Resenha Crítica
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Laura Meireles Gomes Moura
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Referência do Texto:
| Capítulo 3 – Teoria social do discurso, p. 89 – 131 In: FAIRCLOUGH, Norman. Discurso e mudança social. Trad. Izabel Magalhães. Editora Universidade de Brasília, 2001. |
Palavras-chaves (2):
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ANÁLISE CRÍTICA DO DISCURSO - MUDANÇA SOCIAL
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Desenvolvimento do Texto:
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O capítulo Teoria social do discurso, de Fairclough inicia apontando o caminho definido pelo autor para a análise do discurso, uma abordagem investigativa entre texto, prática discursiva e prática social e as nuances que determinam a mudança discursiva em relação à mudança social e cultural. Ao usar o termo “discurso” Fairclough se refere ao “uso da linguagem”, fala ou “desempenho”, estabelecendo um contraponto aos estudos de Ferdinand de Saussure e aos linguistas desta tradição que compartimentam o estudo da língua dentro do próprio sistema, destacado assim do seu “uso”. Essa posição é discutida pelos sociolinguistas que percebem o uso da linguagem moldado socialmente e não individualmente, argumentando sobre o tangenciamento entre o que denominam de sistemática com as variáveis sociais.
A abordagem desses aspectos sociais representa uma ampliação aos pressupostos saussurianos, no entanto, deve-se verificar o fenômeno unilateral da língua nessas relações pressupondo uma pluralidade de sujeitos sociais, de relações e situações destacadas do uso da linguagem que contribuem para a mudança social. Outro aspecto sinalizado pelo teórico se relaciona às “variáveis sociais” e às variáveis linguísticas, porém de forma restrita não compreendendo o uso da linguagem de forma global capaz de (gerir) transformações. Fairclough utiliza o termo discurso considerando o uso da linguagem como forma de prática social e não como atividade puramente individual ou reflexo de variáveis situacionais. O teórico associa desta forma este pensamento às várias implicações dentre elas um modo de ação sobre o mundo e os indivíduos – uma forma de representação bem como uma duplicidade onde o discurso seria moldado e restringido pela estrutura social e esta agindo sobre a prática social, associando suas reflexões a Foucault quando aborda a formação discursiva para a constituição das estruturas sociais acerca das representações e significados do mundo. Fairclough distingue três aspectos dos efeitos construtivos do discurso: a construção de identidades sociais; de relações sociais entre as pessoas e dos sistemas de conhecimento e crenças as quais correspondem, segundo o autor, a três funções da linguagem e as dimensões de sentido coexistentes em todos os discursos, a saber: identitária – “modo pelos quais as identidades sociais são estabelecidas no discurso”; relacional – “como as relações sociais entre os participantes do discurso são representadas e negociadas”; e ideacional – “modos pelos quais os textos significam o mundo e seus processos, entidades e relações” (p. 92). Acrescenta, ainda, uma função textual que diz respeito ao tratamento da informação – “como as informações são trazidas ao primeiro plano ou relegadas a um plano secundário, tomadas como dados ou apresentadas como novas, selecionadas como ‘tópico’ ou ‘tema’ e como partes de um texto se ligam a partes precedentes e seguintes do texto, e a situação social ‘fora’ do texto” (p. 92). A prática discursiva contribui para reproduzir a sociedade (identidades sociais, relações sociais, sistemas de conhecimento e crenças) e também para transformá-la. Salientando que a relação entre discurso e estrutura social seja considerada como dialética para evitar os erros de ênfase indevida: de um lado, na determinação social do discurso e, de outro, na construção social no discurso, através das várias orientações coexistentes na prática social – “econômica, política, cultural, ideológica” os textos são produzidos, distribuídos e consumidos como ‘mercadorias’ (em indústrias culturais: Bourdieu, 1982). O discurso como modo de prática política “estabelece, mantém e transforma as relações de poder e as entidades coletivas” nas quais existam as relações de poder. Já, segundo o autor, o discurso como prática ideológica “constitui, naturaliza, mantém e transforma os significados do mundo de posições diversas nas relações de poder” (p. 94). Muito embora pareçam categorias independentes, recorrem-se na prática política a “convenções próprias e ideologias particulares” e na ideologia a dimensão geradora dos significados de poder ”como dimensão do exercício do poder e da luta pelo poder”. A concepção tridimensional do discurso como texto, prática discursiva e prática social é uma tentativa de reunir as dimensões de análise textual e linguística, a análise da prática social em relação às estruturas sociais e a prática social “como algo que as pessoas produzem ativamente e entendem como base em procedimentos, de senso comum, compartilhados”. A hipótese de trabalho levantada não foi estabelecida apenas com base na experiência de análise linguística, mas como uma atividade multidisciplinar oferecendo: – “um quadro analítico”; – identificação dos “aspectos analíticos selecionados que pareçam ser produzidos na análise de discurso; – abolição de termos técnicos e jargões proibitivos; – servir de referência às linhas particulares de análise”. Fairclough detalha ainda cada dimensão referindo-se a análise textual organizada em quatro itens: ‘vocabulário’; ‘gramática’; ‘coesão’ e ‘estrutura textual’. A análise da prática discursiva envolve a força dos enunciados, a coerência e intertextualidade, os processos de produção, distribuição e consumo textual, sujeitos aos processos de interpretação. Na análise da prática social, discute o conceito de discurso em relação à ideologia e ao poder – hegemonia, questionando a natureza ideológica de todo discurso na medida em que “incorporam significações que contribuem para manter ou reestruturar as relações de poder” (p. 121). As discussões na finalização do capítulo tratam da mudança nas ordens do discurso e os aspectos de abertura para essas mudanças. | |
Resenha crítica do capítulo "Teoria social do discurso", de Norman Fairclough
Fichamento - A narrativa cinematográfica de André Gaudreault François Jost
Fichamento do livro: GAUDREAULT, André; JOST, François. A
narrativa cinematográfica. Trad. Adalberto Muller, Ciro Inácio Marcondes e Rita
Jover Faleiros. Brasília: Ed. Universidade de Brasília, 2009.
Autoria: Karla Adriana Nascimento Cunico
p. 37
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As dificuldades das descrições linguísticas do visual
devem-se ao fato de que “a imagem mostra, mas não diz” (JOST, 1978),
portanto, cabe o questionamento como o plano cinematográfico significa e como
ele narra. Essas duas questões são tratadas por Metz, na medida em que ele
não questiona o que os filmes narram. Para ele, prioritário é compreender
como a imagem móvel – que pode estar aquém da narrativa – significa.
Interrogação que suscita uma segunda questão: até que ponto se pode admitir
que o cinema seja uma linguagem? É para contrapô-lo à língua que o semiólogo
se esforça em demonstrar que nenhum plano é equivalente a uma simples palavra
e que, inversamente em toda imagem existe pelo menos um enunciado: “a imagem
de uma casa não significa 'casa', mas sim 'eis uma casa'” (METZ, 1968, p.
118).
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p. 46
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[…] a imagem funciona como um índice, no senso de Charles
Peirce, na medida em que ela parece, para o espectador, ter sido diretamente
“afetada” pela espacialidade e a temporalidade do objeto representado. Como
diz Peirce:
um índice é um signo que remete a um objeto que ele
denota, porque ele é realmente afetado por esse objeto […]. Na medida em que
o índice é afetado pelo objeto, ele possui necessariamente alguma qualidade
em comum com o objeto, e é dando atenção às qualidades que ele pode ter em
comum com o objeto que ele remete a esse objeto (PEIRCE, 1978, p. 140)
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p. 49
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Admite-se que “um documentário se define como apresentando
seres ou coisas existindo positivamente na realidade afílmica” (SOURIAU, 1953,
p. 7), enquanto a ficção tem o poder de criar mundos, mesmo se ele ou eles se
assemelharem ao nosso. A realidade afílmica, isto é, a realidade “que existe
no mundo habitual, independentemente de qualquer relação com a arte fílmica”
é um mundo que pode ser verificado (dependendo dos conhecimentos do
espectador do universo espaço-temporal em que vive), enquanto o mundo da
ficção é um mundo em parte mental, que tem suas próprias leis (SOURIAU, 1953
p. 7). De maneira que o que sucede em tal ou qual narrativa fílmica e que nos
parece verossímil pode parecer absurdo em outro.
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p. 64
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[…] os documentários são geralmente feitos de modo que
prestemos mais atenção àquilo que é dito pelo entrevistado do que o modo como
é filmado.
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p. 67/68
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O cinema tem uma inclinação quase “natural” pela delegação
narrativa, pelo encaixe do discurso. A razão disso é, no fundo, bem simples:
é que o cinema mostra personagens em ação que imitam os humanos, em suas
diversas atividades cotidianas, e uma dessas atividades, à qual nós nos entregamos
todos, de um momento a outro é a de falar. E, falando, a maioria dos humanos
é levada a utilizar a função narrativa da linguagem – a narrar, a se narrar.
Ora, no cinema, esse fenômeno é acentuado, pois utiliza, cinco matérias de
expressão – as imagens, os barulhos, as falas, as menções escritas e a
música.
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p. 74
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Chegamos mesmo a vislumbrar o reagrupamento das matérias
de expressão sob a dependência ou a tutela de substâncias particulares: como
André Gardies (1987), que divide em três subgrupos as diversas
responsabilidades narrativas do
“enunciador fílmico”, que modulará a voz de três subenunciadores, cada um
responsável, respectivamente, pelo icônico, pelo verbal, pelo musical.
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p. 85
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Como todas as outras formas de narração, a narração
fílmica presume a comunicação de informações narrativas entre duas instâncias
situadas cada uma em uma ponta da cadeia. O narratário de uma narrativa é
aquele ou aquela a quem ela é destinada, é assim submetido, a um processo
comunicacional no momento em que o narrador libera para ele uma multitude de
informações sobre o universo diegético onde evoluem os diversos personagens
da narrativa, assim como sobre esses próprios personagens e, é claro, sobre
as ações que eles realizam.
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p. 92
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Efeitos de linguagem: a palavra traz algumas informações
que a imagem muda não pode fornecer:
a) dirige os espectadores para diferentes significados
possíveis de uma ação representada visualmente. É sua função de fixação.
b) dá um sentido ideológico, permitindo um julgamento a
respeito daquilo que a imagem não pode apresentar de modo assertivo; desse
modo dá instruções ao espectador para interpretar aquilo que vê.
c) ela nomeia aquilo que a imagem só pode mostrar: os
lugares, os tempos, os personagens.
d) acrescenta à narração a possibilidade do discurso
direto por meio da transmissão das réplicas do personagem.
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p. 93
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Efeitos narrativos: a palavra ajuda a construção da
história:
a) as informações verbais contribuem para a formação do
mundo diegético: situando, no tempo e no espaço, as imagens que vemos,
construindo o caráter dos personagens, nomeando os personagens, estabelecem o
quadro de interpretação no qual a história que vemos acontecer parece
verossímil.
[…]
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p. 105
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O espaço é um dado incontornável que não podemos desprezar
quando se trata de narrativa: a maioria das formas narrativas inscreve-se em
um quadro espacial suscetível de acolher a ação vindoura. A narrativa
cinematográfica, quanto a isso, não é exceção. Parece até mesmo ser difícil
conceber uma sequência de eventos fílmicos qualquer que não esteja, sempre,
inscrita em um espaço singular. A unidade básica da narrativa cinematográfica,
a imagem, é um significante eminentemente espacial, de maneira que, ao
contrário da maioria dos outros veículos narrativos, o cinema apresenta
sempre, simultaneamente as ações que fazem a narrativa e o contexto de
ocorrência delas.
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p. 111
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Se partirmos do princípio de que “enquadrar é admitir o
dentro do campo e simultaneamente rejeitar o fora do campo” afirma Gardies
(1981, p. 79), não é, entretanto, espantoso que o fora do campo diegético
tenha, historicamente, sido convocado tão rapidamente para fazer um papel no
mínimo crucial. Campo e fora do campo, espaço presente e espaço ausente.
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p. 115
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A relação da câmera com o espaço é, portanto, de uma
importância muito grande no plano narrativo, já que, como notamos, é graças à
mobilidade da câmera (no duplo sentido da ação de mobilizar, de fazer mexer)
que o cinema desenvolveu boa parte de suas faculdades narrativas. Essa
mobilidade é, aliás, operada a partir de dois parâmetros que devem ser
distinguidos: o deslocamento da câmera entre os planos, tal qual definiremos,
e também o próprio movimento de câmera durante o curso do plano (panorâmica,
travelling). Esses são, certamente, dois parâmetros que têm em comum esse
ganho sobre o espaço, necessário para se obter a flexibilidade narrativa que
caracteriza tão bem o cinema. Mas o primeiro permite realizar uma série de
proposições narrativas difíceis de ser expressas unicamente pelos recursos
dos movimentos de câmera.
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p. 139
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É justamente pelo fato de o filme falado ser uma dupla
narrativa que a ordem temporal é frequentemente uma resultante complexa, que
combina o que é representado visualmente pelos atores e o que é relatado
verbalmente por um narrador.
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p. 142
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Como vimos para analisar um filme, é importante considerar
as analepses (retrocessos no tempo) que ocorrem na linguagem e os índices
temporais fornecidos pela imagem.
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p. 145
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Ao contrário do romance, o cinema articula, como já
dissemos várias vezes, muitas “linguagens de manifestação”. Tal
multiplicidade (assim como, pensando somente na imagem, cores, gestos,
expressões, vestimentas, objetos, etc., ad infinitum), que é além disso,
multiplicada pela pluralidade de materiais de expressão (imagens em
movimento, as menções escritas, os barulhos, as falas e a música), põe o
espectador na presença de uma quantidade importante de signos (e, portanto,
de eventos) simultâneos, de maneira que e simultaneidade das ações diegéticas
está intimamente ligada à sucessividade.
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Anais de Resumo ENIPAC
Confira os anais de resumo do 1º Encontro Internacional Interdisciplinar em Patrimônio Cultural - ENIPAC
Objetivo: possibilitar reflexões sobre o patrimônio cultural na contemporaneidade
Data: 20 a 22 de junho de 2012
Local:Anfiteatro I - UNIVILLE - Campus Joinville- SC
Confira aqui:
Anais de Resumo ENIPAC
Objetivo: possibilitar reflexões sobre o patrimônio cultural na contemporaneidade
Data: 20 a 22 de junho de 2012
Local:Anfiteatro I - UNIVILLE - Campus Joinville- SC
Confira aqui:
Anais de Resumo ENIPAC
Resenha Crítica - ANALÍTICAS CULTURAIS de Lev Manovich
Resenha Crítica
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Sandra Pereira
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Referência
do Texto:
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ANALÍTICAS CULTURAIS
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Palavras-chaves
(3):
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ANALÍTICA – CULTURA - DIGITAL
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Desenvolvimento do Texto:
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Lev Manovich (Moscou, 1960), crítico de cinema e professor universitário estabelecido nos Estados
Unidos. É
pesquisador na área de novas mídias, mídias
digitais, design e estudos do software (software studies). Mudou-se para Nova Iorque nos anos
1980, onde
realizou seus estudos em cinema e computação. Atualmente, Manovich
atua como professor e coordenador do Centro de Pós-graduação em Humanidades
Digitais (Digital Humanities) na City University of New York (CUNY), local onde
fundou o primeiro centro de pesquisa dedicado ao tema das humanidades digitais,
com programas de mestrado e doutorado na área e coordena o Laboratório de
Estudos do Software (Software Studies Initiative - www.softwarestudies.com.br)
em parceria com o CALIT2, da Universidade da Califórnia em San Diego (UCSD), o
Graduate Center da CUNY e a Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).
Desde 2006, Manovich passou a se dedicar a analisar a chamada "sociedade do software". O seu grupo de pesquisa em Software Studies dedica-se a pensar os efeitos do software na sociedade e de que forma o software vem transformando a maneira como vivemos, pensamos, tanto economicamente quanto culturalmente,seus textos tratam de "cultural analytics", ou "analítica cultural", uma forma de se pensar nos efeitos do software sobre as representações culturais. Em, “Como acompanhar culturas digitais globais ou Analíticas Culturais para iniciantes”, o autor vem nos alertar que em tempos globais, qualquer pessoa, em qualquer parte do planeta, ao criar um blog passa a ser considerada uma produtora de conteúdo cultural nascido em meio digital, ainda que amadoristicamente, e pode compartilhá-lho com o mundo todo. Portanto, a oferta de produtos culturais não se restringe mais aos pólos geradores de cultura tradicionais como Paris. Pulverizou-se a produção de conteúdos tanto profissional quanto amador e –sublinha o autor – as cidades do terceiro mundo e as do leste europeu, regiões ainda em expansão econômica, tem sido as mais receptivas aos novos softwares que possibilitam produzir arte, haja vista os vários sites de arquitetura no qual profissionais de todas as partes disponibilizam seus portfólios. É a globalização da cultura em meio digital! É a redefinição do que é cultura.
No entanto, o autor alerta para outra situação: antes, os teóricos culturais e historiadores poderiam gerar teorias e histórias baseadas em pequenos conjuntos de dados, por exemplo, conseguiam escrever sobre o "cinema clássico de Hollywood" ou sobre o "Renascimento italiano" pois a produção desses artefatos estava concentrada em alguns pólos e era necessário ir até eles, participar das exposições para poder escrever sobre os mesmos. Porém, como conseguir apreciar e acompanhar a cultura que agora se cria em meio digital, e que é globalmente, produzida e ofertada diariamente por centenas de milhões de contribuintes no mundo todo? Como conseguir compreender como se deu o desenvolvimento de determinado produto, entender como cada “artista” concebeu sua “obra”? Quais as aspirações que subjazem em cada trabalho?
Manovich frisa que não é possível “catalogar” tais conteúdos com as ferramentas que eram utilizadas no século 20 e aponta com uma possiblidade: “E se utilizássemos os softwares e computadores (que hoje em dia são onipresentes) para tal função?”
Um dos objetivos que se acredita seja possível atingir mediante a utilização da Analítica Cultural é analisar quantitativamente a estrutura desses objetos e visualizar os resultados revelando os padrões que se escondem sob a estrutura e que não são possíveis de serem trabalhados sem a ajuda das capacidades de percepção e cognição humana. Outra possibilidade é estabelecer uma taxonomia para os diferentes tipos de conteúdo. Essa taxonomia pode orientar a elaboração de estudos e pesquisas, bem como, ser usada para agrupar esses estudos uma vez que começam a se multiplicar considerando o incremento da quantidade de conteúdo digital disponibilizada a partir de meados da década de 1990.
O autor argumenta que a utilização sistemática de análise computacional em grande escala e a visualização interativa de padrões culturais vai se tornar uma grande tendência na crítica cultural e nas indústrias culturais nas próximas décadas. O que vai acontecer quando os humanistas começarem a usar visualizações interativas como uma ferramenta padrão em seu trabalho, da mesma forma como muitos cientistas já o fazem? Se através de slides (apresentações) é possível ensinar e aprender sobre história da arte, e se através de um projetor e da gravação de um vídeo é possível, igualmente, ensinar sobre cinema, fica a curiosidade: que tipo de disciplinas culturais (cadeiras nas universidades) podem vir a surgir a partir do uso da visualização interativa e da análise de grandes conjuntos de dados culturais? Que tipos de novas demandas teremos? Afinal, com uma boa base de dados, estatisticamente analisados, é possível inverter o fluxo da produção cultural: se antes um jovem arquiteto lançava um portfólio arriscando-se a não vender seu produto; mediante análise da preferência do público ele pode atender melhor suas demandas e as chances de vender seu produto serão maiores. E assim é com todo tipo de artefato cultural ofertado pela web.
Aos livros, jornais, revistas, filmes, obras de arte e arquivos de som, que estão sendo digitalizado em escala maciça, é possível aplicar técnicas de análise de dados para grandes coleções de diversos recursos do patrimônio cultural do mesmo modo como já se aplicam essas técnicas aos dados científicos. Como essas técnicas podem ajudar os estudiosos a utilizar tais análises para fazer novas perguntas sobre o que é o conhecimento e sobre como obter novos conhecimentos para o benefício da humanidade? Como construir novos conhecimentos?
Se quisermos estudar quais os estereótipos culturais contemporâneos e quais convenções delineiam a produção cultural atual, basta analisar os portfólios disponibilizados por contribuintes ainda “não profissionais” pois no afã de querer se profissionalizar, os mesmos acabam, inadvertidamente, expondo os códigos e os protótipos (ou modelos) utilizados nas indústrias de uma forma muito clara. Ou seja, é possível perceber e desenvolver estudos sobre tendências culturais a partir da percepção de padrões.
Manovich faz uma profecia em 2009 e que se cumpre na atualidade: sempre que acessamos a internet somos de algum modo “acompanhados” e há vários ícones piscando, pedindo para serem clicados e que funcionam como “agentes” que rastreiam os sites que visitamos e registram nossas preferências. Tais procedimentos geram estatísticas e estudos de tendências de consumo que são vendidos para todos os tipos de indústria de modo que possam produzir de acordo com o esperado pelos clientes. Nesse sentido, a indústria cultural também se utiliza das mesmas ferramentas de análise. Se considerarmos que muito do que se disponibiliza atualmente na internet pode ficar armazenado em nuvens e deslocando esse argumento para a discussão dos bens culturais sob a ótica da preservação dos mesmos enquanto patrimônios culturais imateriais disponibilizados digitalmente, é de se imaginar que muito em breve não haverá mais necessidade de registrar tais acervos e surge o questionamento: preservar para quê e para quem?
Ainda no tocante aos patrimônios culturais materiais e imateriais a escolha quanto ao que deve efetivamente ser preservado sempre costuma ser fruto de ajuizamentos feitos segundo os interesses de quem quer preservar. Nem sempre a decisão de preservar um patrimônio nasce no bojo das discussões interativa entre múltiplos atores sociais. Nesse sentido, Manovich nos faz pensar que sendo a internet um território no qual todos podem disponibilizar e ofertar seus bens culturais, a decisão de quais acervos manter digitalmente para fruição permanente do público implica numa descentralização de poder, a partir do momento em que se leva em conta estudos estatísticos e humanísticos para melhor atender o público que consome arte, a própria oferta de um cardápio variado de produtos culturais implica em processos de seleção mais democráticos pois se atenta à formação do gosto sempre que se considera os estudos e indicadores que refletem as aspirações de quem consome tais produtos.
Texto interdisciplinar dirigido para designers, produtores culturais, escritores, pessoas envolvidas em processos de registro de patrimônios culturais imateriais, antropólogos, sociólogos, historiadores, profissionais de informática pois, o texto ao abordar a produção cultural e seus mapeamentos, abre para discussões e imbricamentos vários.
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Observações:
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Artigo disponível em inglês e alemão,
retirado do blog: http://lab.softwarestudies.com/p/publications.html
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Artigo publicado na Revista Publicatio UEPG: Ciências Sociais Aplicadas, No 21 (2013)
FLUXOS IDENTITÁRIOS A PARTIR DO REFERENCIAL LINGUÍSTICO E
INTERFACES CULTURAIS: UM ESTUDO SOBRE TRANSFORMAÇÕES E
DESLOCAMENTOS CULTURAIS ENTRE DESCENDENTES DE ALEMÃES
EM JOINVILLE-SC
Jailson Estevão dos Santos1
Taiza Mara Rauen Moraes2
RESUMO
No presente artigo, os focos de análise são referenciais linguísticos associados a fluxos identitários que motivaram transformações, deslocamentos e criação de mitos entre descendentes de alemães em Joinville-SC. O período investigado é o do “Estado Novo”, atrelado à campanha de nacionalização do governo Getúlio Vargas. Momento de transformações políticas e sociais que culmina na proibição do uso da língua alemã no Brasil, amplamente falada em Joinville/SC, repercutindo em mudanças identitárias pelo sufocamento linguístico e cultural.
Palavras-chave: Identidade. Cultura. Referencial linguístico.
1 Teólogo e professor (Português e literaturas vernáculas), especialista em educação. Mestrando em Patrimônio Cultural e Sociedade: UNIVILLE – Universidade da região de Joinville. Email: jeste@ig.com.br
2 Professora titular do curso de Letras e do Mestrado - UNIVILLE – Universidade de Região de Joinville, com mestrado e doutourado em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina. Coordena o Comitê Proler Joinville e o Programa Institucional de Incentivo a Leitura da Univille. Desenvolve projetos de pesquisas na área de Letras e Cultura, com ênfase em Leitura em Meios Eletrônicos, Memória e Gênero. E-mail: taiza.mara@univille.br
Confira o texto completo na página da Revista Publicatio UEPG: Ciências Sociais Aplicadas, No 21 (2013): FLUXOS IDENTITÁRIOS A PARTIR DO REFERENCIAL LINGUÍSTICO E INTERFACES CULTURAIS: UM ESTUDO SOBRE TRANSFORMAÇÕES E DESLOCAMENTOS CULTURAIS ENTRE DESCENDENTES DE ALEMÃES EM JOINVILLE-SC
XIII Congresso Internacional da ABRALIC
Do dia 08 a 12 de julho, ocorreu em Campina Grande - Paraíba o XIII Congresso Internacional da ABRALIC, a professora Taiza Mara Rauen Moraes participou de uma comunicação com a pesquisa Poética Tecnológica: O blog como espaço de leitura do literário
SIMPÓSIO:
ENSINAR LITERATURA: AS (CON)TEXTURAS DO SABER LITERÁRIO NA CONTEMPORANEIDADE
COORDENADORES: MARTA
APARECIDA GARCIA GONÇALVES e ROSANA CRISTINA ZANELATTO SANTOS
Resumo:
Contemporaneamente a leitura do literário pode ser desenvolvida em
espaços de imbricamentos das linguagens verbal, icônica e visual,
viabilizados pela tecnologia . O blog se constitui como um espaço virtual que
propicia a leitura em rede e a postagem de impressões críticas partilháveis por
um grupo e simultaneamente disseminadas pela internet, rompendo as fronteiras
entre espaços públicos e privados, bem como a percepção de diferentes
textualidades, do texto para o hipertexto. Práticas leitoras que estabelecem
várias possibilidades de diálogo do texto literário com textos visuais,
jornalísticos, históricos, filosóficos tecendo enredamentos múltiplos. Desse
modo, a pesquisa apresentada é uma análise de experimentos de leitura no blog
www.poeticatecnologica.blogspot.com instrumento que auxilia e (re)configura o
ensino de literatura propiciando o registro do movimento do sujeito como autor
e receptor. As ideias foram ancoradas nos conceitos de Lévy (1997, 2003),
Foucault (1992), Benjamin (1980), Bauman (2011), Santaella (2008), Darnton
(2010) e Jameson (2007), que discutem
livro, leitura, literatura, autoria, ciberespaço e cibercultura.
Palavras-chave: blog; leitura; literatura.
Seminário Patrimônio Cultural e Herança Social
Seminário Patrimônio Cultural e Herança Social
Data: 12 a 14 de agosto (Inscrição: (47) 3461-9004 –
eventos@univille.br)
Horário: 19h às 22h
Local: Anfiteatro da Biblioteca Universitária
Professora Dra. María Laura Gili
- Professora Adjunta da Universidad Nacional de Villa María, Córdoba,
Argentina. Membro do Centro de Arqueologia Histórica, Departamento de
Arqueologia, Facultad de Humanidades y Artes, Universidad Nacional do Rosario,
UNR.
Mediação: Professora Dra. Taiza
Mara Rauen Moraes - Mestrado Patrimônio Cultural e Sociedade e Departamento de
Letras – UNIVILLE.
Questões problema
Quais as relações existentes entre os bens
culturais, o Estado e seus produtores? Os diferentes setores sociais que
convergem para o Patrimônio Cultural Integral. História e patrimonialização do
passado.
Objetivos
1. Abordar o patrimônio
integral como problema de investigação específico das ciências sociais no
contexto de produção latino americano.
2. Analisar o patrimônio
integral como espaço de entrecruzamento político e da cultura, material e
simbólica.
3. Refletir sobre as
implicâncias éticas do estudo e da gestão das heranças sociais
Temas
1. As distintas formas do
patrimônio integral: histórico, cultural, natural, arqueológico e
antropológico.
2. Patrimônio Cultural e
história: o uso do passado. A herança social como memória coletiva.
3. Patrimônio cultural e educação: a formação da
identidade processos de invenção de tradições, o caso da história argentina.
4. Patrimônio cultural e ética: a diversidade e o
conflito.
5. Patrimônio cultural e interculturalidade.
RESENHA - Michel MAFFESOLI – Elogio da razão sensível
RESENHA - Capítulo VI – A experiência. 1 – O senso comum. 2 – A Vivência pp.161-183. In: MAFFESOLI, Michel – Elogio da razão sensível. Trad. Albert Christofhe Migueis Stuckenbruck. Petrópolis, RJ: Vozes, 1998.
Laura Meireles Gomes
Moura[1]
1 –
O senso comum
Neste capítulo Maffesoli
aborda os caminhos de aproximação e distanciamento entre o discurso
especializado e o senso comum passando por todas as paisagens de sedimentação
de conceitos corretivos e da fragilidade da legitimação desse último,
destituído assim, de um valor em si mesmo para ser questionado e validado. A
validação do discurso especializado pelo
“corte epistemológico” é a questão posta neste capítulo.
Maffesoli considera a
intuição e o uso da metáfora como expressões do senso comum e ata-os ao patamar
da legitimidade pura, visão que se prende claramente àquilo que lhe confere e
importa à vida, na proximidade da construção dela própria sem se ater a moldes
do sistema teórico.
A mitologia é utilizada
com o recorte do mito de Dionísio, ao tratar o saber também por esse
olhar – o saber enraizado da divindade arbustiva de Dionísio, o mesmo que M.
Weber chama de emocional ou afetual, próprio à comunidade, o que nos faz
compreender a integração entre saber orgânico-corporal e o saber social. Assim
sendo, são considerados simultaneamente importantes os dados profundos e de
superfície que permeiam a cultura como fundamentos da ordem grupal. Maffesoli, também
salienta que o racionalismo empenhou-se em passar a borracha em tudo que era da
ordem do sentimento comum, fazendo dessa concepção um encontro com a
metodologia de construção do conhecimento científico.
Portanto, o ponto de partida
de Maffesoli é a “representação compreensiva” de Nietzsche que denomina “enraizamento dinâmico”, advindo do
substrato construído de geração em geração e que lembra os vínculos de passado
e futuro, provenientes dos enraizamentos da reflexão conferindo já, uma
dinâmica do sensível na evolução social.
Ao passar por vários pontos
de referências filosóficas nesse sentido, a valorização do ordinário, da
sabedoria popular, associam-se ao simbolismo da árvore que se expande e eleva o
senso comum à expressão de presenteísmo que serve de pivô entre passado e
futuro e de toda a carga simbólica dos arquétipos – regime diurno e noturno que
nas raízes da antropologia alimentam, pelos caminhos da seiva, essa árvore
assegurando-lhe um crescimento natural que oferece os frutos do comunitário. Dessa
forma é acentuado que o que precede a qualquer racionalização é a vivência comum que pode tomar formas
diversas, mas que, nem por isso, exprime menos extraordinariamente o querer
viver que constitui a sociedade.
2 –
A Vivência
Ao ligar a vivência, a
experiência sensível a laços importantes e significativos do saber, quebra-se
aqui os conceitos preestabelecidos que compartimentam o saber e a reflexão e
deles desvinculam a experiência sensível, como não pertencente às bases
racionais.
Maffesoli propõe a ênfase da
vicência cotidiana e da sabedoria popular, fundamentos da sociologia, como
forma de reformulá-la atribuindo-lhe a denominação de “sociosofia” como forma
de integrar e compreender a “mística do estar junto” explicando as agregações
sociais não pela visão racionalista, mas pelos vínculos e as relações de pertença.
Utiliza-se da “fórmula” de Fernando Pessoa: “Uns governam o mundo, outros são o
mundo” como forma de propor a “centralidade subterrânea” determinando a
socialidade e não as formas econômico-políticas como determinantes da vida
social.
O teórico outras formas de
pensar o vínculo social fora das grandes categorias que marcaram a modernidade:
História e a Crítica, passa a ofertar a vivência um outro patamar cujo foco é o
cotidiano envolto pelas paixões e os afetos que Bergson denomina de “duração” –
pequenos “instantes eternos” que impregnados de significações passam da
efemeridade do momento para momentos perduráveis em sua globalidade.
Um aspecto importante é a
cientificação do estudo da cultura que quando se torna essencialmente normativo
perde a essência principal, atribuindo ao fetichismo para perceber o que há de vivo na cultura
delegando desta forma, a inteligência aos locais de confinamento desta: as
universidades, os centros de pesquisa, cada vez mais distantes da vida
real.Estes sistemas explicativos e normativos – universalismos abstratos tendem
a explicar todos os acontecimentos submetendo a existências às teorias que
entendem explicá-la permanecendo fechada numa circularidade.Porém, é necessário
para entender um novo estado de coisas, deitar fora as velhas ideias que
prevaleceram até então, pois são dogmáticas, percebendo a especificidade e
dirigindo-se para a vivência daqueles que são seus protagonistas, do que as
teorias codificadas que já indicam o que esse fenômeno é ou deve ser encontrando
explicações causais, para coisas humanas, mas, sobretudo compreendê-las.
A separação entre a
objetividade e o entusiasmo já é posta entre a ciência e as obras de ficção
numa modernidade ofuscada pelo saber científico e técnico, deixando clarear-se
a visão quando se constata empiricamente que o sentimento comum, quer no júbilo
ou na crueldade, é o que importam – experimentar, juntos, emoções comuns. Assim
fazendo, incorporamos o mundo, e nos incorporamos ao mundo. E isso, no sentido
mais simples, tornando-nos um corpo global, um corpo social, isto é, um corpo
animado. Um corpo construído a partir da união dos contrários, um corpo que
alia, ao mesmo tempo, o material e o espiritual, o sensível e o inelegível. Um
corpo social que repousa antes demais nada sobre a colocação dos corpos
individuais em relação, e, igualmente sobre o fato de que esta colocação dos
corpos em relação secreta uma aura específica, um imaginário específico que é o
cimento essencial de toda vida em sociedade.
Síntese Crítica Cap. II O que é Arqueologia. In: ARQUEOLOGIA de Pedro Paulo Funari
Karla
Adriana Nascimento Cunico[1]
FUNARI, Pedro Paulo. ARQUEOLOGIA. São Paulo: Ática 1988.
2. O que é a Arqueologia
Delimitação
de um campo de pesquisa
Delimitar
o campo de atuação da Arqueologia não é uma tarefa simples, entre os próprios
profissionais da disciplina não há consenso, pois esta ciência encontra-se em
plena construção. Para Funari (p. 09), “a Arqueologia estuda os sistemas
socioculturais, sua estrutura, funcionamento e transformações com o decorrer do
tempo, a partir da totalidade material transformada e consumida pela sociedade”.
A partir deste conceito partem-se várias discussões, o autor (p. 09) levanta
três questões que ao serem respondidas podem delimitar esta ciência:
O
que estuda a Arqueologia?
O
que visa a Arqueologia?
Qual
sua relação com outras ciências sociais?
O autor retrata a visão tradicional, amplamente difundia entre os
próprios arqueólogos, de que o objeto de estudos da arqueologia se resume ao
patrimônio material, que basicamente estes profissionais são responsáveis por
“esburacamento do solo e a recuperação de objetos antigos” (p. 10). Funari não
concorda com esta visão e afirma que “não há uma oposição entre os dois níveis
que justifique o estudo apenas das coisas: a cultura refere-se, a um só tempo,
ao mundo material e espiritual” (p. 10). Ele ressalta que ultimamente esta
ciência tem “alargado seu campo de ação para a cultura material de qualquer
época, passado ou presente” (p. 10).
Sobre o objeto de estudo da
Arqueologia, Funari (p. 11) conclui que “a Arqueologia estuda, diretamente, a
totalidade material apropriada pelas sociedades humanas, como parte de uma
cultura total, material e imaterial, sem limitações de caráter cronológico”.
Quanto
à questão: o que visa a Arqueologia? O autor diz “a Arqueologia, partindo dos
elementos materiais apropriados pelo homem, visa à compreensão do funcionamento
e transformação das sociedades humanas” (p. 12).
Já
o tópico sobre as suas relações com as outras ciências humanas, é complexo e se
consolidou como embate entre pesquisadores e profissionais da própria
arqueologia com outros da história e da antropologia. De um lado, estão os que
afirmam que a Arqueologia é uma disciplina
auxiliar que encontra e cataloga objetos materiais oriundos de escavações,
de outro se encontram arqueólogos com uma visão mais abrangente daquela ciência
“enquanto estudo da porção da cultura material, possui uma práxis e uma
reflexão metodológicas próprias, ambas em construções, e cujas características,
ainda embrionárias, justificam sua qualificação como projeto de ciência da
cultura material” (p. 16).
O
cotidiano: o contexto cultural da atividade humana
Neste tópico o autor levanta
um importante questionamento, a análise dos objetos materiais sem que seja
levado em conta o contexto cultural da sociedade que o criou. Há uma
“fetichização dos artefatos, que parecem adquirir independência de seus
produtores e usuários” (p. 17). Em contrapartida, “ocorre uma humanização do
universo material, ocorre uma reificação (coisificação) das relações sociais,
uma alienação da vida social na esfera natural” (p. 17). Funari resume esta
importante questão tratando-a como um “paradoxo: que as relações sociais sejam
tomadas como fazendo parte da esfera natural e os artefatos, em oposição,
adquiram uma trajetória autônoma” (p. 17).
Com
o que se depara o arqueólogo: o contexto arqueológico
Funari, diz que
basicamente o arqueólogo trabalha com escavações e que os objetos normalmente
encontram-se “mutilados e deslocados do seu local de utilização original” (p.
22). Para tratar do contexto arqueológico, o autor faz uma importante
observação ao afirmar que “a Arqueologia nada mais é que uma leitura, um tipo
particular de leitura, na medida em que seu texto não é composto de palavras
mas de objetos concretos” (p. 22). Neste ponto a ênfase é para a dificuldade desta
leitura, “a (in) traduzibilidade do texto arqueológico” (p. 22). Para auxiliar
tal leitura há uma
preocupação crescente
com a interdisciplinaridade, buscando-se um intercâmbio, quanto ao modo de
leitura, com campos de atuação paralelos e complementares. Isto é
particularmente válido no que diz respeito à Semiótica, preocupada com os
princípios teóricos da comunicação – e, portanto, com a leitura em geral –, mas
atinge já outros tipos de leitura, aparentemente distantes da Arqueologia, como
a Psicanálise (p. 22).
Os
artefatos, índices e mediadores
Funari
reafirma que os artefatos de determinada sociedade remetem as relações
socioculturais desta, eles são “sempre índice
das relações sociais nas quais foi produzido e apropriado” (p. 22). Tais
artefatos (ou indícios) podem ser interpretados já que são “produto do trabalho
humano, e, portanto, apresentarem necessariamente duas facetas: têm uma função
primária (uma utilidade prática) e funções secundárias (empregos secundários)”
(p. 23). Além disso, ele “exerce uma mediação nessas relações, atuando como
direcionador de atividades humanas” (p.23).
Cada
sistema social tem seu próprio “universo material” (p. 24), os objetos são
usados pelos humanos como auxiliares na divisão social, hierarquização e na
consolidação da identidade cultural.
Os
objetos arqueológicos na sociedade contemporânea
Funari,
faz uma reflexão sobre artefatos encontrados em escavações arqueológicas e que
são (re)utilizados pela sociedade atual, como instrumentos ou como objetos de
decoração. Ele cita ainda que “boa parte dos objetos, na medida que não possuem
valor material ou cientifico, segundo os padrões sociais vigentes no memento da
recuperação, é novamente desativada e transformada em lixo” (p. 24).
Na
mediada que acontece aquela reintegração de tais artefatos, esses “podem
adquirir funções ideológicas, tanto no sentido de acobertamento de relações
sociais passadas e na sua fetichização como, ao contrário, servindo de elemento
de recuperação do passado para uma crítica do presente” (p. 24/25).
Considerações
críticas
Nesse
capítulo da obra de Funari, dois tópicos se destacam, o primeiro é a afirmação
que o autor faz sobre a “fetichização” dos artefatos, como se os objetos
pertencentes a sociedades extintas tivessem vida própria e pudessem ser
analisados fora do seu contexto cultural/social. O segundo, aspecto a ser destacado é que o autor considera
a Arqueologia uma linguagem, uma forma de ler o mundo, através da cultura
material, assim realiza uma interseção entre a cultura material e sua relação
de subjetividade com a sociedade a qual ela pertence.
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