Resenha crítica dos capítulos 8 e 9 do livro "O elogio da palavra", de Phillipe Breton

 

RESENHA CRÍTICA DOS CAPÍTULOS 8 E 9 “MINHA PALAVRA VALE O MESMO QUE A SUA: A SIMETRIA DEMOCRÁTICA”; “DA VIOLÊNCIA À MODERAÇÃO: A PROMESSA DO PROCESSO CIVILIZADOR”

Autores da Resenha:

Cladir Gava, Mestranda em Patrimônio Cultural e Sociedade pela UNIVILLE

Referência do Texto:

Referência do Texto: BRETON, Philippe. O elogio da palavra. São Paulo: Edições Loyola, 2006.

Desenvolvimento do Texto:


Nos capítulos 8 e 9 do livro “O elogio da palavra”, Philippe Breton apresenta uma contextualização sobre o advento de uma nova relação do ser humano com a palavra a partir da revolução democrática grega e analisa as influências desse processo histórico nas sociedades posteriores, incluindo as sociedades ocidentais contemporâneas. No capítulo 8, “Minha palavra vale o mesmo que a sua: a simetria democrática” Breton inicialmente aborda a revolução pela democracia na Grécia, desencadeada por meio da dupla ruptura com a organização social primitiva e com a lembrança da civilização micênica do tipo palaciana. A “revolução das mentes”, entre os séculos VIII e VII a.  C., foi articulada pela representação do cosmos orientado pela igualdade e pela simetria, tendo como referência a lei de equilíbrio e de constante reciprocidade.

A partir deste movimento iniciado no sentido de desestruturar a hierarquia e as desigualdades na organização social, foi desencadeada uma nova ordem mundial, na qual a palavra passou a ter um lugar de excelência. Rompe-se também com o fatalismo predominante nas sociedades primitivas, desmistificando a ideia de destino, em proveito da liberdade por meio da palavra: “Não há mais uma lei transcendente, e sim discussões, decisões coletivas dos cidadãos” (BRETON, 2006, p. 150). Neste contexto, o homem ideal passou a ser aquele que utiliza a palavra com propriedade para discutir, argumentar e participar das decisões tomadas no quadro geral, sendo que “[...] uma palavra equivale a outra, mas na qual nenhuma palavra equivale à palavra coletiva” (BRETON, 2006, p. 151). Com isso, o homem passa a ser visto como um ser distinto dos demais seres vivos e objetos inanimados.

Hannah Arendt (1961 apud BRETON, 2006, p.152) entende a democracia como sendo “um espaço de aparência do qual ela é apenas a institucionalização”. Assim, a sociedade democrática se caracteriza pela palavra e ação conjunta dos homens, que precedem a constituição formal do domínio público e das formas de governo. Com o advento da democracia, evidencia-se também a retórica, a arte de convencer e foi iniciada uma reflexão específica e sistemática sobre a palavra. Contudo, havia a preocupação de que a retórica poderia ser usada como instrumento de poder pela sua capacidade de manipular a palavra. Surge assim um impasse a partir de dois pontos centrais: o primeiro é que, em se tratando de uma sociedade democrática, a prática da retórica somente tem sentido se produzir concretamente um vínculo social igualitário e, segundo, os valores existentes em seu âmago devem ser difundidos sob a forma de um ideal para toda a sociedade, pois são antagônicos à ideia de dominação.

A partir disso, Breton (2006, p. 153) afirma que a retórica “é uma seleção, de acordo com as possibilidades que ela oferece, daquilo que pode constituir um novo uso da palavra, igualitário, pacificador, desenvolvedor para a pessoa no sentido de lhe oferecer os meios para aparecer diante dos outros como pessoa”. Por tratar-se de um igualizador da palavra, a retórica tem uma função essencial na democracia. Ele faz referência a Aristóteles, que inicia a sua Retórica propondo que seus interlocutores refletissem sobre o que é possível fazer e o que não se deve fazer com a palavra. Para Barthes (1970 apud BRETON, 2006, p. 153) a retórica “também é uma moral, uma moralização da palavra, que implica certas renúncias [...] a retórica é uma metalinguagem que toma a palavra como objeto”.

Com a ruptura democrática, segundo Breton (2006, p. 156) a palavra adquiriu “um novo estatuto”, pois não mais se limitava ao “exercício de um poder particular”. Com isso, passou-se a diferenciar o seu uso como opinião da sua utilização para descrever algo. Naquele contexto, os sofistas, que pretendiam ter um saber sobre a palavra, passaram a fazer suas observações. A sociedade grega escravagista não é o ideal do ponto de vista das desigualdades, mas abre espaço para o exercício da igualdade. A democracia grega não suportava a desigualdade diante da palavra, inventando uma espécie de ensino da palavra. Na retórica, são ensinadas técnicas de memória artificial para que as pessoas fossem postas no mesmo nível. Ocorre uma nova relação com a palavra por meio do aperfeiçoamento da escrita alfabética representada pela notação completa dos sons. Mas a retórica é inicialmente uma reflexão sobre a palavra oral e somente após vários séculos, com Quintiliano, ela passará a ser empreendida na palavra escrita. Após destacaram-se os estudos de Roland Barthes, com grande influência na cultura ocidental e Foucault, sendo que a partir do século XVII o discurso passa a ser objeto da linguagem. Enquanto a linguística se ocupa da parte nobre da língua, esta “reviravolta retórica implica um novo olhar sobre a palavra e sua articulação com os meios de comunicação, entre os quais as línguas orais” (BRETON, 2006, p. 157).

A partir deste contexto, Breton (2006) discute uma tripla ruptura para a compreensão do novo estatuto da palavra. Nesta perspectiva, o autor propõe uma análise de uma relação triangular, cuja base é a democracia e cujos lados são formados pela nova relação com a violência e pelo novo lugar assumido pelo indivíduo. A ruptura democrática desencadeou a renúncia aos métodos tradicionais de tomada de decisão e aos métodos tirânicos próprios do sistema palaciano. Porém, os princípios da retórica foram redescobertos em períodos históricos muito tempo após o período grego, nos quais o regime não era democrático. Norbert Elias (apud Breton, 2006) identificou o processo de pacificação dos costumes no regime monárquico francês. A partir do pressuposto de que, por meio da retórica foi redescoberta uma prática concreta da democracia, é importante analisar como este vínculo se manifesta entre a violência e a palavra em um quadro não democrático. Também é relevante estudar os vínculos entre o desenvolvimento do individualismo nas sociedades modernas e contemporâneas.

No capítulo 9 - “Da violência à moderação: a promessa do processo civilizador”, Breton (2006, p. 161) propõe a ideia de que o caminho seguido pela palavra tem sido “uma alternativa concreta à violência”, considerando a sua trajetória no processo de hominização e depois nas grandes transformações culturais e sociais. A violência civil e a das guerras, mesmo se for considerado o decréscimo de vítimas em conflitos armados, são processos característicos tanto nas sociedades primitivas quanto nas nossas e essa é uma das grandes preocupações humanas há muito tempo.

Em cada contexto histórico, cada sociedade dispõe de um sistema de normas que enquadram o uso da violência, em busca “do ideal de uma sociedade em seja mais fácil viver”. “[...] Essas normas são variáveis e evoluíram no sentido de uma intolerância cada vez maior à violência” (BRETON 2006, p. 162). Determinadas sociedades procuram mudar as normativas sobre o nível de violência aceitável, como é o caso dos redatores do Antigo Testamento, as leis de Moisés, dentre as quais se inclui “Não prestarás falso testemunho”, pois a mentira seria uma palavra violenta. São normas de vida em sociedade e imperativos morais que visam amenizar um jogo considerado muito violento. Contudo, por si só não são suficientes para romper o ciclo de violência, sendo necessárias mudanças sociais para instituir normas restritivas e aceitas pela maioria. Foi com este propósito que os antigos gregos estabeleceram uma sociedade democrática, articulando-se em torno de uma nova relação com a palavra: do estatuto da palavra do poder a um poder compartilhado.

A busca pelo fim da violência, segundo Jacqueline de Romilly (apud BRETON, 2006, p. 165) “se manifestou em dois momentos sucessivos: a descoberta da justiça e a descoberta da moderação”. Foi assim que se deu a institucionalização do tribunal na nova justiça grega, com um substituto possível à vingança e à guerra. A nova justiça ligava-se ao processo de difração da palavra no qual a opinião se apoia no fato (objetivação da palavra). No mundo grego, tomar a palavra, passou a ser um dever cívico. Com isso, há um princípio de pacificação nas relações sociais por meio da palavra para interromper o autoritarismo, trazendo, de modo matriarcal, o instituto da palavra do qual somos herdeiros, pois “a palavra moderna é tomada em uma matriz justiciária” (BRETON 2006, p. 166).

Após o Império Romano e a Idade Média Ocidental terem inserido novamente a violência arcaica como questão social, diante das novas exigências de pacificação, o ideal pacificador grego por meio da palavra é redescoberto, em certa medida, pelos humanistas do Renascimento. Essa vontade nova e imperiosa de civilidade manifestada em certos meios emergiu diante do cenário de violência marcado por maus-tratos, torturas, brigas e guerras, cenário esse ainda observado em vastas regiões do mundo.   

De acordo com Elias (apud BRETON, 2006), a partir das mudanças sociais e culturais emerge um novo homem, que busca renunciar à agressão, comportar-se com pudor, aceitar a separação em relação aos outros, enfim, colocar suas emoções em palavras. Breton entende que, com isso, amplia-se o espaço da tomada da palavra, sua importância social e a própria linguagem se civiliza e se pacifica. Há um progresso da criminalização, ainda que lento, dos comportamentos violentos tendo, como indica Muchembled (apud BRETON, 2006), a justiça como produtora do vínculo social.

No processo civilizador herdado por várias sociedades, dentre as quais a maior parte dos países ocidentais, há uma ruptura em relação às normas antigas de violência. A objetivação das emoções graças à palavra passa a ser um espaço de aparência com poder atualizado, implicando uma transformação progressiva de certos costumes, enquadrando a violência em normas sociais precisas. Tais normas implicam o deslocamento da violência à civilização, no qual as regras da retórica e do bem viver são adaptadas às circunstâncias. Os recursos da argumentação são mobilizados, sendo que para atingir a verdadeira natureza humana, é preciso também escutar o outro, o que remete ao ideal de simetria da revolução democrática grega no qual o poder da palavra tende a substituir a palavra do poder. A desigualdade é vista como fonte de violência social e a civilidade, com base na palavra, tem a força de perturbar essas estruturas não-igualitárias.

Essa evolução caminha juntamente com uma transformação interna do exercício da palavra chegando ao despertar da retórica na nova civilidade, no qual são retomadas e desenvolvidas ao menos duas formas: a argumentativa e a informativa. A argumentação adquire grande importância na organização de debates que se caracterizam pela mistura de cerimônia e conversação, que seguem um rígido protocolo. Contudo, segundo Betron (2006, p. 178) esse ideal se concretizou “sob o duplo efeito da progressão das normas sociais que enquadram a violência e da criminalização bem-sucedida da violência civil [...] essa ruptura talvez não se tenha dado em profundidade”. A um menor relaxamento das leis, tem-se o risco de retornar a um estágio anterior. Ainda assim, o processo de pacificação dos costumes serve de referência sobre como a violência pode recuar, principalmente a partir de um novo uso da palavra. Neste sentido, a ideia defendida pelo autor é de que a civilidade e a polidez são “a matriz do processo de objetivação que é essencial ao recuo da violência”. Estes estudos adquirem relevância não somente para uma melhor compreensão dos processos históricos que desencadearam a busca pela democracia e do papel significativo que a palavra tem nas relações sociais, como também para a análise sobre como se articulam estas relações nas sociedades contemporâneas.

 

Observações:

: Democracia. Palavra. Civilidade.

 

O ESQUECIMENTO IMPOSSÍVEL -RESENHA CRÍTICA

O ESQUECIMENTO IMPOSSÍVEL -RESENHA CRÍTICA
Autores da Resenha:
Ian Pogan
Referência do Texto:
VATTIMO, Gianni. O esquecimento impossível. In. YERUSHALMI, Y. et. al. Usos do Esquecimento: Conferências proferidas no colóquio de Royaumont. Campinas: Ed. Unicamp. 2017, p.99-115
Desenvolvimento do Texto:
As discussões quanto ao esquecimento talhado no devir de um século, revela profundamente sobre o legado do ser humano, de suas ideias e traumas. Vattimo, assim como nós, tem o corpo marcado pela impossibilidade do esquecimento. Esta premissa tem significativa espessura histórica, Gianni vale-se de Nietzsche e Heidegger[1] neste debate, e apresenta como esquecimento em certa medida foi e é um sintoma de como a humanidade trata de sua condição.
 A segunda metade do Século XIX foi o período áureo da Era Moderna, a consolidação do conhecimento científico que vinha superando em poucos anos, desafios que pareciam eternos, invenções de toda ordem…  o futuro aproximava-se cada vez mais do presente, e concomitante diminuía as distâncias com o passado[2]. A história teve papel-chave nisso, desde a promoção e legitimação simbólica dos emergentes Estados-Nação, o surgimento de inúmeras instituições de caráter memorialista e histórico, como museus, arquivos e mesmo a estruturação da história como Ciência acadêmica[3], não a toa que o Século XIX foi chamado de: “Século da História”[4]. Com o passado tão evidente, o futuro e sua sorte estariam comprometidos, assim como a possibilidade do “novo” do “original” aparecer, essa era a preocupação de Nietzsche. Em seu texto[5] defendia que o passado deveria somente ser evocado às necessidades práticas, não como elemento mercadológico (valendo-se como atração) ou demagógico (de uso das elites) e docilizador das massas. Aqui, o esquecimento teria uma função de prover o rompimento dessa ordem, buscando a superação do Homem[i].
Influenciado por Nietzsche, Heidegger cunha um outro olhar sobre o esquecimento. Segundo ele, seria inevitável e intrínseco do ser o ato de rememorar. Deste modo, poderia a partir deste haver um processo de descoberta e consigo de uma superação. Em certa medida, esses dois filósofos (Nietzsche e Heidegger) são o sintoma e anúncio do fim (melancólico) do mundo moderno, que veio consolidar-se na primeira metade do século XX, com inúmeros eventos traumáticos tendo destaque, as duas guerras mundiais e os regimes totalitários, que postularam definitivamente não só a impossibilidade do esquecimento, mas o perigo em que a Humanidade corria ao esquecer o passado[ii]. As forças eternizantes da qual Nietzsche discorria como um caminho para a superação do tempo histórico, deu-se na prática por outro campo: a arte do pós-guerra - que encabeçou superação de paradigmas propostos pelos dois filósofos. Em verdade, a combinação de arte, mercado e mídia, gerou rompimento definitivo com o mundo Moderno. Baseadas nas diversas apropriações desses diferentes campos, a arte contemporânea não mais orbitava no campo estético, mas sim no campo da linguagem. Sem mais reportar sua condição à uma perspectiva teológica e utópica e mesmo da necessidade de vanguardas intelectuais, que vinham suprir o esgotamento de movimentos anteriores. A arte passava a ser entendida como elemento pluralistas. Utopias passaram a serem substituídas por heterotopias, ou seja sem mais a busca de um único objetivo, uniforme, único, mas da possibilidade de inúmeros espaços e objetivos.  Definia-se um mundo não mais de essências ou de forças metafísicas, mas um mundo de representações. As apropriações do passado tornaram-se múltiplas e feitas por diferentes sujeitos e de inúmeras formas, criando um novo mundo de possibilidades. Talvez algo em que Heidegger projetava como sua ideia de “descoberta”. O esquecimento é impossível na medida em que o passado ele está cada vez mais próximo do presente[6], assim, a questão não é mais quanto ao esquecimento, mas das complexidades do lembrar e as perdas nesse devir.

Referências:
BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas, Vol. 1. Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura.São Paulo: Brasiliense, 1987, p. 222-232

BOURDÉ Guy; Hervé MARTIN. As Escolas Históricas. Lisboa: Publicações Europa-América. 1983

CONCEIÇÃO, Lívia Beatriz da. Em tempos de ‘fermentação nascente’: uma leitura dos projetos para a instrução pública primária do personagem François Guizot (1832-1836). Rev. Bras.. Hist. Educ. vol.20  Maringá  2020. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2238-00942020000100205  > Acesso em: 23/06/2020

HARTOG, François. Tempo, História e a Escrita da história: A ordem do tempo. Revista de História. n.148, 2003, p.9-34

KOSELLECK, Reinhart. Estratos do tempo. Estudos sobre História. Rio de Janeiro: Contraponto, 2014

NIETZSCHE, Friedrich. Sobre a utilidade e a desvantagem da história para a vida. Tradução de André Luís Mota Itaparica. São Paulo: Hedra, 2017


Observações:
[1]Sintomático a operação da qual Vattimo discorre no texto com base no pensamento desses dois filósofos. Ambos foram apropriados ou tiveram relação explícita em eventos traumáticos (em especial Heidegger e sua relação com o Regime Nazista na Alemanha). N.A.
2 Ver KOSELLECK. 2014 p.121-205
3 Ver BOURDÉ, MARTIN. 1983, p.82-118
4 Como exemplo da importância da história para a legitimação dos Estados Modernos, François Guizot quando ministro na França instituiu a história como ensino obrigatório nacional - “Feita a França, agora seria necessário fazer os franceses” (CONCEIÇÃO. 2020)
5NIETZSCHE.  2017
6 Übermensch, do alemão, conceito cunhado por Nietzsche. N.A.
7 Aqui faz-se necessário lembrar das teses sobre História de Walter Benjamin, em especial a 9a Tese, quando ele discorre: “Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso. (BENJAMIN. 1987, p.226)
8 Recorro ao historiador francês François Hartog quanto ao presentismo e aos processo de aceleração do tempo histórico. (HARTOG. 2003)

RESENHA CRÍTICA DE CORPO E COMUNICAÇÃO: SINTOMA DA CULTURA, DE MARIA LUCIA SANTAELLA BRAGA; POR BRUNA LORRENZZETTI



RESENHA CRÍTICA
Autores da Resenha:
Bruna Lorrenzzetti, mestranda em Patrimônio Cultural e Sociedade pela UNIVILLE
Referência do Texto:
SANTAELLA, Lucia. Corpo e comunicação: sintoma da cultura. São Paulo: Paulus, 2004.
Palavras-chave (3):
Comunicação e cultura, corpo humano, corpo humano na arte.
Desenvolvimento do Texto:

        “O corpo está em todos os lugares. Comentado, transfigurado, pesquisado, dissecado na filosofia, no pensamento feminista, nos estudos culturais, nas ciências naturais e sociais, nas artes e literatura.” (SANTAELLA, 2004 p. 133). A pesquisadora e professora Maria Lucia Santaella Braga coloca em pauta no capítulo 10, O corpo como Sintoma da Cultura, um cenário marcado por questões relativas ao corpo focando na sua onipresença. Para a autora a onipresença do corpo se dá em decorrência às novas formações culturais na era digital da comunicação, decorrentes das inquietações provocadas pela tecnologia e pela simbiose corpo e máquina.
            A explicação vinda de outro texto de Santaella de 2003, recobre o campo da arte, não indicando razão para a onipresença do corpo nas demais esferas culturais. Na sequência contextualiza o século XIX informando que os sintomas que marcavam o corpo, de forma gradual foram crescendo até tornar o próprio corpo um sintoma da cultura. A autora propõe que a centralidade do corpo, especificamente nas artes, deve-se ao fato de que, entre muitos fatores, sob efeito de suas extensões científico-tecnológicas, o corpo humano deva estar passando por uma mutação, cujos efeitos ainda não somos capazes de discernir. Acrescenta que artistas acolhem a tarefa de estarem anunciando essa nova antropomorfia que se passa na esfera humana, utilizando o discurso psicanalítico de Freud e Lacan.
        O que é sintoma, se apresenta como primeiro subtítulo do capítulo, nele Santaella traz o sintoma no contexto psicanalítico como um “mal estar” que se impõe a nós e nos questiona. Para Freud de acordo com Santaella, antes de um estágio doentio apresentam-se sinais do inconsciente, atos falhos, sonhos, chistes (formas de exprimir a realidade), recordações encobridoras. Através do inconsciente faz-se ouvir, revelação, em decorrência, o sintoma é retorno do recalcado. Por sua vez Lacan dá sentido a palavra sintoma através de C.S. Pierce, sendo “aquilo que significa algo para alguém”. Freud vê o sintoma como signo, Lacan, como um significante, que age e produz efeitos de significação, saber inconsciente que sabe do sujeito, sem que o sujeito saiba dele. A partir de 1982, Lacan pensa o sintoma a partir do gozo. Freud não vê o gozo como prazer, mas como uma paradoxal espécie de prazer na dor. Santaella finaliza a primeira a primeira parte com o questionamento: em que medida estamos autorizando esse conceito (clínico em primeira instância), para o campo da cultura?
          No segundo subcapítulo, Sintomas da Cultura, estruturado nos conceitos da psicanálise, avalia os sintomas da cultura a partir do “mal estar” freudiano, pelo desconforto produzido pelas renúncias pulsionais que o indivíduo é levado a realizar em prol do sistema de interdições que constitui a civilização. Relaciona na sequência a teoria da condição humana de Lacan que leva o sujeito a obter gozo pela renúncia do próprio gozo. Assim, o sintoma é o que se insurge contra a exigência civilizatória do recalque. Nessa perspectiva a cultura não é apenas a realização de desejos. De acordo com Leite (2000) citada por Santaella, constata-se a emergência de novas formas de o sujeito fugir do mal estar, intensificados pelo poder das mídias, surgem novos dispositivos outros modelos sugeridos aos sujeitos de evitar a angústia. Consumidores tornam-se acumuladores de sensações. Uma vez que a sensação adere ao corpo, trata-se de um novo modo de gozo que encontra seu alvo no corpo e o próprio corpo torna-se mercadoria. Surgem modos contemporâneos de gozo, piercings, tatuagens como também flagelos ao corpo, distúrbios alimentares, remodelagens de corpo, exaltação, exibicionismo. O corpo se tornou sintoma da cultura. As afirmações de Santaella são identificáveis frequentemente no universo midiático e contemporâneo.
           Na sequência aborda O Corpo na psicanálise, iniciando com o questionamento, o que é corpo? O corpo, físico, fisiológico, o real do corpo, que compartilha, que sofre mudanças, sente dor, sobrevive, adoece, envelhece e morre. Na psicanálise o corpo é pulsional, imaginário, simbólico. Para Freud o corpo apresenta-se por intermédio do Eu, e este não nasce pronto, se desenvolve progressivamente. Um Eu que está ligado à imagem do corpo, que Freud associou a muitas teorias, sendo uma na qual o Eu é fundado na pulsão, auto conservação, lugar determinante no recalque, onde o corpo, primeiro é um corpo olhado, e que se modifica pela identificação. Santaella apresenta Lacan sistematizador que apoiou sua teoria na categorização da realidade psíquica nos registros Imaginário, Simbólico e Real.
      O capítulo desenvolve a partir de três subtemas: - O corpo Imaginário, que segue o pensamento de Lacan em que o Eu está ligado a imagem do próprio corpo. Apresenta essa relação desde os 6 meses de idade de uma criança. Aponta o júbilo de se conhecer ao espelho ocultado por um logro, fonte de alienação que perseguirá o ser humano para sempre. Esse Eu é formado a partir do Outro, que identificamos pela primeira vez no espelho, um Outro rival, imagem narcísica, condição para aparecimento do desejo, engate dos significantes do desejo do Outro. - O corpo Simbólico é apresentado como corpo aparelhado pela linguagem, condição de um corte entre sujeito e objeto, transformando objeto em uma abstração, onde o significante é um poder que mortifica. - O corpo Real, descrito como pulsional, tendo como referência Freud, sendo que nenhum objeto poderá trazer satisfação a esse corpo, pois a natureza da pulsão é dar intermináveis voltas em círculos, em busca de meta inalcançável. O corpo real avança para o campo psíquico, além do físico e se vê desejo, no prazer, satisfação e felicidade. A autora destaca que Lacan apresenta a relação do gozo como uma origem sempre sexual, não especificamente genital. O Imaginário, Simbólico e Real do corpo sofre uma incompletude que a autora relaciona com o que o capitalismo oferece no sentido de tentar preencher essa completude impossível.
     Corpo como Sintoma, o último subtítulo propõe reflexões sobre três tipos de gozo ditos por Lacan: gozo fálico (energia dissipada, sendo o falo limitador do gozo que sai e do que fica retido no inconsciente); mais gozar (parcela de gozo que fica retida no interior do sistema psíquico, cuja saída é proibida pelo falo, excedente residual que aumenta tensão e se encontra nos orifícios do corpo, explicando o porquê do início do desejo nascer das zonas erógenas) e gozo do Outro (ponto absoluto e impossível da liberação total do gozo). Santaella reforça que na visão psicanalítica o gozo não se explica como prazer sexual e sinaliza um ponto em comum entre os três gozos e os sintomas do corpo imaginário, simbólico e real. Finalizando o texto, Santaella cita Pommier (2002) que descreve a humanidade buscando diferentes receitas para cozinhar sua angústia, receitas ideais para cada época. Enfatiza que as marcas do corpo significavam alianças com espíritos e a flagelação no Período Medieval causava efeito interior de purificação, hoje são signos que pertencem ao regime equivalente a seu valor de troca.
Observações:
A obra permite discussões interdisciplinares entre áreas da comunicação, psicanálise, filosofia.


CONCURSO "UM PORTUGUÊS EM MINHA VIDA" - FEIRA DO LIVRO JOINVILLE - 2019


No dia 08 de junho de 2019, ocorreu a cerimônia de premiação do concurso "Um(a) português(a) na minha vida". Este, fez parte da programação da Feira do Livro 2019 - Joinville e contou com a participação de vários professores das redes estadual e municipal. Segue resultado: 





A FEIRA DO LIVRO DE JOINVILLE TEM A HONRA DE COMUNICAR OS VENCEDORES DO CONCURSO “UM(A) PORTUGUÊS(A) NA MINHA VIDA”

Cerimônia de premiação -  dia 08/06 - sábado, às 10h, no Expocentro Edmundo Doubrawa.

1º Lugar –Laura Meireles Gomes Moura – Escola Municipal Profª Karin Barkemeyer
2º Lugar – Terezinha Vanderleia do Nascimento da Cruz – Caic Prof.Desembargador Francisco José Rodrigues de Oliveira
3º Lugar – Angela Maria Roman Santana – EEB Profª Antonia  Alpaídes Cardoso dos Santos

3º Lugar – Thiago Prado de Lima – EEB Dr. Jorge Lacerda

O texto da autora Laura Meireles Gomes Moura, professora da Escola Municipal Profª Karin Barkemeyer, recebeu o prêmio de primeiro lugar. Laura é mestre em Patrimônio Cultural e Sociedade pela Universidade da Região de Joinville (UNIVILLE) - 2014.

Nossas congratulações e, abaixo, fotos do evento, além do acesso ao texto premiado. 
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CONCURSO “UM PORTUGUÊS NA MINHA VIDA”
A escritura aqui se inicia nos anos 60, onde me vejo sentada à beira da mesa de fórmica vermelha, pontilhada de dourado, que como uma purpurina fossilizada iluminava, como peça central, todo o cenário da cozinha simples de uma casa igualmente humilde, porém, lugar preferido e, por que não dizer, o único mais confortável, onde fazíamos as tarefas, as refeições e as conversas – pequeno universo repleto de sensações; do cheiro da comida, do arroz doce, da canela que ao salpicá-lo, perfumava a figura bonita de meu pai que lá escrevia. Ele gostava de sentar-se à mesa, pegar o fino e delicado papel de cartas, a caneta tinteiro e escrever. Talvez um ato que o humanizava diante de tanto trabalho duro.
Escrevia longas e saudosas palavras nas cartas que me soavam como poemas e eu que nem lia e escrevia, entendia esse código decifrado pelo sentido das saudades ecoadas em cada trecho.
Ficávamos ao redor de sua escrita: minha mãe, meus irmãos e eu e, como ouvintes de uma melodia, esperávamos sua fala que repetia quase sempre os mesmos inícios e finais: “Que esta vos encontre na alegria de todos reunidos a gozar de saúde e dias de fartura [...]. Aqui me despeço à espera de que notícias boas atravessem o mar e tragam de volta satisfeitos os desejos que lhes enviamos. Saudades...”.
Na experiência dessas palavras, sentia a saudades de meu pai, de Portugal e admirava o desenrolar de cartas cujas letras bordadas, seus “as”, “emes” e “enes” me faziam sonhar e imaginar a travessia de um oceano de linhas até a chegada dessas palavras na sua pequena aldeia. Suas casas caiadas, as faluas dos rios Tejo e Douro que nos fados tristes que minha mãe cantava emolduravam a chegada que pareciam vagar nesses barcos.
Eu via as palavras das cartas nos barcos construídos em minha imaginação e sua entrega recebida por várias mãos calejadas da lavoura e dos afazeres. 2 Era, assim, a imaginação povoada pelas palavras que ganhavam forma e cheiros; quando meu pai e minha mãe falavam das vindimas, das festas do milho rei, das broas de milho assadas no forno de barro.
Era como se sentisse esses perfumes e a alegria que ali pairava.
Foram todas essas narrativas densas que legitimaram esse amor a outras terras, que distante, me emprestaram várias vozes a permear minha vida e a pensar no meu pai como o primeiro autor que conhecera.
Nos devaneios da infância me encontrava livre, repleta de riquezas de um pai que julgava escritor, de uma mãe que fados cantava e de uma vida com os irmãos a pensar ser poderosa e endinheirada. Pensava ser rica e que tudo podia! Não obstante, a vida tratou de me mostrar os enganos que cometera ou pensara cometer, a começar a percepção que trazia de mundo, embeber-se e diluir-se diante da paisagem de outras supostas verdades: “a vida era dura e não se podia sonhar muito”.
Anos mais tarde, foi o encontro com as palavras de Saramago que me trouxeram a certeza de que visitá-las foi uma forma de revistar a mim mesma. Talvez resida aí, o encanto das palavras e das histórias, onde visitamos épocas e lugares tão distantes e compreendemos algo da essência humana que da memória do escritor, transcende para a nossa.
Por Saramago, revisitei a minha própria história.
Percebia o pai com o olhar do entendimento que julgava ter: um homem sonhador que possuía o esteio de minha mãe a ofertar carne e osso a seus olhos para o mundo. Ela, suporte e empenho à vida fora a luz de nossos caminhos, nas incertezas de tantos sonhos inacabados. Não percebi assim as fragilidades na vida cotidiana, enfrentadas por meu pai nem a fortaleza disfarçada pela doçura de minha mãe. Estas passaram por mim como se uma venda nos olhos eu tivesse, ou não as tivesse: olhos abertos sem enxergar.
As obras de Saramago, em especial, “Ensaio sobre a cegueira”, inauguraram um novo olhar que lancei sobre a vida. Foi como se as palavras fossem alguém que ao ajudar o cego e o conduzir à casa segura, permitissem olhar-se no espelho e conhecer um pouco além do limite que a visão permite sobre a condição humana.
Saramago, em sua obra, despertou em mim a ideia de que a cegueira pode ser importante, pois podemos nos conhecer internamente, voltar os olhos para dentro, apontando essa necessidade do olhar para si e reconhecer nossas fragilidades.
Foi possível retirar as ataduras que emblemavam as almas dos afetos e pouco a pouco enxergá-las melhor, às vezes com dor, mágoa, mas eram mais limpas dentro da densidão da vida. E estranhamente a cegueira apontava para uma ótica nova e clara de mundo.
Fora nas linhas desse livro que refleti sobre a interação do “eu” com o exterior e as buscas e descobertas inauguraram e banharam de luz a vida comum e banalizada, elevando-a ao patamar de importância, também lugar de interiores, denúncias ao poder que gerido por “cegos” é tecido com fragilidades e nos condena.
Diante do Ensaio, a oferta de poder ver tudo, também está presente como fio condutor de uma dor irreparável: a de saber que a clareza da realidade pode auxiliar a superar as dores e as fragilidades daqueles que não podem “ver”, mas fazer ver no outro algo de bom dentro de si.
Quais olhos seriam importantes para me fazer prosseguir?
Escolhi o olhar que o livro suscitou em mim, ora plural repleto de tanto outros que recolhi como um espelho por aí, ora multifacetado pulverizado em fragmentos coloridos como um caleidoscópio que transforma e recria imagens sem a pretensão de legitimá-las ou explica-las, pois estão ali geridas pela mão que o gira e reproduz.
Saramago costumava dizer que se constituiu escritor a partir da percepção de que haviam leitores para seus escritos. Foram os leitores que o fizeram escritor.
 Posso dizer que a constituição desse novo olhar o mundo, que o Ensaio trouxe, revirou como enxada afiada, o terreno que havia pisado por toda a vida, e quer no convívio com a infância das crianças na escola quer nos trabalhos que realizei principalmente no Abrigo, o anonimato que o Ensaio propõe as personagens reconheço-o também nesses lugares onde a invisibilidade paira e não os vemos. Estão ali a espera de nosso olhar e não os encontramos.
Nessa experiência de encontros e de desvendar o real, são evocados os caprichos das palavras que reverberam em imagens de dor e sofrimento, alegrias e confortos, ofertando a intensidade do sentir de cada um, colocando em baila a memória.
Dessa forma, o Ensaio fundou em mim os propósitos de desnude das aparências e do outro para conferir encontros.
As narrativas no espaço do Abrigo evidenciaram faltas de amor e de fortalecimento de laços sociais e que ignorados e substituídos por engrenagens, que supõe estruturas físicas para suportá-las, deixam de visualizar a tensão que os discursos de vitimação e confronto ali se deslocam.
 Assim, os acolhidos simbolizam um ciclo que me fez reparar em mim mesma e como no livro de Saramago refletir sobre minhas próprias cegueiras em relação ao outro e a mim mesma. O Ensaio trouxe o reparar em minha imagem, rever atitudes, medos, conceitos, valores, inaugurando pontes para transpor abismos da significação e sustentar, pela palavra do texto de Saramago, o germe da possibilidade da reinvenção vinda pela palavra.
Que o desnude seja assim, feito para ofertar o melhor dos encontros: a travessia a procura de nós mesmos e capturar os projetos de um futuro.
Desde a compreensão de mundo, iniciada na infância, no núcleo da família, as relações que teci e que continuo a colher, fios para essa tessitura, é que me constituíram. A obra de Saramago, “Ensaio sobre a cegueira” despertou-me, não somente o olhar, mas as observações 5 sobre a responsabilidade daqueles que ainda podem ver e o quanto de nós mesmos reside no olhar desnudo do outro.
No olhar que não concordamos, no olhar da indiferença, no olhar da dor, pois estamos lá na íris de quem nos vê para reafirmar que é preciso olhar para seguir.
Os espaços desse livro, após já tantas leituras, se constituíram em mim. Vez ou outra percebo na vida algo dele ou a essência dele; as ruas, os semáforos, o ambiente urbano e os guetos como o Manicômio que, pelo avanço do “mal branco” dessa cegueira, é escolhido pelas autoridades no Ensaio, como forma de reclusão e não de tratamento.
Volto a imagem ao Abrigo, às crianças de minha convivência e me dei conta de quantas vezes encontrei ali os labirintos que, no livro, adentram ao espaço, ao Manicômio e que igualmente resguardam as misérias morais e físicas de vidas invisíveis.
O Ensaio sobre a cegueira me remeteu a esses espaços internos de mim mesma, que também, como nos labirintos, pareço procurar o sentido de estar no mundo, de uma nova ordem, de buscas de sensibilização.
Há, portanto, que se desfazer do emaranhado de fios que o labirinto tece, dia a dia, e nos emudece, diante de tantas mazelas, para podermos ver e desfazer nós.
Que a luz preencha nosso olhar e que ele se atente às relações que se diluem e se esgotam tornando o tempo escasso como nas palavras de Saramago “estar a se acabar”, num mundo que me parece às avessas, inaugurado pelas cegueiras.
Que os excessos da racionalidade não permitam mais cegueiras e que possam as preencher de luz e de emoção os dias que trarão a salvação de nossas identidades humanas, ateando a indiferença e a incapacidade de sentir pelo outro em labirintos selados infinitamente pelo tempo.
Que as transformações do olhar estejam a brotar e a anunciar grandes e verdadeiros encontros
Autora: Laura Meireles Gomes Moura






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