Resenha Crítica: "A Casa e o universo", de Bachelard




Resenha Crítica
Autor da Resenha: 
Mara Falcão Palhares Barbosa
Referência do Texto:
BACHELARD, Gaston, A casa e o universo, In: Os Pensadores, Poética do espaço. São Paulo: Abril Cultural, 1978.
Palavras-chaves (2):
Memória; espaço habitado; arquivo; casa.
Desenvolvimento do Texto:


As imagens poéticas na construção da casa

Filosofia e poesia se encontram e se misturam nessa obra que é um deleite para o sonhador – não somente o de casas.

Gaston Bachelard, em seu livro “A Poética do Espaço” (1978), trata da espiritualidade da obra de arte. Delineia os caminhos que o artista percorre para chegar à materialização da criação artística. Mostra-nos, ao longo de seus dez capítulos, como da filosofia da poesia, surgem imagens poéticas. E são essas imagens, repercutidas no poeta, vindas da alma e do coração, influenciando seu modo de ser, que acabam desvelando o ser humano, seus medos e segredos.

Para o autor, alma, espírito e devaneio aliam-se na construção de imagens poéticas; daí a subjetividade destas. São elas que sugerem uma expressão criadora do próprio ser.

O olhar de Bachelard, acrescido de outros olhares de autores, estende-se por todo o livro, trazendo-nos a imagem poética. Trata, nessa obra, a imaginação e o devaneio como um potencial do ser humano. Aponta-nos, ainda, com que intimidade eles nos afetam. O filósofo quer nos mostrar que uma casa pode ser analisada não somente em seu espaço geométrico, em suas constituições físicas, mas também por seus valores oníricos, através de imagens poéticas que constituem o espaço poético.

Na introdução de sua Poética do Espaço, o autor nos diz que, se um filósofo “quiser estudar os problemas estudados pela imaginação poética, (...) deve esquecer seu saber, romper com todos hábitos de pesquisas filosóficas”. E acrescenta: “o passado de cultura não conta”. Sendo assim, não adiantaria todo um trabalho na tentativa de “interligar e construir pensamentos”. Observa, ainda, que a imagem poética “não está submetida a um impulso” e também “não é um eco do passado”; ela “tem um ser próprio, um dinamismo próprio”. (p.183)

Capítulo II

A casa e o universo


O autor inicia o segundo capítulo com a proposta de “fazer uma leitura lenta de algumas casas e de alguns quartos “escritos” por grandes escritores”. (p.222)

Baudelaire é o primeiro escritor a ser chamado. Para este, o valor da intimidade é sentido quando uma casa é atacada pelo inverno – que trará mais poesia à habitação, e esta tornará a fria estação ainda mais poética. A imagem da cabana branca, no fundo de um pequeno vale, sugere, segundo Bachelard, devaneios de repouso. Nesse “paraíso artificial” o “sonhador pede um inverno rude”. Pois assim seu ninho será mais quente, mais terno, mais amado. “Tudo se ativa quando as contradições se acumulam”. (p.223)

Somos convidados a entrar nesse centro de devaneio. E nele, Bachelard indica que coloquemos os nossos traços pessoais e seres do nosso passado.

Mostra-nos uma choupana perdida nos confins de um bosque no inverno que, para Baudelaire, seus efeitos seriam “extratos da felicidade do inverno”. (p.223)

Mas essa casa, como tantas outras encontradas na literatura, cercada por uma “atmosfera de entorpecimento”, não luta. É a estação mais fria – com a neve que vai aniquilar o mundo exterior. Nesse sentido, casa e universo se contrapõem; e este último é suprimido para o ser abrigado. É nessa dialética da casa e do universo que Bachelard nos chama a perceber a luta manifesta na resistência contra as forças da natureza. Porém, o sonhador da casa, diz o autor, sabe de tudo que a neve provoca lá fora e , ali, abrigado “experimenta um aumento de intensidade dos valores de intimidade” (p.224)

É o inverno, a mais velha das estações, que “põe tempo nas lembranças. Remete-nos a um passado distante”. (p.224)

Esse efeito do inverno, de sua hostilidade, de acordo com o autor, é bem evocado por Bachelin, com histórias vividas nas “casas cercadas de neve e de vento frio”, “histórias que meditam forças e signos”. (p.224)

Na sequência, traz-nos um exemplo encontrado em Rilke. Para este autor, seria na cidade, sobretudo, a tempestade mais ofensiva. Já no campo, menos hostil. Visão que, para Bachelard, é um paradoxo de comicidade. Traduz esse olhar de Rilke como “um “negativo” da casa, uma inversão da função de habitar” (p.225). Esse abrigado quer estar do lado de fora, apenas por uma pesquisa de devaneio. Não participa da resistência, pois acredita que a natureza, mesmo com toda sua fúria, saberá poupar a morada do homem.

Contrapondo-se a essa última casa, Bachelard descreve-nos a de Malicroix. Aquela que, corajosamente, impõe-se como um ser diante da tempestade. E, personificada, “vai-se tornando um verdadeiro ser de humanidade pura” (p.226). Apenas se defende das tempestades, sem ter jamais a responsabilidade de atacar. Chamada de “La Redousse”, a casa luta bravamente e, como uma loba, defende seu abrigado. Dessa forma, essa habitação, “de refúgio, fez-se reduto”, dando exemplo de coragem e resistência àquele que deve aprender a vencer o medo.

Para Gaston, esses “valores de proteção e resistência da casa são transformados em valores humanos” (p.227). É a casa que nos ajuda a dizer: “serei um habitante do mundo, apesar do mundo” (p.227).

Na rivalidade, entre casa e universo, homem e casa se unem em comunhão. A casa se transforma em valores humanos; a casa educa, a casa acolhe, a casa encoraja. Ela protege e abriga contra tempestades do céu. É ela “um instrumento para afrontarmos o cosmos”.

No romance de Henri Bosco, Malicroix, o psicólogo da imaginação, percebe que o cosmos forma o homem, remodela o homem. Ainda nesse livro, a despeito de ser a casa, em sua realidade primeira, visível e tangível, é possível ouvir “o passo de ferro do sonho”.

Bachelard propõe, nesse complexo de realidade e sonho, que examinemos “as casas do passado, as casas em que vamos reencontrar, em nossos devaneios, a intimidade do passado” (p.228)

Fala sobre as casas desenhadas, que também não deixam um sonhador indiferente por muito tempo. Ele próprio gostaria de morar em uma delas. E através da simplicidade da casa rústica, de madeira entalhada, seu devaneio habitava a casa essencial. Qual não foi sua surpresa encontrar traços desses devaneios ingênuos em suas leituras!

O filósofo continua, agora com as casas de estampas. Traz a “casa pobre” – dos poemas de André Lafon – que acolhe o leitor como a um hóspede. E se deleita com os desenhos de suas leituras. Quer morar numa dessas “estampas literárias”, numa dessas casas simples que despertam sua imaginação literária.

A casa de Georges Spyridaki é mencionada. É a casa em que suas paredes crescem, estendem-se segundo o desejo do escritor. É mais que geométrica. Ela respira. É célula. E também é mundo.

A habitação de René Cazalles é aquela onde nascem as tempestades, em que o sossego é extenuante. “Semelhante à do vento do mar, palpitante com suas gaivotas” (p.230). Em seus textos, “o universo vem habitar sua casa” (p.231).

Essas casas literárias de Cazalhes e de Spyridaki são “moradas de imensidão”.

Em Cazalles, a casa ganha a dialética imaginária. É possível respirar-se a lava, tornar-se o vento firme como uma viga... Ao traduzir essas características, Bachelard diz-se, como filósofo, preciso demais e confere ao poeta mais sugestividade.

Ainda em Cazalles, Bachelard diz que os espaços amados se libertam, transportam-se para outros planos diferentes dos sonhos e das lembranças.

Em oposição ao homem positivo, Gaton fala-nos do “sonhador de casas”, esse que vê casas em todo lugar. Ilustra com versos de Jean Laroche: “Essa peônia é uma casa vaga”, ou ainda “Todo cálice é morada” (p.233).

Nostálgico, traz as casas perdidas que para sempre vivem em nós. Então questiona: “Por que nos saciamos tão rápido com a felicidade de habitar a morada? Por que não fizemos durar as horar passageiras?” (p.233). E trazendo as palavras de Richaud, conclui: “Se mantivermos o sonho na memória, se superarmos a coleção das lembranças precisas, a casa perdida na noite dos tempos sai da escuridão, parte por parte” (p.234).

Sobre as lembranças de Willian Goyen, reflete: “O terreno em que o acaso semeou a planta humana não era nada. E desse fundo do nada crescem os valores humanos” (p.234).

Mais adiante pondera: “Se a casa é um valor vivo, é preciso que ela integre uma irrealidade. E preciso que todos os valores tremam” (p.235).

Na página seguinte, o autor traz a oposição entre a casa natal e casa sonhada – esta que pode ser um simples sonho do proprietário. A casa sonhada é a que vem satisfazer o orgulho e a razão. Quando terminada, traria pensamentos e não mais sonhos. Então, o sonhador de moradas deve estar alojado por toda parte, no entanto, sem se prender a lugar algum.

O autor fala-nos das casas solitárias encontradas no campo por Henry David Thoreau que vê nelas somente vantagens, nenhum inconveniente, o qual ainda clama: “Só peço olhos que vejam o que vocês possuem”(p.237).

Quando Bachelard traz a fala de George Sand –“ podem classificar os homens segundo queiram viver numa choupana ou num palácio”- reflete: “quem tem um palácio sonha com uma choupana, quem tem uma choupana sonha com um palácio”(p.238). Segundo Bachelard, essas “duas realidades extremas da choupana e do castelo(...) enquadram nossas necessidades de retiro e de expansão, de simplicidade e de magnificência”(p.239).

Mais adiante, o filósofo fala-nos dos grandes sonhadores que aprenderam a intimidade do mundo, meditando a casa.

Chama-nos a uma volta à realidade para os devaneios de governar a casa. Mas, como atribuir a esses afazeres domésticos uma atividade criadora? Segundo o autor, a nossa consciência é que rejuvenesce tudo e é maravilhoso podermos ser o autor do ato mecânico. As tarefas diárias da casa, trabalhadas por nossas mãos, aumentam a dignidade dos objetos assim acariciados. “A arrumadeira desperta os móveis adormecidos”(p.241). Esse encantamento é que reconstrói o mundo do sonhador.

No pensamento de Bachelard, a casa, mais ainda que a paisagem, é um estado de alma daqueles que a desenham e a retratam. O filósofo fala-nos da espontaneidade do desenho da casa feito por uma criança. As marcas da felicidade ou infelicidade da criança estarão estampadas nos traços da casa.

Resenha Crítica "A memória, a história, o esquecimento" de Paul Ricoeur




Resenha Crítica
Autor da Resenha: 
Paulo Santos da Silva
Referência do Texto:
RICOEUR,  Paul. A memória, a história, o esquecimento. tradução de Alain François [ et al.]. Campinas: Editora da Unicamp, 2007. p. 155 – 192.
Palavras-chaves (2):
Memória; espaço habitado; tempo histórico; testemunho; arquivo; prova documental.
Desenvolvimento do Texto:

O espaço habitado pelo testemunho e o arquivo ao alcance do historiador


Paul Ricoeur (1913 – 2005), no livro A memória, a história, o esquecimento, tradução de Alain François [ et al.] (Campinas: Editora da Unicamp, 2007), divide o capítulo denominado de“Fase Documental: a memória arquivada” (p. 155 – 192) em  cinco partes:  o espaço habitado; o tempo histórico; o testemunho; o arquivo e a prova documental. Sobre o espaço habitado, ele revela que na passagem da memória à historiografia, mudam de signo o destino do espaço, no qual se deslocam os protagonistas de uma história narrada e o tempo no qual os acontecimentos narrados se desenrolam (p 156), construindo-se, assim, em conjunto que o aqui e o lá do espaço vivido da percepção e da ação e o antes do tempo vivido da memória se reencontram enquadrados em um sistema de lugares e datas do qual é eliminada a referência ao aqui e ao agora absoluto da experiência viva (p. 156). Deste modo, para Ricoeur, as lembranças de ter morado em tal casa de tal cidade ou de ter viajado a tal parte do mundo são particularmente eloquentes e preciosas. Elas tecem ao mesmo tempo uma memória íntima e uma memória compartilhada entre pessoas próximas nessas lembranças tipos, o espaço corporal é de imediato vinculado ao espaço do ambiente, fragmento da terra habitável, com suas trilhas mais ou menos praticáveis, seus obstáculos variadamente transponíveis (p.157). Ele considera ainda, nessa primeira parte, que a ação entre o tempo “narrado” e o espaço “construído”, as analogias e as interferências abundam, já que o ato de configuração intervém de uma e de outra parte no ponto de ruptura e de sutura dos níveis de apreensão (p. 159). Sendo assim, o espaço é o meio de inscrição das oscilações mais lentas que a história conhece (p. 162).
No que se refere ao Tempo Histórico, a contribuição do calendário consiste em uma modalidade propriamente temporal de inscrição, a saber, um sistema de datas extrínsecas aos acontecimentos (p. 164). Portanto, no que concerne particularmente ao tempo da memória, o “outrora” do passado rememorado inscreve-se doravante no interior do “antes que” do passado datado;simetricamente, o “mais tarde” da espera torna-se o “no momento em que”, marcando a coincidência de um acontecimento esperado com a grade das datas por vir (p. 164). O autor ainda mostra que a própria brevidade da vida humana recorta-se sobre a imensidão do tempo crônico indefinido (p. 164) e que os episódios registrados são definidos por sua posição em relação a outros: sucessão de acontecimentos únicos, bons ou ruins, de regozijo ou aflição. Esse tempo não é cíclico nem linear, mas amorfo; é ele que a crônica referenciada na posição do narrador relata, antes que a narrativa separe a história contada de seu autor (p. 165). Ademais, considera Ricoeur, por estar ligada aos fatos de continuidade/descontinuidade, ciclo/linearidade, distinção entre períodos e eras, a história não é principalmente confrontada com a fenomenologia do tempo vivido nem com os exercícios da narratividade popular ou erudita, mas com uma ordem do pensável que ignora o sentido dos limites. “Nesse aspecto, o tempo da história procede tanto pela limitação da imensa ordem do pensável quanto pela superação da ordem do vivido” (síntese da página 165).
Na terceira parte, O testemunho, na qual é explicitado que o testemunho nos leva, de um salto, das condições formais ao conteúdo das “coisas do passado” (praeterita), das condições de possibilidade ao processo efetivo da operação historiográfica; com o testemunho inaugura-se um processo epistemológico que parte da memória declarada, passa pelo arquivo e pelos documentos e termina na prova documental (p. 170). Diante disso, o testemunho não encerra sua trajetória com a constituição dos arquivos, ele ressurge no fim do percurso epistemológico no nível da representação do passado por narrativas, artifícios retóricos, colocação em imagens. [...] Ele resiste não somente à explicação e à representação, mas até à colocação em reserva nos arquivos, a ponto de manter-se deliberadamente à margem da historiografia e de despertar dúvidas sobre a intenção veritativa (p. 170). Tudo isso porque o testemunho é uma narrativa autobiográfica autenticada de um acontecimento passado, seja essa narrativa realizada em condições informais ou formais cuja especificidade do testemunho consiste no fato de que a asserção de realidade é inseparável de seu acoplamento com a autodesignação do sujeito que testemunha (p. 172). Para ele, o que se atesta é indivisamente a realidade da coisa passada e a presença do narrador nos locais de ocorrência (p. 172) e que esses tipos de asserções ligam o testemunho pontual a toda a história de uma vida. Ao mesmo tempo, a autodesignação faz aflorar a opacidade inextricável de uma história pessoal que foi ela própria “enredada em histórias”. A autenticidade do testemunho só será então completa após a resposta em eco daquele que recebe o testemunho e o aceita; assim sendo, o testemunho, a partir desse instante, está não apenas autenticado, ele está acreditado (p. 173) Enfim, mostra que o testemunho é um fator de segurança no conjunto das relações constitutivas do vínculo social (p. 174) e que, diante da estabilidade do testemunho, há a contribuição da confiabilidade de cada testemunho à segurança do vínculo social na medida em que este repousa na confiança na palavra de outrem. Gradativamente, esse vínculo fiduciário se estende a todas as trocas, contratos e pactos, e constitui o assentimento à palavra de outrem, princípio do vínculo social, a tal ponto que ele se torna um habitus das comunidades consideradas, e até uma regra de prudência: começar por confiar na palavra de outrem (p. 174). O crédito outorgado à palavra de outrem faz do mundo social um mundo intersubjetivamente compartilhado e o que a confiança na palavra de outrem reforça, não é somente a interdependência, mas a similitude em humanidade dos membros da comunidade. Cria-se, então, o intercâmbio das confianças e este especifica o vínculo entre seres semelhantes. Surge daí, a reciprocidade que corrige a insubstituibilidade dos atores. Segundo Ricoeur, a troca recíproca consolida o sentimento de existir em meio a outros homens (p. 175).
Ao comentar sobre o arquivo, esse historiador, diz que o momento do arquivo é o momento do ingresso na escrita da operação historiográfica. O testemunho é originalmente oral; ele é escutado, ouvido; já o arquivo é escrita, que é lida, consultada. Nos arquivos, o historiador profissional é um leitor (p. 176). E se o testemunho acrescenta traços específicos ligados à estrutura de troca entre aquele que o dá e aquele que o recebe, o arquivo é muito mais que um lugar físico, espacial, é também um lugar social (p. 177). Deste modo, é objeto da disciplina arquivística o “gesto de separar, de reunir, de coletar” (p. 178) e pelos quais “o arquivo promove a ruptura com o ouvir-dizer do testemunho oral” (p. 178).
Na última parte, A Prova Documental, faz-se um retorno ao historiador nos arquivos. Ele é seu destinatário na medida em que rastros foram conservados por uma instituição com o fim de serem consultados por quem esteja habilitado a isso (p. 188). Por isso, se um papel de prova pode ser atribuído aos documentos consultados, é porque o historiador vem aos arquivos com perguntas (p. 188). Paul Ricoeur, importante filósofo francês, considera também que se torna um documento tudo o que pode ser interrogado por um historiador com a ideia de nele encontrar uma informação sobre o passado (p. 189). Ele encerra esse capítulo da obra interrogando se a prova documental é mais remédio que veneno para as falhas constitutivas do testemunho e diz que caberá à explicação e à representação trazer algum alívio a essa confusão, por meio de um exercício medido da contestação e de um esforço da atestação.

Anais 20 anos do PROLER Joinville

Confira aqui os anais do 5º Seminário de Pesquisa em Linguagens, Leitura e Cultura
20 anos do PROLER Joinville: Contar histórias: uns passarão e outros passarinhos



Anais do 17º Encontro do PROLER Joinville

Confira os anais do 17º Encontro do PROLER, realizado em 2013.  Em breve, serão postados os anais dos Encontro dos Encontros - 20 anos do PROLER Joinville.





Anais do 4º Seminário de Pesquisa em Linguagens, Leitura e Cultura

Artigos publicado no 19° COLE

A Revista Linha Mestra (com os artigos do Cole publicados), já está disponível no site http://linhamestra24.wordpress.com/.

Revista Linha Mestra

Confira os artigos:

CRIANÇAS E ADOLESCENTES ACOLHIDOS: A MARGEM DO RIO – A MARGEM DA VIDA
Taiza Mara Rauen Moraes
Laura Meireles Gomes Moura

FRAGILIDADES NA ESCRITA, FLUIDEZ RELACIONAL
Taiza Mara Rauen Moraes
Rosilda da Silva

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Resenha Crítica "As Vozes dos bichos Fabulares: animais em contos e fábulas" de Lucile Desblache


Resenha Crítica
Autor da Resenha: 
Paulo Santos da Silva
Referência do Texto:
DESBLACHE, Lucile. As Vozes dos bichos Fabulares: animais em contos e fábulas. In: Pensar/escrever o animal: ensaios de zoopoética e biopolítica. Org. Maria Esther Maciel. Florianópolis: Editora da UFSC, 2011. p. 295 – 314.
Palavras-chaves (2):
Fábulas - Modos de pensar o animal
Desenvolvimento do Texto:

OS ANIMAIS E OS NOVOS CONCEITOS DELES NA VISÃO CONTEMPORÂNEA DE DESBLACHE
  
Organizado por Maria Esther Maciel, o livro Pensar/escrever o animal: ensaios de zoopoética e biopolítica traz uma série de ensaios que estão distribuídos em quatro partes. Trata-se de textos em que alguns teóricos da literatura e da cultura mundiais revelam pesquisas e reflexões sobre a análise do Outro. Entre estes, na última parte, está o ensaio de Lucile Desblache, com o título de As vozes dos bichos fabulares: animais em contos e fábulas (p. 295 a 314), no qual ela destaca que sua pretensão é mostrar como as fábulas, por privilegiarem um conteúdo figurativo, podem ampliar as percepções e construções da interação entre as espécies.
Nesse texto, os animais são os objetos da palavra. A autora analisa textos, de Coetzee, de Carter, entre outros, cuja ação e enredo se atêm a animais. Desblache parte da tradição da fábula e sua inversão de sentido e aplicação ideológica na literatura contemporânea de J.M. Coetzee, afirmando que ele parte da fábula tradicional, mas se afasta dela ao usar aves não antropomorfizadas como protagonista.  Eis para ela a contramão da tradição das fábulas, pois os pássaros são tratados como aves, não tendo voz ou outras características humanas tão comuns nas fábulas tradicionais.  Ao operar uma analogia ao texto de Coetzee, a autora retoma os personagens criados por Beatrix Potter, produzidos a partir de clichês em que os animais são reduzidos a miniaturas dos homens.
Em busca de cumprir sua análise, após confirmá-la com pensamentos defendidos por teóricos como Deleuze e Guatarri, e atenta a essa nova possibilidade de abordagem do animal que surge na literatura contemporânea, a ensaísta retoma a fábula O gato de botas, de Perrault, pertencente ao conto de fadas do século XVII, e a compara com versões mais recentes. Para isso, usa O gato de botas, texto da escritora Angela Carter, onde estão presentes muitos dos elementos do realismo fantástico e tons operísticos derivados de As bodas de Fígaro e Don Pasquale. Na versão de Carter, segundo Desblache, há reviravoltas inusitadas que questionam as fronteiras do humano e do não humano. Ela ainda explica que os animais desse conto de Carter são retratados como seres felinos e agentes de contraste que realçam deficiências humanas. É como dizer que neste conto os gatos miam, rosnam e até banham os seus ânus com a língua, coisa natural no universo dos bichanos.
Lucile Desblache finaliza lucidamente seu ensaio realçando o gato de botas de Carter e confirmando que poucos conseguem fazer uma ressignificação de uma fábula ou de um conto de fadas como fez Carter.
Professora titular de universidade francesa (1992-2005), Desblache produz um ensaio que desde o início faz com que o leitor adentre nos bosques de sua literatura e reencontre imagens da infância, como no caso dos patos chamarizes que atraem outras aves à morte e também no que se relaciona ao gato de botas. Para que as dúvidas sejam dirimidas de vez, ela usa a força dos teóricos atuais e bem vistos pelo meio acadêmico. Desta forma, ela conduz o leitor rever e refletir sobre os conceitos de deixar viver e deixar morrer – que remetem ao pensamento de Foucault – presentes no conto de Coetzee, e até mesmo os próprios conceitos sobre as fábulas e outros textos que trazem animais como personagens. 


Resenha crítica do capítulo "Teoria social do discurso", de Norman Fairclough


Resenha Crítica
Autores da Resenha: 
Laura Meireles Gomes Moura
Referência do Texto:
Capítulo 3 – Teoria social do discurso, p. 89 – 131 In: FAIRCLOUGH, Norman. Discurso e mudança social. Trad. Izabel Magalhães. Editora Universidade de Brasília, 2001.
Palavras-chaves (2):
ANÁLISE CRÍTICA DO DISCURSO - MUDANÇA SOCIAL
Desenvolvimento do Texto:
         O capítulo Teoria social do discurso, de Fairclough inicia apontando o caminho definido pelo autor para a análise do discurso, uma abordagem investigativa entre texto, prática discursiva e prática social e as nuances que determinam a mudança discursiva em relação à mudança social e cultural. Ao usar o termo “discurso” Fairclough se refere ao “uso da linguagem”, fala ou “desempenho”, estabelecendo um contraponto aos estudos de Ferdinand de Saussure e aos linguistas desta tradição que compartimentam o estudo da língua dentro do próprio sistema, destacado assim do seu “uso”. Essa posição é discutida pelos sociolinguistas que percebem o uso da linguagem moldado socialmente e não individualmente, argumentando sobre o tangenciamento entre o que denominam de sistemática com as variáveis sociais.
    A abordagem desses aspectos sociais representa uma ampliação aos pressupostos saussurianos, no entanto, deve-se verificar o fenômeno unilateral da língua nessas relações pressupondo uma pluralidade de sujeitos sociais, de relações e situações destacadas do uso da linguagem que contribuem para a mudança social. Outro aspecto sinalizado pelo teórico se relaciona às “variáveis sociais” e às variáveis linguísticas, porém de forma restrita não compreendendo o uso da linguagem de forma global capaz de (gerir) transformações.
        Fairclough utiliza o termo discurso considerando o uso da linguagem como forma de prática social e não como atividade puramente individual ou reflexo de variáveis situacionais. O teórico associa desta forma este pensamento às várias implicações dentre elas um modo de ação sobre o mundo e os indivíduos – uma forma de representação bem como uma duplicidade onde o discurso seria moldado e restringido pela estrutura social e esta agindo sobre a prática social, associando suas reflexões a Foucault quando aborda a formação discursiva para a constituição das estruturas sociais acerca das representações e significados do mundo.
     Fairclough distingue três aspectos dos efeitos construtivos do discurso: a construção de identidades sociais; de relações sociais entre as pessoas e dos sistemas de conhecimento e crenças as quais correspondem, segundo o autor, a três funções da linguagem e as dimensões de sentido coexistentes em todos os discursos, a saber: identitária – “modo pelos quais as identidades sociais são estabelecidas no discurso”; relacional – “como as relações sociais entre os participantes do discurso são representadas e negociadas”; e ideacional – “modos pelos quais os textos significam o mundo e seus processos, entidades e relações” (p. 92). Acrescenta, ainda, uma função textual que diz respeito ao tratamento da informação – “como as informações são trazidas ao primeiro plano ou relegadas a um plano secundário, tomadas como dados ou apresentadas como novas, selecionadas como ‘tópico’ ou ‘tema’ e como partes de um texto se ligam a partes precedentes e seguintes do texto, e a situação social ‘fora’ do texto” (p. 92).
     A prática discursiva contribui para reproduzir a sociedade (identidades sociais, relações sociais, sistemas de conhecimento e crenças) e também para transformá-la. Salientando que a relação entre discurso e estrutura social seja considerada como dialética para evitar os erros de ênfase indevida: de um lado, na determinação social do discurso e, de outro, na construção social no discurso, através das várias orientações coexistentes na prática social – “econômica, política, cultural, ideológica” os textos são produzidos, distribuídos e consumidos como ‘mercadorias’ (em indústrias culturais: Bourdieu, 1982). O discurso como modo de prática política “estabelece, mantém e transforma as relações de poder e as entidades coletivas” nas quais existam as relações de poder. Já, segundo o autor, o discurso como prática ideológica “constitui, naturaliza, mantém e transforma os significados do mundo de posições diversas nas relações de poder” (p. 94). Muito embora pareçam categorias independentes, recorrem-se na prática política a “convenções próprias e ideologias particulares” e na ideologia a dimensão geradora dos significados de poder ”como dimensão do exercício do poder e da luta pelo poder”. A concepção tridimensional do discurso como texto, prática discursiva e prática social é uma tentativa de reunir as dimensões de análise textual e linguística, a análise da prática social em relação às estruturas sociais e a prática social “como algo que as pessoas produzem ativamente e entendem como base em procedimentos, de senso comum, compartilhados”.
     A hipótese de trabalho levantada não foi estabelecida apenas com base na experiência de análise linguística, mas como uma atividade multidisciplinar oferecendo: – “um quadro analítico”; – identificação dos “aspectos analíticos selecionados que pareçam ser produzidos na análise de discurso; – abolição de termos técnicos e jargões proibitivos; – servir de referência às linhas particulares de análise”. Fairclough detalha ainda cada dimensão referindo-se a análise textual organizada em quatro itens: ‘vocabulário’; ‘gramática’; ‘coesão’ e ‘estrutura textual’. A análise da prática discursiva envolve a força dos enunciados, a coerência e intertextualidade, os processos de produção, distribuição e consumo textual, sujeitos aos processos de interpretação. Na análise da prática social, discute o conceito de discurso em relação à ideologia e ao poder – hegemonia, questionando a natureza ideológica de todo discurso na medida em que “incorporam significações que contribuem para manter ou reestruturar as relações de poder” (p. 121). As discussões na finalização do capítulo tratam da mudança nas ordens do discurso e os aspectos de abertura para essas mudanças.

Fichamento - A narrativa cinematográfica de André Gaudreault François Jost


Fichamento do livro: GAUDREAULT, André; JOST, François. A narrativa cinematográfica. Trad. Adalberto Muller, Ciro Inácio Marcondes e Rita Jover Faleiros. Brasília: Ed. Universidade de Brasília, 2009. 
Autoria: Karla Adriana Nascimento Cunico

p. 37
As dificuldades das descrições linguísticas do visual devem-se ao fato de que “a imagem mostra, mas não diz” (JOST, 1978), portanto, cabe o questionamento como o plano cinematográfico significa e como ele narra. Essas duas questões são tratadas por Metz, na medida em que ele não questiona o que os filmes narram. Para ele, prioritário é compreender como a imagem móvel – que pode estar aquém da narrativa – significa. Interrogação que suscita uma segunda questão: até que ponto se pode admitir que o cinema seja uma linguagem? É para contrapô-lo à língua que o semiólogo se esforça em demonstrar que nenhum plano é equivalente a uma simples palavra e que, inversamente em toda imagem existe pelo menos um enunciado: “a imagem de uma casa não significa 'casa', mas sim 'eis uma casa'” (METZ, 1968, p. 118).
p. 46
[…] a imagem funciona como um índice, no senso de Charles Peirce, na medida em que ela parece, para o espectador, ter sido diretamente “afetada” pela espacialidade e a temporalidade do objeto representado. Como diz Peirce:

um índice é um signo que remete a um objeto que ele denota, porque ele é realmente afetado por esse objeto […]. Na medida em que o índice é afetado pelo objeto, ele possui necessariamente alguma qualidade em comum com o objeto, e é dando atenção às qualidades que ele pode ter em comum com o objeto que ele remete a esse objeto (PEIRCE, 1978, p. 140)
p. 49
Admite-se que “um documentário se define como apresentando seres ou coisas existindo positivamente na realidade afílmica” (SOURIAU, 1953, p. 7), enquanto a ficção tem o poder de criar mundos, mesmo se ele ou eles se assemelharem ao nosso. A realidade afílmica, isto é, a realidade “que existe no mundo habitual, independentemente de qualquer relação com a arte fílmica” é um mundo que pode ser verificado (dependendo dos conhecimentos do espectador do universo espaço-temporal em que vive), enquanto o mundo da ficção é um mundo em parte mental, que tem suas próprias leis (SOURIAU, 1953 p. 7). De maneira que o que sucede em tal ou qual narrativa fílmica e que nos parece verossímil pode parecer absurdo em outro.
p. 64
[…] os documentários são geralmente feitos de modo que prestemos mais atenção àquilo que é dito pelo entrevistado do que o modo como é filmado.
p. 67/68
O cinema tem uma inclinação quase “natural” pela delegação narrativa, pelo encaixe do discurso. A razão disso é, no fundo, bem simples: é que o cinema mostra personagens em ação que imitam os humanos, em suas diversas atividades cotidianas, e uma dessas atividades, à qual nós nos entregamos todos, de um momento a outro é a de falar. E, falando, a maioria dos humanos é levada a utilizar a função narrativa da linguagem – a narrar, a se narrar. Ora, no cinema, esse fenômeno é acentuado, pois utiliza, cinco matérias de expressão – as imagens, os barulhos, as falas, as menções escritas e a música.
p. 74
Chegamos mesmo a vislumbrar o reagrupamento das matérias de expressão sob a dependência ou a tutela de substâncias particulares: como André Gardies (1987), que divide em três subgrupos as diversas responsabilidades narrativas  do “enunciador fílmico”, que modulará a voz de três subenunciadores, cada um responsável, respectivamente, pelo icônico, pelo verbal, pelo musical.
p. 85
Como todas as outras formas de narração, a narração fílmica presume a comunicação de informações narrativas entre duas instâncias situadas cada uma em uma ponta da cadeia. O narratário de uma narrativa é aquele ou aquela a quem ela é destinada, é assim submetido, a um processo comunicacional no momento em que o narrador libera para ele uma multitude de informações sobre o universo diegético onde evoluem os diversos personagens da narrativa, assim como sobre esses próprios personagens e, é claro, sobre as ações que eles realizam.
p. 92
Efeitos de linguagem: a palavra traz algumas informações que a imagem muda não pode fornecer:
a) dirige os espectadores para diferentes significados possíveis de uma ação representada visualmente. É sua função de fixação.
b) dá um sentido ideológico, permitindo um julgamento a respeito daquilo que a imagem não pode apresentar de modo assertivo; desse modo dá instruções ao espectador para interpretar aquilo que vê.
c) ela nomeia aquilo que a imagem só pode mostrar: os lugares, os tempos, os personagens.
d) acrescenta à narração a possibilidade do discurso direto por meio da transmissão das réplicas do personagem.
p. 93
Efeitos narrativos: a palavra ajuda a construção da história:
a) as informações verbais contribuem para a formação do mundo diegético: situando, no tempo e no espaço, as imagens que vemos, construindo o caráter dos personagens, nomeando os personagens, estabelecem o quadro de interpretação no qual a história que vemos acontecer parece verossímil.
[…]
p. 105
O espaço é um dado incontornável que não podemos desprezar quando se trata de narrativa: a maioria das formas narrativas inscreve-se em um quadro espacial suscetível de acolher a ação vindoura. A narrativa cinematográfica, quanto a isso, não é exceção. Parece até mesmo ser difícil conceber uma sequência de eventos fílmicos qualquer que não esteja, sempre, inscrita em um espaço singular. A unidade básica da narrativa cinematográfica, a imagem, é um significante eminentemente espacial, de maneira que, ao contrário da maioria dos outros veículos narrativos, o cinema apresenta sempre, simultaneamente as ações que fazem a narrativa e o contexto de ocorrência delas.
p. 111
Se partirmos do princípio de que “enquadrar é admitir o dentro do campo e simultaneamente rejeitar o fora do campo” afirma Gardies (1981, p. 79), não é, entretanto, espantoso que o fora do campo diegético tenha, historicamente, sido convocado tão rapidamente para fazer um papel no mínimo crucial. Campo e fora do campo, espaço presente e espaço ausente.
p. 115
A relação da câmera com o espaço é, portanto, de uma importância muito grande no plano narrativo, já que, como notamos, é graças à mobilidade da câmera (no duplo sentido da ação de mobilizar, de fazer mexer) que o cinema desenvolveu boa parte de suas faculdades narrativas. Essa mobilidade é, aliás, operada a partir de dois parâmetros que devem ser distinguidos: o deslocamento da câmera entre os planos, tal qual definiremos, e também o próprio movimento de câmera durante o curso do plano (panorâmica, travelling). Esses são, certamente, dois parâmetros que têm em comum esse ganho sobre o espaço, necessário para se obter a flexibilidade narrativa que caracteriza tão bem o cinema. Mas o primeiro permite realizar uma série de proposições narrativas difíceis de ser expressas unicamente pelos recursos dos movimentos de câmera.
p. 139
É justamente pelo fato de o filme falado ser uma dupla narrativa que a ordem temporal é frequentemente uma resultante complexa, que combina o que é representado visualmente pelos atores e o que é relatado verbalmente por um narrador.
p. 142
Como vimos para analisar um filme, é importante considerar as analepses (retrocessos no tempo) que ocorrem na linguagem e os índices temporais fornecidos pela imagem.
p. 145
Ao contrário do romance, o cinema articula, como já dissemos várias vezes, muitas “linguagens de manifestação”. Tal multiplicidade (assim como, pensando somente na imagem, cores, gestos, expressões, vestimentas, objetos, etc., ad infinitum), que é além disso, multiplicada pela pluralidade de materiais de expressão (imagens em movimento, as menções escritas, os barulhos, as falas e a música), põe o espectador na presença de uma quantidade importante de signos (e, portanto, de eventos) simultâneos, de maneira que e simultaneidade das ações diegéticas está intimamente ligada à sucessividade.

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Anais do 28º.Encontro do PROLER Univille e 13º Seminário de Pesquisa em Linguagens, Leitura e Cultura - 2022

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