sexta-feira, 18 de março de 2016

Resenha Crítica: Aula proferida em 28 de janeiro de 1976 Curso no Collège de France (1975-1976), de Michael Foucault

Resenha Crítica
Autor da Resenha:
Pedro Romão Mickucz
Mestrado em Patrimônio Cultural e Sociedade, da Univille
Referência do Texto:
FOUCAULT, Michel.  Aula proferida em 28 de janeiro de 1976. In: Defesa da sociedade:Curso no Collège de France (1975-1976). (trad. de Maria Ermantina Galvão). São Paulo: Martins Fontes, 1999.
Palavras-chaves (2):
Contra-história, luta, raças, racismo
Desenvolvimento do Texto:

Na aula proferida em 28 de janeiro de 1976, Foucault discute a questão da contra-história da luta das raças, retomando temas apresentados em aulas anteriores, interpretados como um elogio do discurso racista.
Nessa aula de 1976, é esclarecido que o elogio do discurso da guerra ou da luta das raças se afirma até o século XIX, e que esse discurso da guerra funcionava como uma contra-história (FOUCAULT, 1999, p.75)
Historicamente remonta fatos da Antiguidade, da Idade Média e Moderna, para apresentar os eixos genealógicos e os eixos memoriais como recursos de legitimar a soberania dos vencedores (p.77). A história é apresentada por Foucault como um discurso do poder, onde a narração dos vencedores se sobrepõe à dos vencidos.
Foucault ao tratar das raças soberanas procura distinguir suas ideias das ideias de Thomas Hobbes e Carl von Clausewitz ao questionar o sentido das guerras. Para o autor, a soberania pode continuar por outros meios simbólicos, como o do discurso deixado pelas raças. Assim, partir do século XVI e XVII esse discurso deixa de elogiar a soberania, para discursar sobre as raças, e a luta que essas raças enfrentam através das nações e das leis (p.80).
Foucault sinaliza com exemplos: como a vitória dos francos e de Clóvis no século V, propicia a visualização do lado dos vencidos – a escravidão dos galo-romanos. Os vencedores de um lado e os vencidos subjugados de outro. Quando surgem duas histórias como essas, existe a luta das raças, ou a contra-história (p.81)
Para contrapor ao que foi estabelecido por séculos de discursos de raças vencedoras, Foucault exemplifica com os relatos bíblicos, que de uma forma ou de outra, fazem oposição aos relatos históricos romanos. Assim, para o autor, esse tipo de história se  funda mais na tradição judaico-cristã, do que na romana (p.82-83).
Nesse sentido, Foucault menciona o conceito de raça, segundo os discursos e as lutas das raças. O conceito torna-se fixo no sentido histórico-político, e não em seu aspecto biológico. Há discursos de raças quando existem dois grupos que não tem a mesma origem local; dois grupos que não tem, pelo menos na origem, a mesma língua e em geral a mesma religião; não se misturam por causa de diferenças (p.89-90).
Cabe destacar o abandono de uma história centrada em rituais da soberania e de seus mitos (p.93), para sociedades com consciência histórica, pautadas em revoluções, adventos marcados nos séculos XVI e XVII, transitando para sociedades modernas (conceito esse - vazio, segundo Foucault).
Por fim, utiliza-se do  exemplo do nazi fascismo para explicar os regimes totalitários no século XX. Assim como em A vontade de Saber, Foucault utiliza do conceito de biopoder (segundo o qual, o Estado tem o direito de fazer viver ou morrer) diante do dever de proteger a superioridade da raça (p.96-97). Momento em que pureza de raça se sobrepõe à luta das raças e que surge o racismo. Nesse sentido, não se luta contra um inimigo por ser de um povo diferente, mas por utilizar do argumento de que o outro é biologicamente diferente – racismo de Estado. Assim o Estado deveria lutar para proteger biologicamente sua raça (p.95).
Portanto, como no nazi fascismo, o Estado Soviético produzia um racismo mudo, no momento em que a luta de classes (p.97-98) alcança um racismo também biológico, porém de cunho evolucionista, buscando aniquilação de doentes mentais, de criminosos e adversários políticos (entenda-se o enfrentamento físico com a classe capitalista).
Michel Foucault contribui significativamente para a história, quando coloca que o “papel da história será o de mostrar que as leis enganam, que os reis se mascaram, que o poder ilude e que os historiadores mentem” (p. 83-84). Mas, se decifrarmos esses papeis, teremos a decifração de verdades seladas, logo a compreensão desse tipo de história é primordial para termos a consciência do que escrevemos e o que deciframos não é algo fechado, mas aberto a novas “verdades”, logo, somos frutos dos discursos que escrevemos na contemporaneidade.