segunda-feira, 13 de julho de 2015

Resenha Crítica: "A linguagem Indireta", de Merleau-Ponty




Resenha Crítica
Autor da Resenha:
Maria Cristina Dias dos Reis Lima, jornalista, aluna do Mestrado em Patrimônio Cultural e Sociedade – turma VII, da Univille
Referência do Texto:

MERLEAU-PONTY, Maurice. A linguagem Indireta In: A prosa do mundo, São Paulo: Cosac &Naify, 2007
Palavras-chaves (2):
Arte, linguagem, fenomenologia
Desenvolvimento do Texto:

Os paralelos entre a linguagem e a pintura são o tema central do texto “A Linguagem Indireta”, de Maurice Merleau-Ponty, que integra o livro “A prosa do mundo”. Nele, o filósofo e psicólogo francês nascido em 1908 discorre sobre pintura, linguagem, percepção e significado, em um texto fluido e envolvente, onde conversa com o leitor, conduzindo-o a reflexões sobre arte clássica e moderna, linguagem e história, entre outras.
            O autor começa o texto afirmando que mesmo que devamos deixar de tratar a pintura como linguagem, o que ele classifica como um lugar comum do nosso tempo, é necessário reconhecer que o paralelo entre as duas (pintura e linguagem) é legítimo. Ele usa uma linguagem figurada e poética para descrever o trabalho do pintor e a subjetividade e profundidade que está contida nele, ao afirmar que “o pintor joga fora os peixes e conserva a rede. Seu olhar apropria-se das correspondências, das questões e das respostas que, no mundo, são indicadas apenas secretamente, e sempre abafadas pelo estupor dos objetos, ele os desinveste, os liberta e busca para eles um corpo mais ágil”. Já as  cores e as telas, para ele, “abrem um buraco no pleno do mundo (...) estão ali apenas como o mínimo de matéria de que um sentido precisava para se manifestar” p. 94
            Para ele, a linguagem tem papel semelhante, já que por meio dela o escritor traz o sentimento de vida que o habita, “desdobrado num mundo imaginário e no corpo transparente da linguagem” p.94. Para fazer isso, ele se vale de instrumentos como as palavras, a sintaxe e os gêneros, apropriando-se deles e usando-os para exprimir este sentimento que é próprio dele. 
            E destaca que ambas, a linguagem e a pintura, têm em comum a transmutação que fazem, transformando sentido em significação. “Dos dois lados, porém, é a mesma transmutação, a mesma migração de um sentido esparso na experiência […] como a mesma operação expressiva funciona aqui e ali, é possível considerar a pintura sobre o fundo da linguagem e a linguagem sobre o fundo da pintura” p. 94.
            O autor explica ainda que a comparação a que se propõe só é possível porque há uma ideia da expressão criadora moderna. ”Como a linguagem, a pintura vive primeiro no ambiente do sagrado exterior [...] A transmutação que operam do sentido em significação, é homenagem ao Ser que elas julgam-se destinadas a servir” p.95.  “Deve-se dizer que elas próprias são culto e religião porque não assumiram seu próprio poder” . “Enquanto a arte se consagra à Cidade e aos Deuses, enquanto a fala é concebida como o simples exercício de uma linguagem de instituição divina, o prodígio da comunicação entre os homens é projetado para trás de nós.[...]. E este é o ponto de partida, segundo o autor, para que, entre os modernos, o sentido da pintura e da linguagem sejam recuperadas por elas mesmas p. 95.
             Merleau-Ponty dedica-se primeiramente à pintura, estabelecendo uma reflexão sobre a arte clássica e a moderna. Ele se debruça sobre a obra Psicologia da arte, de André Malraux, seu contemporâneo, e a analisa criticamente – hora aproximando-se, ora contestando-a. Para  Merleau-Ponty , “para definir pintura clássica, não basta certamente falar de representação ou de natureza, ou de uma referência a nossos sentidos como meios de comunicação naturais”. Ele busca uma forma de fazer a ligação entre o elemento de criação e o de representação e, para isso, detém o olhar sobre a perspectiva, um elemento de percepção que considera “em realidade, inteiramente forjado”, ou seja uma criação em si. “É certo que essa perspetiva não é uma lei de funcionamento da percepção, que ela pertence à ordem da cultura, que ela é uma das maneiras inventadas pelo homem de projetar diante dele o mundo percebido, e não o decalque do mundo” p. 99. O autor explica que a percepção é diferente pois o objeto próximo e o distante não são comparáveis e que a perspectiva é uma forma de fazê-los coabitar no mesmo plano. “O que transporto ao papel não é essa coexistência dos objetos percebidos, sua rivalidade diante de meu olhar. Encontro o meio de arbitrar seu conflito, que produz a profundidade”, reflete ele, frisando que “meu olhar, percorrendo livremente a profundidade, a altura e o comprimento, não estava submetido a nenhum ponto de vista porque os adotava a rejeitava a todos sucessivamente, ao passo que agora renuncio a essa ubiquidade e convenho só fazer figurar em meu desenho o que poderia ser visto de um certo ponto de observação por um olho imóvel fixo num certo 'ponto de fuga', de uma certa 'linha de horizonte'”, analisa ele, para quem a perspectiva é a expressão de um mundo dominado. p. 101.
            Para o autor, a pintura clássica vai além disso, além dessa representação da realidade, mas deve ser compreendida como criação, como expressão da “metamorfose do mundo percebido”. E com isso ela se aproxima da concepção da pintura moderna. “Enquanto os clássicos eram eles próprios sem que o soubessem, os pintores modernos procuram primeiro ser originais e seu poder de expressão confunde-se com sua diferença”. E prossegue adiante, afirmando que os modernos não buscam o “inacabado pelo inacabado”, mas priorizam o momento em que a obra é feita. “Pode ser também o reconhecimento de uma maneira de comunicar que não passa pela evidência objetiva (...), mas o constitui e o inaugura, e que não é prosaica porque desperta e reconvoca por inteiro nosso poder de exprimir e nosso poder de compreender” p. 106.
            Mas Merleau-Ponty não faz somente críticas a Malraux. Ao falar de estilo, ele enaltece a noção estabelecida pelo autor e destaca que “o que o pintor busca colocar num quadro não é o seu eu imediato, a nuance mesma do sentir, é seu estilo, e ele precisa conquistá-lo sobre suas próprias tentativas” p. 107. E mais adiante avalia o papel desse estilo na obra: “O estilo é o que torna possível toda significação“ p.109.
            Essas considerações são fundamentais para Merleau-Ponty porque possibilitam a compreensão da origem da significação. Ou como ele explica, em sua forma empática de se colocar junto do leitor para melhor guiá-lo em seu raciocínio: “Avaliemos bem o problema: não se trata de compreender de que modo significações, ou ideias, ou procedimentos dados vão ser aplicados a esse objeto, que figura imprevista o saber irá tomar nessa circunstância. Trata-se primeiro de compreender de que modo esse objeto, essa circunstância passam a significar, e sob quais condições” p.110. Depois, ele se vale de uma pergunta retórica para exprimir quase poeticamente a questão e aproximá-la da linguagem, voltando aos paralelos entre pintura e linguagem que é o tema central do texto: “De que maneira o pintor ou o poeta seriam outra coisa senão seu encontro com o mundo?” p. 117.
            Assim como a pintura, a linguagem, para o autor, carrega em si um “horizonte de investigações”, que vai além da simples tentativa de decodificação de seus signos. “Não se pode fazer o inventário de uma pintura – dizer o que nela está e o que não está – como tampouco de um vocabulário, e pela mesma razão: ela não é uma soma de signos, é um novo órgão da cultura humana que torna possível, não um número finito de movimentos, mas um tipo geral de conduta, e que abre um horizonte de investigações” p.126.
            O autor critica o excesso de reverência às obras pictóricas no museu, frisando que este local, ao mesmo tempo que “transforma obras em obras”, as afasta de seu meio, “separando-as das vicissitudes em meio às quais nasceram”.  Não que os museus não sejam importantes... Mas ele defende uma outra relação com o seu conteúdo, uma relação de diálogo e não de distância. “Seria preciso ir ao museu como fazem os pintores, na alegria do diálogo, e não como fazemos nós, amadores, com uma reverência que afinal não tem cabimento” p.131. Isto porque, para o filósofo, a história verdadeira da pintura não está no passado, mas sim no presente, habitando os artistas.
            Merleau-Ponty enfoca também a semelhança entre obras. Mas para ele a principal questão aí não são as semelhanças em si, mas compreender o que leva culturas diferentes a se dedicarem às mesmas buscas.
            E mais adiante se volta ao conceito de História (e à dialética de Hegel) e o vincula à arte, para afirmar que “não precisamos escolher entre o para si e o para-outro (grifo do autor), entre o pensamento segundo nós mesmos e o pensamento segundo os outros que é propriamente alienação, mas que, no momento da expressão, o outro a quem me dirijo e eu que me exprimo estamos ligados sem concessão da parte dele nem da minha” p. 150. Ele  afirma que as “palavras, na arte da prosa, transportam aquele que fala e aquele que ouve a um universo comum, mas só o fazem ao nos arrastarem com elas para uma significação nova (...)” p. 152.
            “História, linguagem, percepção, é somente aproximando esses três problemas que poderemos retificar em seu próprio sentido as belas análises de Malraux e tirar delas a filosofia que comportam. Veremos então, que é legítimo tratar a pintura como linguagem: esse tratamento da pintura põe a descoberto, nela, um senso perceptivo, cativo de configuração visível, e no entanto capaz de recolher dentro dele, numa eternidade sempre por refazer, toda uma série de expressões anteriormente sedimentadas – e que a comparação não sirva apenas à nossa análise da pintura, mas também à nossa análise de linguagem (…) p. 153. Nesse trecho,  Merleau-Ponty sintetiza o seu esforço de traçar paralelos entre a pintura e a linguagem, o que é reforçado na página seguinte, quando escreve que “É preciso começar por admitir que a linguagem, na maioria dos casos, não procede de um modo diferente que a pintura. Um romance exprime como um quadro, mas a virtude do romance, como a do quadro, não está no assunto” p. 154. Esta virtude vai aparecer no que está implícito, “não está em parte alguma nas palavras, está entre elas, nos vazios de espaço, de tempo, de significações que elas delimitam”.
            Para ele, “há algo análogo em toda linguagem”, embora elas não sejam iguais. E elenca diferenças próprias de cada uma, sem deixar de destacar os pontos que as unem. “O escritor só se concebe numa linguagem estabelecida, enquanto cada pintor refaz a sua. E isso quer dizer muito. Isso quer dizer que a obra da linguagem, construída a partir desse bem comum que é a língua, pretende se incorporar a ela (…) as transformações mesma que traz permanecem reconhecíveis na língua após a passagem do escritor, enquanto que a experiência de um pintor, ao passar a seus sucessores, deixa de ser identificável” p. 173.