terça-feira, 1 de novembro de 2016

Linguagem, Verdade e Conhecimento
Autores da Resenha:
Philipe Macedo Pereira, mestrando em Patrimônio Cultural e Sociedade da UNIVILLE
Thiago Túlio Pereira, acadêmico de Letras da UNIVILLE
Referência do Texto:
MERLEAU-PONTY, M. O algoritmo e o mistério da linguagem. In: MERLEAU-PONTY, M. O Homem e a Comunicação: A Prosa do Mundo. Rio de Janeiro: Edições Bloch, 1974. p. 125-138.
Palavras-chave (3):
LINGUAGEM – CONHECIMENTO – VERDADE
Desenvolvimento do Texto:

Em “O algoritmo e o mistério da linguagem”, o filósofo fenomenólogo francês Maurice Merleau-Ponty (1908-1961) trata da linguagem e sua relação com a verdade, o conhecimento e a percepção, utilizando como analogia o ordenamento matemático. Trata-se do sexto capítulo do seu livro “O Homem e a Comunicação: A Prosa do Mundo”, primeira edição de 1974, publicado no Brasil pela Bloch Edições, Rio de Janeiro.
          Para o autor, a linguagem não é significada tão somente aos usos habituais ou convencionais, até mesmo não se preocupando com uma significação, em certos momentos. Dentro da própria linguagem, ela existe nela mesma, lançando como exemplo o caso dos pensamentos, que na visão de Merleau-Ponty são palavras criadas por palavras que, por sua vez, resultam em mais significações de linguagem. Também, é abordada a questão da palavra enquanto ruído, o qual se manifesta nas palavras que são ditas sem um pensar prévio, como um frugal aperto de mão, apoiando-se no filósofo francês Jean Paulhan para sustentar sua teoria de que a linguagem quando falada “[...] não se contenta em designar pensamentos como um número, na rua, designa a casa de meu amigo Paul – mas realmente se metamorfoseia neles assim como eles se metamorfoseiam nela [...]” (p.194).
            Merleau-Ponty também pondera que não há definições prontas para a linguagem, posto que no momento em que ela é, ou que pretensamente é postulado um ser da linguagem, não há mais como voltar atrás e questioná-la, pois já se possui um significado produzido com relação a ela: “A linguagem só permanece enigmática para quem continua a interrogá-la, isto é, a falar dela” (p.197). Desta forma, o filósofo postula a procura, o questionamento da linguagem como forma de manter o mistério em torno dela, pois no momento em que ela é utilizada na prática cotidiana, perde-se de fato esta busca e tem-se apenas um uso.
            Na sequência, Maurice Merleau-Ponty pontua que encontramos nossas palavras, por vezes, nas palavras do outro, levando-nos a admitir que “[...] não vivo somente meu próprio pensamento, mas que, no exercício da fala, me torno aquele que eu escuto” (p.198). É esse caráter dinâmico da linguagem que molda o próprio movimento do pensamento, do conhecimento e da verdade.
           O autor, então, propõe compreender a linguagem como reconstrução algorítmica, procurando entender a verdade linguística como fosse um processo numérico, com relações entre as palavras. E dá o exemplo de objetos que possuem um uso primeiro, mas em certo momento se deslocam de sua função primária para desempenhar outro papel, sofrendo uma alteração do sentido, tais quais as palavras em certos momentos.
            Para Merleau-Ponty, a percepção parte de um “eu posso”, de modo que a construção da verdade deriva de “eu penso” (p.200), um ato de reconhecimento interior que valora a linguagem. O filósofo afirma também que não é mais possível ao matemático trabalhar com as operações já conhecidas e apenas isso, ele deve procurar as outras hipóteses, de modo que “[...] a própria operação seja legitimada pela natureza do ser matemático sobre o qual incide” (p.201). Na visão do autor, ao se encontrar no algoritmo, a linguagem é fluida e liberta de qualquer compromisso que tenha com os signos.
              Merleau-Ponty também discorre sobre as experiências que tem “o caráter de verdade” (p.202), classificando-as como eventos que, ordinários, em dado momento se aprofundam, deixam de ser opacos, fazem-se transparentes e são sentidos ad eternum. Desta forma, o autor traz à discussão os termos “propriedade” e “ser”, afirmando que há “elos indestrutíveis” entre elas, e que as relações estabelecidas entre elas são “sinônimas” (p.203).
              O filósofo destaca outro ponto que é a questão da percepção. Para o autor, a percepção não é o conhecimento, mas o prescinde. O conhecimento, portanto, é aquilo que se constrói a partir de percepções do mundo, envolvendo aquele que o percebe e aquilo que é percebido. Esse diálogo constrói a percepção, que, dotada de sentido, transforma-se em conhecimento. A percepção, para o filósofo, apenas reconstitui (o númeno) aquilo que já está constituído e existe por si só (o fenômeno).
              Na esteira das discussões sobre percepção e conhecimento, outro conceito relevante apresentado no texto é o de verdade. Para Merleau-Ponty, a verdade é um “devir” de sentidos, ou seja, é um elemento em constante dinamismo. Quando, através da percepção e das formulações, se constitui um novo conhecimento, a verdade está nesse movimento de (re)construção.
            Todo conhecimento “novo” parte de um conhecimento “antigo”, seja aquele que promove sua continuidade ou sua ruptura. A cada nova resposta aparecem infinitas perguntas. Respondê-las não é constituir a verdade; esta não se esgota em si. Ela está nesse eterno “continuum” de “perguntas x respostas”, “percepções x conhecimentos” que é mediado pelas percepções e conhecimentos humanos.
              Finalmente, ao retomar a questão do “algoritmo” e as relações entre a linguagem e a matemática, Merleau-Ponty pontua que não há conhecimento que se esgote, haja vista que as demandas surgem de acordo com as novas formulações da realidade. Dessa forma, fazendo uma analogia com o corpo, que ele assume como “o veículo em busca do ser no mundo” (p. 213), o autor coloca “a fala como o veículo em busca da verdade” (p. 213), ou seja, esse eterno “devir de sentidos”.
Observações:
O texto é um importante subsídio para discussões sobre linguagem, verdade e conhecimento, podendo mediar debates de Filosofia, Epistemologia (para qualquer área do conhecimento, neste caso), Letras e áreas afins à Comunicação. Sua linguagem complexa e estrutura em forma de ensaio provocam olhares múltiplos de leitura, que viabilizam debates. Essa prática pode ser utilizada para elucidar trechos de difícil compreensão presentes em alguns parágrafos. Como forma de contextualização filosófica, uma leitura panorâmica sobre a Fenomenologia e Merleau-Ponty talvez seja interessante.

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