passar do tempo esses sítios, já sem seus construtores, foram reutilizados para os mais variados fins

horticultores faziam ali suas roças, aproveitando a concentração de matéria orgânica; os colonizadores portugueses erigiam algumas de suas igrejas e de seus faróis sobre tais locais, pontos estratégicos para o domínio da paisagem natural e social. Com o desenvolvimento econômico do país, os sambaquis foram intensamente minerados para o fabrico de cal e pavimentação de estradas, dando lugar às cidades litorâneas (p. 28/29).

A ocupação do litoral brasileiro

Gaspar afirma sua posição em consonância aos “pesquisadores que estudam a evolução do litoral brasileiro informam que por volta de 7 mil anos AP o mar estava recuado e que esse ambiente, hoje coberto pelas águas, pode ter sido o local de moradia dos primeiros sambaquieiros” (p. 32). Existem três hipóteses sobre o processo de colonização do nosso litoral:
ü  Os mais antigos sítios conhecidos foram construídos por uma população que já tinha o hábito de explorar ambientes costeiros
ü  Essa população veio de um ambiente semelhante ao encontrado na costa do Brasil
ü  Desenvolveu o seu modo de vida no litoral há muito tempo

O Sambaqui é um espaço peculiar onde encontra-se vestígios de três importantes aspectos da vida em uma sociedade: local de habitação; sepultamento dos mortos e restos alimentares. Gaspar (p. 34) salienta que

muita coisa já foi dita sobre esse espaço construído: que o cheiro de ostra e de marisco em decomposição era insuportável; que os mosquitos infernizavam a vida das pessoas; e que o acúmulo de matéria orgânica criaria condições favoráveis para a proliferação de doenças. Segundo essa ótica, os sambaquieiros teriam criado um lugar desagradável.


Este é um ponto crucial na discussão que envolve o uso efetivo do sambaqui por parte da sociedade que o criou, como os habitantes conseguiam viver em um espaço que continha restos de alimentos e vestígios funerários?  Gaspar nos alerta que a “percepção é formada culturalmente e, portanto, é relativa; o cheiro de frutos do mar poderia não ser desagradável para quem vivia da pesca” (p. 34).
A autora afirma que como não existem herdeiros culturais dos sambaquieiros, esse grupo “só ganha consistência a partir do contraste com outros conjuntos de vestígios que lhe são contemporâneos” (p. 35).  

Essa reflexão parte do princípio de que o espaço é um aspecto estruturador da vida em sociedade, de que existe uma estreita relação entre o que uma coisa é e o lugar no qual está situada. O lugar é, em si mesmo, parte do ser do objeto. Essa premissa é particularmente reveladora no caso do sambaqui, locus de ritual funerário, o que fornece a este mesmo espaço uma dimensão sagrada (p. 36).

Quanto aos estudos dedicados a relação espaço-temporal dos sambaquis, Gaspar afirma que “é certo que por volta de 6.500 anos AP os sambaquieiros já estavam ocupando o litoral do Paraná e dali teriam partido seguindo dois eixos: um em direção ao norte e outro, ao sul do país” (p. 39).
            Gaspar enfatiza que os sambaquieiros não viveram em completo isolamento de outros grupos pré-coloniais, para ela, “população, língua e cultura não se sobrepõem exatamente como gostariam os pesquisadores. A cultura deve ser pensada como entidade dinâmica e sempre em mudança” (p 41).

Tipo de ocupação: nômades ou sedentários?

Neste tópico, Gaspar alerta aos leitores sobre as condições ambientais dos espaços que abrigavam os sambaquis, tais condições foram interpretadas por análise in loco, visto que nos sambaquis não são encontrados vestígios que remetam ao ambiente encontrado pelos construtores dos mesmos. A autora afirma que eles “estabeleciam seus assentamentos em locais estratégicos onde pudessem obter alimentos todos os dias e durante o ano inteiro” (p. 42). Os sítios eram construídos em locais estratégicos, sendo “áreas de interseção ambiental. Próximos de enseada, canal, rio, laguna, manguezal e floresta, dos sambaquis era possível alcançar rapidamente os diferentes ambientes” (p. 42). Neste sentido afirma-se que os sambaquieiros eram uma população sedentária e permaneciam por um longo tempo naquelas construções.



Tempo de ocupação dos sambaquis

Durante os anos de 1994-95, Gaspar analisou a datação de 147 sítios, com esse trabalho concluiu que os sítios foram ocupados por um longo período, sendo que “a grande maioria funcionou por mais de cem anos, ininterruptamente. Alguns estiveram ativos durante mais de mil anos, período surpreendente e inesperado para o que se considerava um bando de coletores nômades” (p. 45).

Tecnologia, arte e domínio do mar

Com os indícios de ocupação de ilhas e restos faunísticos de alto mar, entende-se que “os sambaquieiros certamente dispunham de algum tipo de embarcação para garantir as rotineiras idas e vindas entre os diferentes pontos do continente e ilhas” (p. 48).
A análise dos artefatos encontrados nos sambaquis, evidencia que aquele povo tinha uma tecnologia avançada para caça, pesca, fabricação de adornos, utensílios de cozinha, trabalho com madeira, além de que “a destreza em lidar com as pedras está manifesta tanto nos pingentes como nas esculturas” (p. 51). Tais pedras eram lascadas e polidas, em locais conhecidos como oficinas de polimento, que 

são diques de diabásio ou basalto que apresentam conjuntos de marcas correspondentes à preparação do lado, da face e do gume da lâmina. Geralmente estão próximos da água, elemento que, junto com a areia, agilizava a obtenção do polimento desejado. (p. 52)

Nos sambaquis além de ainda são encontradas esculturas de pedra e também de osso “conhecidas como zoólitos (zoo=animal, lito=pedra); são objetos que impressionam pela beleza e pelo equilíbrio de formas” (p. 52).

Sambaquis próximos, moradores vizinhos

            Ao analisar artefatos de vários sítios, a autora percebeu certa familiaridade no modo de produção e no formato final de tais artefatos, com isso “evidenciou uma cultua material produzida por pessoas que circulavam entre os sítios e que viajavam pelo litoral de uma maneira capaz de disseminar e manter o modo de resolver os seus problemas e fazer suas coisas” (p. 56). Entende-se que a ocupação simultânea de sítios próximos possibilitou a convivência entre seus habitantes, ressalta-se que a mesma foi pacífica, visto que “não há nos ossos humanos indícios de disputas sistemáticas nem arsenal tecnológico voltado para a guerra” (p. 57).

Atividades nos sambaquis e indícios de mudança social

Os sambaquis, independentemente de suas dimensões, tinham a mesma função de servir seus ocupantes, eram

o espaço das atividades rotineiras de um grupo pescador e o local de sepultamento dos membros da população [...] sua dimensão relacionava-se com a maior intensidade de atividades rotineiras decorrente do maior número de pessoas envolvidas ou maior tempo de duração (p. 61)


            Quanto a densidade demográfica, estima-se que cada “comunidade sambaquieira contaria com pelo menos três sítios ativos, além de reunir um número maior de sítios de pequeno porte [...] é possível ter como parâmetro 180 pessoas para os grupamentos menos densos” (p. 62).
            A autora observou que os sambaquis da região de Laguna/SC apresentavam uma característica singular quanto ao uso de seus espaços, naquela região “os grandes sítios, a produção de esculturas e a criação de locais específicos para os mortos delineiam o desenvolvimento de características regionais” (p. 65).
            Com o desenrolar do tempo, os sambaquieiros começaram a participar de interações culturais cada vez mais intensas, Gaspar afirma que “é o contato com outras culturas que explica também a desestruturação da sociedade sambaquieira” (p. 67). Em um primeiro momento esse contato foi com os ceramistas do interior e é esse fato

que explica a presença de cacos de cerâmica nos últimos níveis  de ocupação de muitos sítios sem que tenha havido mudanças significativas em outros aspectos da vida social [...] considerando as características dos grupos que estavam na costa brasileira quando os europeus chegaram, os sambaquieiros devem ter sido incorporados ou eliminados (p. 67/68).

A autora lembra que os assuntos relacionados ao desaparecimento da sociedade que construiu os sambaquis não foram devidamente aprofundados por pesquisas científicas, logo, só podem ser tratados de maneira superficial.

Ritual funerário

            O tratamento dado aos mortos pelos sambaquieiros é um capítulo repleto de detalhes, que permite aos arqueólogos a dedução de vários aspectos daquela sociedade, nos sambaquis é possível encontrar resquícios de ossadas humanas, mas

os sepultamentos, embora sigam um determinado padrão, não são idênticos nem mesmo em único sítio. É difícil estabelecer se o programa mortuário sofreu mudanças através do tempo, mas é certo que houve tratamento especial para certos indivíduos e que estas especificidades não se restringiam às diferenças de idade e de sexo (p. 70).


Durante as pesquisas arqueológicas, foram encontrados rituais funerários diversos, eles incluíam adornos, enfeites, ferramentas e equipamento de pesca e caça – que os pesquisadores indicam ser do falecido. Gaspar diz que “é possível considerar que o programa mortuário remete à organização social dos sambaquieiros e que a presença de sepultamentos elaborados se refere à existência de desigualdade social” (p. 70). Os artefatos encontrados junto aos sepultamentos, indicam o grupo a que pertencia a pessoa que foi enterrada ali, provavelmente um bom caçador era enterrado com seus materiais de caça, por exemplo.

Organização social: bando, tribo ou chefia?
           
Neste tópico Gaspar busca tratar das diferenças entre “bando”, “tribo” e “chefia”, traz a luz a cada conceito para explicar como ela enquadrou os sambaquieiros, para ela as evidencias tratadas no livro -  localização dos sítios, rituais funerários diferenciados – indicam que eles tinham “uma sociedade com incipiente hierarquia social” (p. 76).
Para os pesquisadores os povos dos sambaquis não se enquadram nos conceitos “bando”, “tribo” ou “chefia”, provavelmente havia alguém que ocupasse a posição central da sociedade em questão, mas dificilmente institucionalizado, inclusive na questão da organização do trabalho, não foram encontrados indícios de que houvesse um controle por parte de um grupo dominante.


SÍNTESE CRÍTICA

O tema está longe de ser concluído, mas Gaspar deixa claro sua posição no que se refere ao conceito recorrente da comunidade acadêmica que tem “a imagem dos sambaquieiros como um pequeno bando de coletores de moluscos”, para a autora essa categorização simplista não condiz com a verdade, a sociedade sambaquieira representa “uma realidade muito mais complexa, capaz de executar grandes obras – como a construção dos próprios sítios –, que contava com artesãos que se aprimoraram na arte lítica e cuja trama social incluía número significativo de pessoas (p. 78).




[1] Mestranda em Patrimônio Cultural e Sociedade - Universidade da  Região de Joinville - UNIVILLE
[2] Para Gaspar, “AP significa ‘antes do presente’, que, por convenção, é 1950. Trata-se de uma menção à descoberta da técnica de datação através do Carbono 14, que se deu em 1952. Assim, o evento mencionado ocorreu 6.500 anos antes de 1950” (p. 08).