RESENHA CRÍTICA DE "RIZOMA" IN: MIL PLATÔS, DE DELEUZE E GUARTARI; POR AMANDA GASSENFERTH


RESENHA CRÍTICA
Autores da Resenha:
Amanda Gassenferth, mestranda em Patrimônio Cultural e Sociedade pela UNIVILLE
Referência do Texto:
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Rizoma. In: Mil Platôs vol. 1. São Paulo: Editora 34. 2011.
Palavras-chave (3):
RIZOMA, FILOSOFIA, CARTOGRAFIA
Desenvolvimento do Texto:

Gilles Deleuze e Félix Guattari trabalharam  juntos no conjunto de livros que compõem Mil Platôs. Nos cinco volumes questionam a filosofia e apresentam os conceitos como possibilidades de compreender a realidade. Entretanto, nesta resenha o ponto principal a ser exposto é o primeiro capítulo do primeiro volume, intitulado Rizoma.
 O capítulo inicia com a imagem de uma partitura, porém colocada de uma maneira que se destacam as possibilidades e não a ordem arborescente. O texto, escrito a dois e remetem aos autores que  escreveram  juntos e que se colocam sob um pseudônimo, daí propõem a ideia da junção, do uno em vários, ou seja, “Não chegar ao ponto em que não se diz mais EU, mas ao ponto em que já não tem qualquer importância dizer ou não dizer EU. Não somo mais nós mesmos. Cada um reconhecerá os seus. Fomos ajudados, aspirados, multiplicados.” (DELEUZE; GUATTARI, 2011 p. 17)
        Seguindo o pensamento, os autores estabelecem um diálogo, acionando as produções do sujeito(s) pois neste sentido entendem que o livro é movimento, com diferentes velocidades e noções de tempo. Assim, o livro é apresentado como um agenciamento, no sentido de ser um conjunto de relações, porém este quando visto a partir de seu conteúdo, passa a ter uma concepção de agenciamento maquínico. O agenciamento é múltiplo, não é direcionado/estratificado. Um livro não deve ser observado isoladamente, mas sim nas suas transformações e relações.
         Os autores retratam a escrita com a cartografia, propõem um livro-raiz, arborescente, ordenado, onde a arte imita a vida e vice-versa. Este livro tem uma raiz pivotante, direcionada. Logo, considera a multiplicidade, não seguem uma lógica binária. Assim como a raiz fasciculada destrói uma parte da raiz principal para fazer um enxerto há a possibilidade da multiplicidade, com a presença/ausência da raiz principal. No livro de raiz-fasciculada não se rompe com a noção do livro como dual, de um sujeito e objeto.
         Após esta introdução são apresentados os princípios identificadores do rizoma:
- Princípios de conexão e heterogeneidade: um rizoma pode e deve se conectar com outro rizoma, não precisando de um ponto específico, mas de qualquer ponto para conexão. Assim,  se observam as coisas a partir deste conectar, das cadeias semióticas preexistente e das que se formam.
“Num rizoma, ao contrário, cada não remete necessariamente a um traço linguístico: cadeias semióticas de todas as naturezas são conectadas de modos de codificação muito diversos, cadeias biológicas, políticas, econômicas, etc., colocando em jogo não somente regimes de signos diferentes, mas também estatuto de estado das coisas” (DELEUZE; GUATTARI, 2011 p. 22).
- Principio de multiplicidade: a multiplicidade não deve ser uma característica, mas sim um substantivo. A multiplicidade não tem sujeito ou objeto, mas sim diretrizes que mudam e se transformam, a partir das combinações da multiplicidade. Sendo assim, esta se recodifica, não se deixando sobrecodificar. A multiplicidade é plana, recebendo conexões (linhas) diversas. “As multiplicidades se definem pelo fora: pela linha abstrata, linha de fuga ou de desterritorialização segundo a qual elas mudam de natureza ao se conectarem às outras.” (DELEUZE; GUATTARI, 2011 p. 25)
- Princípio de ruptura assignificante: este princípio destaca a importância de não realizar cortes/rupturas significantes que separam ou cruzam a estrutura, afinal, “Todo rizoma compreende linhas de segmentariedade segundo as quais ele é estratificado, territorializado, organizado, significado, atribuído, etc.; mas compreende também linhas de desterritorialização pelas quais ele foge sem parar.” (DELEUZE; GUATTARI, 2011 p.25), isso não significa que ele, o rizoma, não possa ser quebrado, pois ele pode, mas ele se transforma a partir de outras linhas e conexões. Assim como o rizoma pode se romper e formar linhas de fuga, pois as linhas remetem umas às outras, havendo uma possibilidade de se encontrarem novamente. Contudo, não possuindo as mesmas características, dimensões que ressignificam o “significante”.
-Principio de cartografia e decalcomania: o rizoma não é fixo ou estático, assim como não é um modelo estrutural, afinal, o rizoma não é um decalque. Ou seja, ele não pode ser reproduzido igualmente infinitamente. Estas características pertencem a árvore, a raiz pivotante, não ao rizoma. O rizoma, de acordo com os autores, é mapa, possui entradas múltiplas, diferentes, sendo uma performance em si. O mapa permite sair e entrar tanto quanto necessário, que sejam feitas novas conexões. Todavia, deve-se colocar o decalque sobre o mapa, mesmo que o decalque não reproduza o mapa em toda sua complexidade, é uma tradução, onde o movimento e fluxo do rizoma se estabiliza, entretanto, os autores salientam que fazer isto é perigoso, afinal não é uma reprodução do mapa em si. Mas sim uma reprodução que se crer reproduzir algo, quando este é outra coisa, ou ainda, ele mesmo. “O que o decalque reproduz do mapa ou do rizoma são somente os impasses, os bloqueios, os germes de pivô ou os pontos de estruturação.” (DELEUZE; GUATTARI, 2011 p.32)
          Os autores ainda destacam que o pensamento arborescente é hierárquico, logo, pode-se entender que neste sistema hierárquico existe certa dependência entre os níveis/estratos. E que mesmo uma multiplicidade pode ser falsa, quando utilizada como fachada para um sistema hierárquico. Porém de um sistema hierárquico pode vir a surgir um rizoma, assim como um rizoma pode se tornar um sistema hierárquico/arbóreo. Ainda mais se considerarmos que o pensamento/sistema arbóreo, foi predominante no Ocidente em diversas áreas, dentre elas, biologia, assim como filosofia. Para contrapor é recuperado o pensamento oriental, momento em  que é  citado Henry Miller, que compara a China à erva daninha, por levar uma vida sábia. “A erva existe exclusivamente entre os grandes espaços não cultivados. Ela preenche os vazios. Ela cresce entre, e no meio das outras coisas.” (DELEUZE, GUATTARI, 2011 p.40; apud MILLER, 1956 p.49).
         Assim o rizoma não é simplesmente um movimento, mas sim gerador de possibilidades, de transições e  de conexões, de ressignificação e de autonomia; bem como gerador de um mapa que se entra por onde se necessita entrar, mas permanece aberto.
Observações:
A obra permite discussões interdisciplinares entre áreas da comunicação, semiologia, linguística, psicologia, filosofia.




Resenha crítica de "A fotografia entre a morte e a eternidade", de Lúcia Santaella e Winfried Nöth

Resenha crítica do capítulo A fotografia entre a morte e a eternidade, in  "Imagem: cognição, semiótica, mídia" de Lucia Santaella e Winfried Nöth
Autores da Resenha: 
Daniel Machado
Referência do Texto:
Santaella, Lucia; Nöth, Winfried. A fotografia entre a morte e a eternidade. In: Imagem: cognição, semiótica, mídia. São Paulo: Iluminuras, 2008.
Palavras-chaves (3):
Fotografia, imagem
Desenvolvimento do Texto:

O capítulo A fotografia entre a morte e a eternidade, integra o livro Imagem: cognição, semiótica, mídia, de Lucia Santaella e Winfried Nöth, no qual os autores teorizam questões relacionadas aos signos visuais, partindo de Charles S. Peirce, e buscando meios de fundamentar o exame analítico da imagem como linguagem.
No capítulo em questão, os autores tratam especificamente a fotografia, e iniciam observando as múltiplas formas de abordar este meio de representação visual, o qual, segundo Santaella e Nöth, pode ir desde “um ponto de vista puramente material e técnico” até o ponto mais filosófico, tratando a fotografia “como forma de representação e conhecimento do mundo”. Partindo desta amplitude, os autores traçam um caminho analítico em diálogos com vozes teóricas, que perpassam os aspectos do processo fotográfico, a fotografia como duplo e a fotografia entre a morte e a eternidade.
As análises sobre os aspectos do processo fotográfico iniciam com o fotógrafo como agente, uma questão que segundo os autores é frequentemente investigada. Nesse capítulo, a ênfase se dá à postura do fotógrafo ao fotografar, pautada nos estudos de Flusser, Zunzunegui, Omar e Sontag.
Partindo para o gesto fotográfico, Santaella e Nöth tratam da “magia” presente na gênese da fotografia, tema de análises de inúmeros autores, dos quais Santaella e Nöth destacam os pensamentos de Dubois, Omar, Sontag e Flusser e citam o texto de Julio Cortázar, “Las babas del diablo”, como “uma esplêndida fenomenologia do gesto de fotografar”. O texto de Cortázar traz todo o ato fotográfico, desde sua preconcepção até a observação da fotografia impressa, tratando das angústias do fotógrafo durante o processo.
Sobre o aparelho ou dispositivo como meio, os autores trazem como principal referência os estudos de Vilém Flusser, que aborda a fusão entre fotógrafo e câmera. Na sequência, acerca da fotografia como ato revelado as reflexões de Roland Barthes são recuperadas, principalmente os conceitos de studium e punctum, os quais estão relacionados ao ato de observação da fotografia. Susan Sontag e seus estudos sobre a onipresença da fotografia são recuperados no diálogo por tratar frequentemente do ato revelado.
A fotografia e o referente também entram na análise sobre os aspectos do processo fotográfico, sendo aqui novamente destaque o pensamento que Barthes, seguido pelos pensamentos de Dubois, Metz, Zunzunegui e Sontag, que caracterizam a fotografia como “traço do real”, sendo o conceito de Peirce sobre o caráter icônico da fotografia, base para os pensadores desenvolverem seus estudos sobre o referente fotográfico.
Santaella e Nöth também discutem a distribuição fotográfica, partindo da possibilidade infinita de reprodução a partir de um negativo, fator que segundo os autores talvez seja o salto mais revolucionário dentre as fases da fotografia, promovendo um grande avanço em relação ao modo manual de produzir imagens.  Neste ponto, o texto de Walter Benjamin, “A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica” é retomada pelos autores, juntamente com Sontag que analisa o armazenamento das fotografias e Flusser que se dedicou também ao estudo sobre a distribuição da fotografia.
A recepção da fotografia encerra a análise sobre os aspectos do processo fotográfico feita pelos autores, sendo este também o último ponto desse processo. Momento que o texto de Barthes é relembrado por Santaella e Nöth que apontam para os conceitos de studium e punctum, os quais não existiriam sem a recepção fotográfica e sem o receptor. O estudo de Sontag sobre as influências que as fotografias exercem no receptor também é apontado, seguido pelo pensamento de Flusser que assim como Sontag discute a recepção fotográfica do ponto de vista mais social. Benjamin e a questão da quebra da aura na recepção, causada pela reprodutibilidade da fotografia é também suscitada juntamente com Sontag que questiona o pensamento de Benjamin.
A segunda linha de análise percorrida por Santaella e Nöth diz respeito às duplicidades da fotografia, ou seja, aos fatores ambíguos que acompanham o processo fotográfico. Os autores iniciam essa análise considerando a dualidade física/simbólica da fotografia, a qual, ao mesmo tempo em que possui uma relação física com seu referente no momento de sua gênese, passa a ser uma existência simbólica do mesmo.
Na sequência, os autores analisam o caráter único - considerando a geração de um único negativo na concepção da fotografia - em contraponto com o infinito - considerando a possibilidade da geração de múltiplos positivos a partir deste único negativo.
A fragmentação do espaço e do tempo no momento da captura fotográfica tem como oposto a intensificação deste exato momento/lugar, colocado pelos autores como “recorte intensificador”. Este ponto da análise tem grande proximidade com o seguinte, que traz a fotografia como uma “aderência tirânica do referente”, mas que, ao mesmo tempo tem a possibilidade de transfigurá-lo total ou parcialmente.
Outra duplicidade apresentada por Santaella e Nöth é a presença e ausência, considerando que, ao mesmo tempo que a fotografia está ali presente, ela também representa algo que está ausente, é o que Sontag coloca como “pseudopresença” ou “signo de ausência”. Duplicidade que se aproxima da seguinte colocada pelos autores como proximidade e separação e que em muito tem a ver com a última duplicidade apresentada como fusão, atração com o real ao mesmo tempo em que é corte, separação do real.
O terceiro item do artigo apresenta uma análise sobre a fotografia como duplo, afirmando que, ecoando as vozes em diálogo, “a força da fotografia está na duplicação das aparências que ela permite, realizando, ou melhor, aprimorando o desejo humano ancestral de reproduzir o mundo” (p. 130). Aqui os autores apresentam um breve histórico das tentativas de reprodução do mundo realizadas pelo homem, e abrem um subitem para explanar especificamente “a novidade da fotografia”, onde as características distintas deste meio em relação aos outros meios de reprodução imagética são apresentadas, assim como, também as similaridades, principalmente em relação a característica de ser um duplo.
Para fechar esse item, Santaella e Nöth discutem as duas principais linhas de reações causadas pela invenção da fotografia: a euforia causada pela suposta perfeição com que a fotografia representava seu referente, e a disforia “melancólica, profundamente desconfiada e evidentemente crítica”, que normalmente toda nova tecnologia suscita.
O último item deste capítulo traz uma reflexão da fotografia “entre a morte a eternidade”, onde os autores apontam similaridades entre a fotografia e a morte e traçam uma análise sobre a fotografia de pessoas que já não estão mais vivas, confrontando a fotografia com outros meios de reprodução da imagem em movimento, onde a lembrança de pessoas mortas é trazida como se estivessem vivos, diferentemente da fotografia onde os mortos são recordados como mortos.
Outros paralelos com a morte, um tanto mais metafóricos, citados por outros autores são trazido por Santaella e Nöth, como as comparações entre o aparelho fotográfico e a arma de fogo, e a ideia de que o ato fotográfico leva o referente para outra dimensão, que não é mais a do seu espaço e tempo presente, ideia desdobrada em um subcapítulo sobre a promessa de eternidade que a fotografia traz consigo e posteriormente tematizada com o texto La invención de Morel, onde o personagem principal se depara com uma espécie de máquina do tempo que reproduz continuamente com riqueza de detalhes todos os momentos dos habitantes de uma ilha que vivem “presos” à este lapso de tempo.
Por fim, os autores apresentam um pensamento do que seria “uma nova história da fotografia”, pautado nas revoluções digitais recentes que ampliaram consideravelmente as perspectivas do processo fotográfico. Um pensamento que trata principalmente das possibilidades da pós-produção, mas que em geral não é muito aprofundado, provavelmente pelo fato de que na data de publicação do livro, tais avanços ainda eram muito recentes e pouco se sabia sobre os caminhos que essa nova história da fotografia poderia tomar, caminhos que ainda hoje são incertos apesar da popularização da fotografia e da disseminação de sistemas fotográficos presentes principalmente em aparelhos de telefonia móvel.
O capítulo traça um panorama sobre o processo fotográfico, aborda as teorias de duplicidades da fotografia apresentadas de forma sucinta, o que instiga o leitor a buscar maiores informações sobre cada teoria afim de consolidar um pensamento sobre elas. Na proposta da fotografia como duplo, apesar de concordar com os autores sobre ser a fotografia o aprimramento do desejo humano ancestral de reproduzir o mundo, parece equivocada a afirmação de que com a fotografia o ser humano consegue uma duplicidade “nua e crua, reduzida a si mesma, livre de todas as distorções, para melhor ou para pior, impostas pela imaginação, manualidade e manipulação do artista”, considerando que o simples fato de escolher o ângulo de visão e a objetiva com a qual a fotografia seria feita já causaria uma manipulação considerável na imagem, resultada da escolha do artista. É certo que a fotografia foi considerada por anos como uma representação fidedigna do referente, porém, no modo como esse conceito é apresentado no texto de Santaella e Nöth, indica que essa ideia é ainda presente e não foi superada.
O desfecho do artigo, colocando a fotografia entre a morte e a eternidade suscita reflexões sobre o poder da fotografia na manutenção da memória, sendo um artefato que eterniza mas que também pode aprisionar.
Observações:
Grupo de Pesquisa Imbricamentos de Linguagens - CNPQ



Resenha da obra "Sem pressa", de Katherine Funke, por Taiza Mara Rauen Morae

SEM PRESSA
Autora do Livro:
FUNKE, KatherineIlustrações Meryl Dith. Joinville/SC: Micronotas, 2018.
Edição / Prêmio Edital Elisabete Anderle, 2017

Autora da Resenha:
Taiza Mara Rauen Moraes - Mestrado Patrimônio Cultural e Sociedade/ Letras/ PROLER UNIVILLE

Palavras-chave
Narrativas híbridas; percepções temporais; atmosferas sensíveis.
Desenvolvimento do Texto:
Foto: Divulgação
Sem pressa, livro composto por sete narrativas/entrevistas escritas entre 2010 e 2011, por Katherine Funke, jornalista que na época tinha sete anos de experiência profissional e se permitiu romper com a pressão do “aqui e do agora” do fazer jornalístico, para se dedicar à escrita literária experiência propiciada por uma Bolsa Funarte de Criação Literária. As narrativas registram vivências com um tempo dedicado à escrita e ecoam experiências dos entrevistados, bem como projeções de sonhos alimentadores da existência e que permitem ao leitor fluir temporalmente, experienciar aconchegos e abandonos. A cada narrativa o leitor é introduzido por uma imagem e por uma epígrafe poética que o provoca a refletir sobre o tempo como um fenômeno imanente e transcendente. A primeira, intitulada Ei, você viu aí um pedaço com uma cabeça?,introduzida por versos de T.S.Eliot circula reflexões sobre o poder do tempo ao narrar a persistência de Rita Andrade, Ritta Mota (Tetê), Alberto e de Yara Chamusca, atuantes no Museu Náutico do Forte de Santo Antônio da Barra, para ordenar e catalogar 6.495 fragmentos de faiança portuguesa resgatados em 1970, nos destroços do navio de guerra Galeão Sacramento, naufragado em 1668, em Salvador/Bahia. Expõe a obstinação da equipe na busca da compreensão das almas das cerâmicas, a luta contra o tempo na montagem de quebra-cabeças e que segundo Tetê requerem sensibilidade e paciência, pois “As estrias de barro, pequenas reentrâncias lineares que podem ser vistas nas bordas laterais internas de um fragmento quebrado, são a memória da massa, e sendo assim, só se casam com massas de estrias iguais.” (p.17) A segunda narrativa, Stella vai a um retiro no mosteiro, é introduzida pelas palavras de Virgínia Woolf que clama por  “abolir com um sopro o tique-taque dos relógios”. Stella, neta de Dorival Caymmi e filha de Nanna se auto avalia como uma mulher exausta, pois conforme seu depoimento “Em doze anos, eu devo ter escrito mil e duzentas a mil e quatrocentas páginas editadas. ”(26) e informa que a alternativa encontrada para superar a exaustão é isolar-se por quatro dias em um mosteiro para afastar-se das cobranças do tempo. Aqui não tem Coca-Cola, terceira narrativa é desencadeada a partir das frases de Fellini- Não há início nem fim, apenas a infinita paixão pela vida. ” e é focada nas experiências e contradições de Patrícia Zukas Dias, fotógrafa, economista e proprietária de um restaurante/café  de slow food, “Ciranda Café”, em Salvador/Bahia. A narrativa é costurada pelas palavras de Baudelaire, que ao clamar pela liberdade diz: “A cada minuto nós somos esmagados pelo conceito e pela sensação do Tempo. E há apenas duas maneiras de se escapar desse pesadelo: o prazer e o trabalho. O prazer nos consome. O trabalho nos fortifica. Faça sua escolha. ” (p.43 in: Flores do Mal, poema “Higiene”) Já, em Para decupar o absurdo, as experiências com tempo são vividas pelo fotógrafo Christian Cravo que registrou imagens dos duzentos e cinqüenta mil cadáveres, vítimas do terremoto no Haiti, em 2010. Após ter vivido esse episódio decide fotografar a natureza africana, a vida em si. A quarta narrativa, Desculpe, não deu para esperar pelo futuro, introduzida pelas palavras de Manoel de Barros, “O tempo só anda de ida”, é desenvolvida de modo cronológico, registra o momento do impacto do episódio do World Trade Center (2001), vivido pelo investidor americano Bernard Attal, que poderia ter morrido se o táxi em que estava cruzasse o quarteirão dos edifícios, dez minutos depois do choque dos aviões. Após, essa vivência, decidiu estudar cinema, na Universidade de New York e lançou seu primeiro filme/curta metragem, “29 Polegadas aos quarenta anos de idade e muda-se para Bahia/Brasil. Em 2010 faz seu primeiro longa metragem “A coleção invisível”, baseado nos contos de Stefan Zweig, escritor judeu, nascido em Viena, que encontrou o Brasil na rota de fuga ante ao holocausto nazista. Na sexta narrativa Pan-pandeiro perfeito, a epígrafe é de Maureen Bartz Szymczak – A chuva me encolhe no tempo. Sou gota suspensa- a atmosfera é sonora, e o entrevistada a Tamima dedicada à arte de produzir pandeiros artesanais e nesse ofício de luthier busca mimar “seus pandeiros até quase voarem, de tão levinhos”(p.82), ajustados com cuidado e lentidão na tentativa de atingir a perfeição do som. A sétima e última narrativa- Amanhã já é maior e mais belo, Jorge – é desencadeada a partir das palavras de Alberto Caeiro da Silva “Ter pressa é crer que a gente passa adiante das pernas,/Ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra. ” e se diferencia das anteriores na dosagem da invenção, resultante de uma experiência de  emersão da produção de chocolates orgânicos de Amma, na Bahia  análogas às sensações mágicas  transmitidas pelo filme  A fantástica fábrica de chocolates (2005) de Tim Burton. 

RESENHA DA OBRA "NOTAS INCOMPLETAS SOBRE ASSUNTOS DO TEMPO", DE VALTER HUGO MÃE, POR DÉBORA SHOENHALS E JÉSSICA DUARTE DE OLIVEIRA.


memória, tempo e afeto
Autores da Resenha:
Débora Shoenhals, acadêmica do curso de Letras da UNIVILLE
Jéssica Duarte de Oliveira, acadêmica do curso de Letras da UNIVILLE
Referência do Texto:
MÃE, Valter Hugo. Notas incompletas sobre assuntos do tempo. Curitiba: Gusto Design, 2014. p. 17-23.
Palavras-chave (3):
Notas; memória; tempo.
Desenvolvimento do Texto:
 “Notas incompletas sobre assuntos do tempo”, escritas por Valter Hugo Mãe e apresentadas pelo autor no Festival Literário “Litercultura” em agosto de 2014. Transcrito em sete páginas, sem figuras ou imagens, discorre sobre os assuntos que permeiam a efemeridade do tempo e a memória, como ele próprio expõe como “a única possibilidade de regresso” quando, um dia, somente ela restará. Todavia como um refúgio para nos deter naquela brevidade de outrora que o tempo insiste em apagar.

O texto inicia com uma breve reflexão sobre o passar e a crueldade do tempo, mencionando a memória como a única sobrevivente deste e, então, nem mesmo ela restará. Em seguida, o autor utiliza da construção de memórias afetivas para ilustrar os significados que nos tornam humano, encerrando suas reflexões com a conclusão de que o amor é o que torna a memória algo intrínseco ao ser humano, e não a materialidade do corpo e dos objetos.
Hugo Mãe compara o tempo como um roedor que enumera o envelhecimento e com ele as coisas boas se dissipam. O tempo é um verme que corrói devagar todas as coisas boas da vida quando tudo o que desejamos é que ele seja todas as maravilhas, tudo aquilo que amamos juntos e contemplando a beleza que é viver.
O autor nos apresenta a seguinte frase em um tom aparentemente autobiográfico:
                                         Eu respondi que nós somos o que somos também porque estamos rodeados do que nos rodeia e o único modo de tudo continuar é cuidar que nada se perca. O meu pai disse: isso é memória. Não é uma árvore, é a memória da árvore que vai ser fundamental na tua vida. (MÃE, 2014, p. 18)
 Embora aquilo que nos rodeia constitua o nosso ser, é a lembrança de todas as coisas que futuramente nos dirão quem fomos, pois as árvores podem ser cortadas, as pessoas se vão, as coisas vão sendo substituídas, porém seu significados, suas sensações provocadas em nós, nos habitarão e nos dirão que realmente tudo o que aconteceu realmente aconteceu, e através do tempo nós permanecemos, principalmente quando sabemos nos reconhecer no outro e sermos reconhecidos numa reciprocidade  e “num grau de desarmada intimidade”.
                                         Nós estamos de volta quando alguém acompanha a nossa história, quando alguém sabe de que árvore estamos a falar. Se ninguém acompanhar a nossa história a gemente não volta porque não tem para onde voltar, simplesmente seguimos sem sentido porque tudo quanto somos e fazemos se desperdiça na solidão. A solidão pode ser um estágio, mas ela não é um destino do homem. Ela é uma experiência do homem mas aquele que se entrega à solidão optou por perder a humanidade. (MÃE, 2014, p. 19)

Para o autor, o sentido da vida está nos outros que dão origem, legitimam e completam a nossa existência, bem como é através dos outros que a felicidade se faz, na troca, na partilha, no acolhimento.
                                         A humanidade é memória e, por isso, é um coletivo. A humanidade implica regresso e o regresso, (...) é lembrar e ser lembrado. Ser gente implica os outros e os outros são a nossa transcendência, aquela que verdadeiramente nos deve preocupar. Assim, ainda que algo esteja fora de mim pode ser essencial para me completar, identificar, definir. Por natureza, mesmo na hipótese de deus não existir, a humanidade já é transcendência. Ela está acima do corpo, ela está no outro, começa com a existência do outro. (MÃE, 2014, p. 19)

Nós transcendemos do outro, somos parte dos nossos pais, por exemplo, e ao sermos. Como o autor coloca, quando alguém ver nas ruas a nossa mãe ou nosso pai, pode-se dizer que está vendo a nós mesmos. Partes de nós que habitam aquela pessoa.
Também nas coisas, nos objetos, nós transcendemos, pois neles há muito o que contar de nós. Neles depositamos nossas melhores ou piores lembranças. De uma viagem concretizada ou não, dos lugares visitados, de pessoas especiais, que permanecem ou que se foram, de momentos, de sabores, de saberes. Somos parte daquilo que temos. Guardamos partes de nós e essas partes de nós são pequenos fios de memória que se impregnam sutilmente naquilo que possuímos.
E toda essa transcendência, essa parte de nós que está fora de nós, está definida pela memória. E a memória é afeto, é ter a quem chamar de lar, é o oposto da solidão. É apenas na conexão humana que o ser humano se reconhece enquanto pertencente a algo maior que ele próprio:

                                         Quando o filósofo Edmund Husserl define a transcendência como aquilo que está fora de nós, talvez não tenha perspectivado que a identidade do humano está fora de cada um. A humanidade é memória e, por isso, é um coletivo. A humanidade implica regresso e o regresso, como bem aprendi com o meu pai, é lembrar e ser lembrado. (MÃE, 2014, p. 20)

De forma sutil, em meio ao fluxo de pensamentos frenéticos expressados com uma linguagem lírica que levam o leitor a acreditar que ele próprio vivenciou as memórias relatadas no conto, chega-se ao fim de toda a memória com a inevitável morte. Hugo Mãe diz que “conceber a morte parece sinal de desistência” (MÃE, 2014, p.21) quando se perde alguém sem estar preparado. É inevitável a reflexão de onde está localizada a memória quando se trata deste assunto, se o corpo, mero objeto, é o suficiente para carregar a conexão humana como as árvores da infância do autor carregaram, um dia, o sentimento de pertença:
                                        
                                         Eu mantinha na cabeça a história da memória das árvores. Pensava em como seria verdade ou mentira a necessidade de manter apenas a memória. Se eu ainda lembrasse muito o meu pai, seria possível que vê-lo tornado esqueleto me parecesse normal. Essa era a questão. Poderia aquele esqueleto ser ainda a memória bastante do meu pai, ao ponto de eu sentir que tinha mais um dia com ele, um maravilhoso e inesperado dia extra. (MÃE, 2014, p. 22)

E é então, com a brutalidade do tempo e o decompor da carne, que o autor concluí que não é a materialidade que carrega a ternura da memória. O corpo, os objetos e as árvores nada mais são do que receptáculos de sentimentos que extravasam a razão. O tempo, que outrora fora comparado com um verme, pode destruir tudo, e o que resta, no final, é o amor. Amor esse, como colocado por Hugo Mãe, que se sente por dentro, na alma.

Observações:
Mesmo para leitores que nunca refletiram a respeito desse tema, o texto não é de difícil entendimento, uma vez que a liricidade construída pelo escritor conversa com a essência de todos que um dia se conectaram a algo ou a alguém. As palavras selecionadas são de fácil compreensão, ainda que a grafia esteja no português lusitano e muitas vezes os sinais de pontuação e suas regras sejam deixados de lado por questões estilísticas. O texto é carregado de reflexões acerca de algo que une os homens: o sentimento.


Resenha da peça "Vozes de Abrigo", com texto e direção de Fábio Nunes Medeiros - 2017, por Taiza Mara Rauen Moraes

VOZES DE ABRIGO
Autora da Resenha:
Profa. Taiza Mara Rauen Moraes
Mestrado Patrimônio Cultural e Sociedade/Letras/PROLER UNIVILLE
Ficha técnica do espetáculo dramático musical com teatro de animação:
Vozes de abrigo
Ano de Lançamento: 2017
Gênero: espetáculo dramático musical com teatro de animação
Texto e Direção: Fábio Nunes Medeiros
Direção Musical: André de Souza
Assistência de direção: Jordana Carvalho Meirelles
Assistência de produção: Ana Paula Melgarejo, Carol Scabora, Rosane Freire
Atores-animadores: Dayane Padilha, Hudson Biscaia, Janaina Graboski, Jean Cequinel, João Muniz, Júnior Obata, Maicon Silvério, Paola Kulik
Orientação da equipe de visualidades: Flávio Marinho
Cenário e figurino: Fábio Nunes Medeiros
Costura: Deo Araújo e Juraci Carneiro
Formas animadas: Alan Martins, Anne Caetano, Fábio Nunes Medeiros, Flávio Marinho, Hudson Biscaia, Janaína Graboski, Jean Cequinel, João Muniz, Júnior Obata, Lucas Berthier Cardoso, Renan Turci
Modelagem dos bonecos: Fábio Nunes Medeiros, Flávio Marinho, Hudson Biscaia
Iluminação: João Muniz e Fábio Nunes Medeiros
Músico: André Souza (piano)
Cenotecnia: Lucas Berthier Cardoso
Maquiagem: Daiane Padilha  e Janaína Graboski
Assessoria de comunicação: Rosane Freires
Design Gráfico: Wanderson Barbieri Mosco
Teaser:Renan Turci
Fotografia:  Juliana Luz
Filmagem: A lan Martins e Flávia Wolfart
Operação de luz:  Jordana Carvalho Meirellles e Maycon Lorkievicz
Equipe de apoio: Ingrid Vidal, João Daniel Vidal
REALIZAÇÃO: LAICA  /  APOIO:  Faculdade de Artes do Paraná / UNESPAR




Palavras-chave
 VOZES – ABRIGO - SONHOS
Desenvolvimento do Texto:
Vozes de abrigo, espetáculo dramático musical com teatro de animação, escrito e dirigido por Fábio Nunes Medeiros e musicado por André de Souza, grita e ecoa a solidão humana, a dor e a luta para a construção de sonhos alimentadores da existência. Existir é interagir com o outro, nascemos da união de dois seres e nos constituímos dia a dia na relação com o outro numa troca de experiências/vivências/sonhos delineando histórias que nos marcam como sujeitos no mundo. A peça Vozes de Abrigo põe em pauta experiências de rejeição de crianças invisíveis que lutam pela visibilidade e para sair do não-lugar do abandono acionando as linguagens do teatro de animação e do drama musical. O espectador é chamado cena a cena para ativar sua “anima”/”humanizar-se” e olhar para o outro num movimento metafórico de auto constituir-se, perceber o outro e perceber-se numa relação contínua de imbricamentos de sentimentos e emoções. O abandono é configurado como desumanizador por matar gradativa e lentamente a seiva que circula nas nossas raízes, eliminando a água fonte da vida. A montagem articula histórias fictícias e reais de crianças abrigadas, contadas com a magia teatral de atores/manipuladores de bonecos e que se transfiguram em marionetes desvelando o jogo social que transforma sujeitos em objetos e manipula sonhos. Viver é experienciar aconchegos e abandonos, assim a peça é um clamor de vozes musicais para que reavivemos nossa humanidade acolhendo e abrigando o outro em nossos sonhos.     

SÍNTESE DA PEÇA TEATRAL
Crianças de abrigo são como sementes plantadas no vento, são como sonhos esperando para serem sonhadas.


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